História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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lhe determinaram generosamente 2.250.000
milhas romanas quadradas de superfície. De fato essa su-
perfície, mesmo englobando nela um bom pedaço de este-
pes de além-Jordão, não ultrapassa 25.000 km2. Isto é, pôr
juntas a Grã-Bretanha, a Bélgica ou a Sicília. Do norte ao
sul, S. Jerônimo, que conhecia admiravelmente o país, por
ter vivido longamente perto de Belém, não indicava mais
de 160 milhas romanas, o que dá apenas cerca de 235 km,
ou seja, a distância de Paris ao Havre, ou de Florença a
Roma. \u201cE, após \u201centoar\u201d um hino de louvor aos filhos de
Israel, o ínclito Autor termina esta bela descrição da terra
Palestina explicando que \u201cA um caminhante médio, basta
uma semana para ir (a pé) \u201cde Dan a Barsabé\u201d, dois dias
para uma viagem de Nazaré a Jerusalém, um apenas para
51Capítulo I \u2014 O Começo
descer da cidade santa de Jericó. Isto explica as mutações
perpétuas de que fala a Escritura, as relações de cantão
com cantão\u201d (Autor e obra citados, págs. 10, 11 e 12). E seu
povo como era, como pensava, como agia?
No segundo milênio a.C. os egípcios, a este país, co-
nhecido naquela época por Canaã, chamavam de Retenu
mas englobavam terras da Síria \u2014 Palestina.
O Faraó Tutmósis III (1490 \u2014 1436) passou a tratar o
país e Canaã de Haru ou Huru, porque parte da população
cananéia era de hurritas. Esta designação, segundo os his-
toriadores, englobava toda a Palestina e a Fenícia. Já os
termos cananeu e Canaã surgem nos textos em acádico e
egípcio na Mesopotâmia e no Egito por volta dos anos 1400
e 1300 a.C. Há ainda controvérsias sobre a designação exa-
ta dos povos que habitaram aquela região porque existem
muitas citações bíblicas que designaram aquela população
como de cananeus. Todavia, também o texto bíblico usa,
como designação dos povos, os termos amoreus e hititas.
Curiosamente, os estudiosos descobriram que, no período
posterior ao exílio, o termo cananeu designava o povo fení-
cio ou simplesmente o negociante. \u201cCompreende-se, nestas
condições, que seja difícil estabelecer uma data possível
para a entrada dos ancestrais de Israel em Canaã. Onde a
tradição selecionou e unificou, a realidade foi mais com-
plexa. Alguns grupos, pertencentes ao mesmo étnico e so-
cial podem não ter chegado ao mesmo tempo e do mesmo
modo\u201d (DE VAUX, R., Histoire Ancienne d\u2019Israel, I, Paris,
1971, 253). Assim, o ciclo de Jacó era independente do de
Abraão. Pode-se verificá-lo observando-se as relações tu-
multuosas entre Jacó e Labão, o arameu (cf. Gn. 30-32) o
que permite colocar as origens do ciclo de Jacó na época
em que aparecem os arameus, isto é, mais tarde, no séc.
XVI (a.C.). \u201cUma data no segundo milênio, aqui, parece
inadequada.\u201d
Os ciclos de Abraão e de Isaac, que procedem de gru-
pos estabelecidos no sul da Judéia, têm, ao contrário, me-
nos vínculos tão precisos, mas nada diz que estes grupos
52 História do Direito
se tenham instalado muito antes do século XIV (a.C.). Ou-
tra observação importante: nenhuma das tribos de Israel
traz o nome de alguns dos três patriarcas, de modo que se
põe a questão de saber como situar os clãs portadores das
tradições patriarcas com relação às tribos de Israel. A so-
lução melhor consiste em ver nos patriarcas ancestrais de
grupos anteriores às tribos de Israel e em fazer a origem
das tradições patriarcais remontar a clãs proto-israelitas
(DE PURY, A., Revue Biblique, 85, 1978, 611). Quando se vê
a dificuldade que se encontra em reconstituir a história da
origem das tribos e do seu agrupamento, percebe-se que
esta dificuldade se torna maior em relação a uma pré-his-
tória que, em grande parte, escapa ao historiador\u201d. (Do-
cumentos da Bíblia-2 \u2014 Edições Paulinas,1985, pág. 9.)
 Somos alertados pelos historiadores que a ida para o
Egito de grupos semitas vindos da Palestina cognominados
hicsos representa o início de um período muito obscuro na
história do Egito. Daí, \u201cembora sejam incertas suas rela-
ções com a história bíblica, não se pode ignorar, nas hipó-
teses de pesquisas, esta presença de Semitas estrangeiros
no Egito, presença cuja recordação pode ter desempenhado
algum papel até mesmo nas narrações da Bíblia\u201d (grifos
nossos, obra citada, pág. 18).
Segundo ainda os doutos na matéria enfocada, a pala-
vra HEBREU, segundo se pensa, foi utilizada pela Bíblia para
designar o personagem chamado HEBER, o último neto de
SEM, filho de Noé. A raiz Ibri \u201cque significa passar, que se
encontra na Mesopotâmia sob a forma habirou e no Egito
no termo que designava ladrões vindos da estepe, os Apirou.
O Hebreu é, pois, exatamente, o que passa, o homem das
grandes viagens: a palavra relembra as mudanças prodi-
giosas de UR a Canaã, nos tempos de Abraão, do país do
Nilo ao do Jordão, com Moisés, durante as quais o povo
eleito tomara consciência de si mesmo e do seu destino\u201d
(Daniel-Rops, obra citada, pág. 42). O mesmo autor afirma
que do ponto de vista puramente técnico, o povo que ocu-
pava a Palestina era um grupo de tribos aramaicas que,
53Capítulo I \u2014 O Começo
provavelmente, vinte séculos a.C., tinham-se misturado às
tribos dos habirou ou hebreus e, como nômades, andavam
do Eufrates ao rio Nilo, sempre por Canaã cuidando dos
seus rebanhos. Consta que \u201cos antepassados de Israel im-
puseram a sua autoridade aos bandos de habirou, lhes de-
ram um primeiro rudimento de organização e finalmente
se fundiram com eles\u201d (Autor e obra citados, pág. 44).
 Acontece que mais ou menos em 722 a.C., um relevan-
te fato histórico contribuiu para a indiscutível mistura ét-
nica que ocorreu na terra de Israel: a fusão entre os povos,
principalmente entre arameus, cananeus, feníc ios ,
anatólios e mesopotâmios como povo de Israel. O autor que
citamos é enfático quando afirma textualmente: \u201cNão se
poderia, portanto, falar de uma Raça Judaica\u201d (Autor e
obra citados, pág. 46). Por quê? Indaga-se, porque, para os
historiadores, a questão religiosa é muito mais importan-
te que a étnica. Acredito que sim. Os judeus, salvo melhor
juízo, espalham-se pelo mundo em colônias que, nos pare-
ce, oriundas de etnias locais \u2014 brasileira, alemã, russa,
polonesa, tcheca, americana-do-norte, etc. \u2014 ligadas pela
crença religiosa. Entretanto, não se pode deixar de repa-
rar que, apesar de vago, o traço étnico se repete esteja o
israelita em que país estiver. Coincidência ou não, é um
fator genérico que merece maior consideração com a devida
vênia das autoridades na matéria que pensam o contrário.
DANIEL-ROPS, que defende a tese da ausência de etnia
no povo israelita, que tem como seu argumento o fato de
\u201cum pagão era desprezado e detestado por um fiel de Iavé
não por pertencer a uma raça estrangeira, mas porque pra-
ticava uma religião infame. Se proclamasse a crença no
Deus único, se adotasse a Lei Mosaica e se aceitasse todas
as observâncias, nomeadamente, na sua carne, o sinal da
Aliança, a circuncisão, tornava-se um irmão. Pelo contrá-
rio, um irmão de raça, um habitante da Terra Santa, que
se recusava a obedecer aos preceitos da religião era, ipso
facto, excluído da aliança, já não à raça de Israel\u201d (grifos
nossos \u2014 obra citada pág. 47).
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Falamos na Lei Mosaica, o Código dos Israelitas. Va-
mos, então, a ele, mas antes, externar o meu ponto de vis-
ta sobre a tese de Daniel-Rops. Se adotarmos como um axio-
ma o fato de os Israelitas formarem tão-somente um grupo
étnico (relativo a povo) e não uma etnia (grupo biológico e
culturalmente homogêneo), teremos que admitir a distin-
ção para todos os praticantes religiosos. Assim, Cristãos,
não importando a nacionalidade a que pertencem e vivem,
seriam um único grupo étnico e não mais uma etnia bioló-
gica como brasileiros, alemães, poloneses, russos, etc. Se-
riam simplesmente Cristãos, desde que adotassem as leis
ditadas por Roma para os Cristãos da Igreja Católica
Apostólica Romana, para os ORTODOXOS, a igreja com sede
na Grécia e assim por diante. Evidentemente, o