História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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do texto romano origi-
nal de cada Instituto, para alcançar o espírito exato do
mundo jurídico da época em que foi aplicada aquela lei
(Direito Romano Moderno \u2014 7a ed., 1996, pág. 216).
O emérito professor assistente-doutor da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo, THOMAS MARKY, no
seu Curso Elementar de Direito Romano, 7a ed. de 1995,
adverte aos leitores, no capítulo Introdução Histórica \u2014
que prefere delimitar suas considerações a respeito do
tema, partindo da codificação de Justiniano por conside-
rar esta codificação \u201ccomo termo final do período que estu-
damos\u201d. Não obstante, oferece ao interessado uma síntese
objetiva, clara e precisa do Direito Romano desde a funda-
ção de Roma até Justiniano, e suas aplicações e conse-
qüências durante a Idade Média como um todo, vindo até
aos reflexos nas nossas leis.
Apenas como lembrete, ou melhor, como uma bússola
que nos aponte a rota correta que pretendemos seguir, vale
lembrar o que escreveu o consagrado e sempre atual CAR-
LOS MAXIMILIANO na sua imortal Hermenêutica e Aplicação
do Direito, 2a ed., 1993.
39Capítulo I \u2014 O Começo
\u201c1 \u2014 A Hermenêutica Jurídica tem por objeto o estudo
e a sistematização dos processos aplicáveis para determi-
nar o sentido e o alcance das expressões do Direito.\u201d(Obra
e autor citados, pág. 13.)
Para preparar a monumental obra Maximiliano escre-
veu 384 páginas expondo a síntese acima que engloba toda
a tese. Para desenvolver ordenadamente o livro o Mestre
expôs no prefácio a trilha que iria percorrer. Disse o íncli-
to e imortal jurista, advogado desde 1898, Ministro da Jus-
tiça e de Negócios Interiores (1914 \u2014 1918), Deputado fe-
deral (1911\u20141914 e 1919 \u2014 1923) que: \u201cComo prefiro rea-
lizar obra de utilidade prática, expus as doutrinas avan-
çadas, porém adotei em cada especialidade, a definitiva-
mente vitoriosa, a medianeira entre as estreitezas do pas-
sado e as audácias do futuro. Nas linhas gerais, fui muito
além da Dogmática Tradicional, passei pela Escola Histó-
rica; detive-me na órbita luminosa e segura do Evolucio-
nismo Teológico\u201d (obra e autor citados, pág. 11).
E consagra a lição:
\u201cPODE-SE PROCURAR E DEFINIR A SIGNIFICAÇÃO DE CONCEITOS
E INTENÇÕES, FACTOS E INDÍCIOS; PORQUE TUDO SE INTERPRETA,
INCLUSIVE O SILÊNCIO\u201d (bis in idem, pág. 22).
Recordando o que já escrevemos sobre os povos pré-
babilônicos, vale repetir que assim que, evidentemente,
sem entrar no mérito interpretativo da questão jurídica,
vou seguir, pura e simplesmente, historiando os fatos, ci-
tando os povos e os países, cidades e lugares onde tenha
surgido uma importante manifestação humana com vistas
à promoção de justiça através de \u201cmandamentos\u201d ou \u201cor-
dens\u201d orais e escritas.
Portanto, vamos voltar aos albores da civilização (o
crescente fértil no Egito) para um breve resumo do povo
sumério.
Tudo começou com a descoberta de um túmulo real em
UR, no ano de 1927, pelo arqueólogo Leonard Wooley. Ali
40 História do Direito
estava a prova da existência de uma civilização deveras
evoluída há milhares de anos \u2014 a dos SUMÉRIOS. Antes des-
sa descoberta os historiadores pensavam que nessa região
do achado, a Mesopotâmia, tivessem existido somente duas
grandes civilizações, que eram a dos assírios e a dos
babilônios. Pelo estudo dos escritos encontrados nas esca-
vações, ficou evidente para os pesquisadores que o tipo de
escrita não poderia ter surgido em pouco tempo, mas, ao
contrário, só poderia ser produto de um legado de uma ci-
vilização anterior, face, principalmente, à sua complicada
forma de ser. Graças à menção da cidade de UR na Bíblia,
o arqueólogo Wooley, após anos de pesquisas arqueológi-
cas na região, concluiu que um povo \u2014 os sumérios \u2014 ha-
bitou ali no vale dos rios Tigre e Eufrates há mais ou me-
nos 3.000 a.C.
Era um povo provavelmente indo-europeu, mas não se
pôde, até hoje, confirmar essa hipótese. Sabe-se, contudo,
que eram cognominados os cabeças negras e tinham fei-
ções orientais. Esse povo viveu uma época de lutas inces-
santes, até ser dominado pelo povo babilônico, que se apro-
priou de grande parte de sua cultura, inclusive de suas
práticas \u201ccientíficas\u201d e \u201ccomerciais\u201d.
Todos os autores, como já vimos, são unânimes em des-
crever esse povo (bem como o povo hitita) como altamente
\u201ccivilizado\u201d, com a agricultura desenvolvida e tida como
sua principal atividade econômica. Fazia comércio com
povos vizinhos, envolvendo escambo de metais, madeira e
produtos agrícolas. Utilizava-se, nesse comércio, de DOCU-
MENTOS COMERCIAIS QUE LEMBRAM FATURAS, CARTAS DE CRÉDITO E
RECIBOS. Pagava suas obrigações com moedas, barras de
ouro ou de prata, cuja unidade-padrão era o ciclo de prata.
Os sumérios tinham excelentes conhecimentos de matemá-
tica, desenvolvendo cálculos de multiplicação, divisão, raiz
quadrada e cúbica.
Usavam o relógio de água, conheciam a astronomia e
elaboraram um mapa astral e um calendário dividido em
meses. A sua arquitetura era desenvolvida. A nação suméria
41Capítulo I \u2014 O Começo
foi invadida pelos semitas e no decorrer dos séculos estes
povos se misturaram, a ponto de se transformarem em uma
só nação, que ficou conhecida pelo nome de sua capital: a
BABILÔNIA. Dois legados que chegaram até nós são conside-
rados como os mais marcantes frutos dessa civilização. São
um elaborado sistema de leis que veio a ficar conhecido
como o CÓDIGO DO REI HAMURÁBI (que é o que mais interessa
neste relato) e os jardins suspensos da Babilônia, manda-
dos construir séculos depois pelo rei Nabucodonosor.
O CÓDIGO DO REI HAMURÁBI, encontrado numa placa de
pedra (estela) na cidade de Susa, continha leis compiladas
pelo rei Hamurábi mas, segundo a maioria dos historiado-
res e pesquisadores, nada mais era senão uma revisão do
código sumeriano de Dungi, que serviu de base para o Di-
reito exercido pelos povos babilônicos, assírios, caldeus e
hebreus.
Em síntese, o código definia a sua justiça em termos
de olho por olho, dente por dente, etc. A vítima levava seu
ofensor a um tribunal que, segundo consta, poderia ter sido
no templo consagrado aos deuses ou nas suas proximida-
des (obra citada na pág. 169).
Como disse JACQUETA, lá um juiz agia como um árbitro
e ao final dava sua sentença. Não havia igualdade entre
as três classes em que se dividia a sociedade sumeriana
(os patrícios, os cidadãos e a classe dos servos e escravos).
A penalidade variava de acordo com a classe do apenado e
da vítima. Por exemplo: matar um patrício sujeitava o au-
tor a uma pena mais grave do que se a vítima tivesse sido
um burguês ou um escravo. Como compilações que eram
tanto o Código de Hamurábi, tido como o mais antigo do
mundo, como o Direito Romano, foram fruto de experiên-
cias passadas por outras civilizações, não há nenhuma dú-
vida histórica neste sentido.
Curioso é exatamente este fato. No decorrer do cami-
nho que me proponho percorrer com o leitor, esta antiga
constatação vai ficar, espero, muito mais clara e evidente.
Vale rememorar um fato de notável importância que
veio a dar origem à feitura de um outro código de enorme
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repercussão no mundo. WERNER KELLER no E a Bíblia tinha
razão trata deste assunto assim:
\u201cO reino dos Reis da Suméria e Acad caiu em 1960 a.C.
sob os seus ataques obstinados\u201d, referindo-se aos amoritas,
e continua: \u201cOs amoritas fundaram uma série de Estados
e Dinastias. Uma destas viria finalmente a atingir o pre-
domínio: a primeira dinastia de Babilônia, o grande cen-
tro de poder de 1830 a 1530 a.C. Seu sexto rei foi o famoso
Hamurábi\u201d \u2014 e agora a revelação. \u2014 \u201cEntretanto, uma des-
sas tribos nômades semitas estava destinada a adquirir
uma importância decisiva para milhões de pessoas em todo
o mundo, até nossos dias. Era um pequeno grupo, talvez
apenas uma família, desconhecida e insignificante qual
minúsculo grão de areia numa tempestade do deserto: A
FAMÍLIA DE ABRAÃO, o pai dos