História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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Não bastavam provas materiais nem mesmo um fla-
grante. Para completar o processo era absolutamente ne-
cessário o Rol de Testemunhas. As testemunhas que só ti-
vessem ouvido falar sobre a falta cometida não tinham
valor jurídico. Não bastava, por outro lado, uma só testemu-
nha. No mínimo deveriam ser arroladas duas, como acon-
tecia no Direito Romano. A testemunha depunha sob rigo-
roso controle dos julgadores, que exaustivamente procura-
vam obter os mínimos detalhes que evidenciassem a vera-
cidade do depoimento. A testemunha, como atualmente,
prestava seu depoimento sob juramento. Só que, naquela
época, um juramento falso tinha pesadas conseqüências.
Segundo se verificou, não ficou provado ter havido em
Israel advogados profissionais. A exemplo dos juízes, qual-
quer pagamento pelos serviços era terminantemente proi-
bido. A absolvição do réu podia ser obtida por um julga-
mento favorável da minoria dos juízes. Todavia para a sen-
tença de morte, só com maioria absoluta \u201ccom mais dois
votos\u201d. A execução da sentença era imediata em caso de
absolvição de réu preso e de 24 horas se condenatória.
Vejamos agora, separadamente, uma síntese de leis
penais e civis:
Direito Civil: três tratados, do Talmude, B. Kamma, B.
Metzia e B. Batha se ocupam exaustivamente das ações de
perdas e danos. A defesa da família também recebia trata-
mento minucioso. O estatuto do estrangeiro diferenciava
em direitos e deveres o residente e o visitante. O Levítico,
no entanto, ordenava que \u201csó um mesmo direito regia o guer
(o estrangeiro \u2014 residente) e o Israelita\u201d.
59Capítulo I \u2014 O Começo
 Os doutos apontam esta lei como diferente da similar
do Direito Romano por ser muito favorável ao estrangeiro
residente em Roma. Este comentário que extraímos dos
historiadores que se ocupavam do assunto não nos permi-
tiu estabelecer (se houve), comparação com a Lei Romana
que concedeu a cidadania aos estrangeiros que viviam em
Roma e em Colônias Romanas jus gentium editada por vol-
ta do I e II séculos d.C). Vale, portanto, uma leitura no
confronto ou colocação entre as leis MOSAICAS e ROMANAS
(collatio legum mosaicarum et romanarum, denominado de
Lex Dei quan praecipit dominus ad Moysein, é uma com-
paração do que se pôde obter de leis judaicas e romanas
relativas ao Direito Penal e sucessório, com fulcro nas obras
de Paulo, Gaio, Ulpiniano, Papiniano, e Modestino, bem
como nas constituições imperiais. Assim, para os interes-
sados, é de todo conveniente o esclarecimento).
Já os textos que determinam o Direito de sucessão ju-
daico estão no Pentateuco, no livro de Jó, de Josué e nos
de Samuel e dos Reis. Há, segundo os historiadores, forte
influência do direito helênico no Direito de Sucessão Ju-
daico. Já o Direito da Obrigações está contido nas Santas
Escrituras e os seus efeitos podem ser vistos na detalhada
jurisprudência dos juízes israelitas.
Direito Penal \u2013 Advertem os Autores que a Sagrada
Escritura não era um código nem Civil nem Penal como,
por exemplo, Código de Napoleão, sistematizado e devida-
mente ordenado. Ao revés, a Sagrada Escritura não era bem
um código penal mas, mesmo assim, fornecia um bom pu-
nhado de preceitos espalhados, é verdade, por ou em mui-
tos livros bíblicos mas fáceis de serem reunidos em um todo
homogêneo.
 Como sempre acontece, o Talmude acrescentou outros
preceitos que os doutores judeus foram inserindo no con-
junto de leis de Israel.
Os crimes e os delitos eram agrupados em cinco cate-
gorias, a saber: atentados contra o próximo, distinguindo
com clareza os atos dolosos e culposos; lesões corporais
60 História do Direito
graves e leves; atentado à moral e aos bons costumes; da-
nos à propriedade alheia; roubo e a legítima defesa inclu-
sive a da propriedade com as naturais agravantes e ate-
nuantes. Todavia os crimes mais graves eram aqueles pra-
ticados \u201ccontra Deus\u201d. Desde o Código da Aliança isso já
ocorria. Normalmente a pena para quem cometesse uma
dessas \u201cOFENSAS\u201d a Deus era a morte. Aliás foi por esta pena
que JESUS foi condenado, tendo os seus acusadores invo-
cado, habilmente, os dois \u201ccrimes\u201d de Jesus; um contra a
lei judaica que o punia com morte por se afirmar filho de
Deus (heresia). Mas, como, naquela época, Roma domina-
va a Palestina, só o representante de César podia autori-
zar a pena de morte. Assim, os juízes israelitas invocaram
as leis romanas alegando que César, como uma entidade
divina, também fora ofendido (negativa de acolher a divin-
dade do Imperador de Roma).
O direito penal judaico era severo, prevendo sanções
pesadas com altas multas, bastonadas, amputação (no caso
da esposa envolvida em briga).
As penas físicas do talião do Código de Hamurábi não
constavam da Bíblia mas eram praticadas pelos Rabinos
por \u201cinterpretação\u201d. A prisão e o exílio vieram mais tarde
a se incorporar às penalidades legais.
Encontramos no tratado denominado Sanhédrim qua-
tro penas pesadíssimas.
\u2022 a lapidação que pode levar o réu à morte;
\u2022 a morte pelo fogo;
\u2022 a decapitação;
\u2022 o enforcamento.
Posso lembrar que Tiago, o primo-irmão de Jesus que
lançou a semente do Cristianismo na Europa através da
Galícia espanhola, foi decapitado por ordem de Agripa II,
em obediência à lei judaica. (Por volta de 40 d.C.) Também
no Tratado Sanhédrim a lapidação era uma forma de exe-
cução especialmente utilizada. Estêvão foi o primeiro cris-
tão a sofrer este martírio. Por sua vez a crucificação que
61Capítulo I \u2014 O Começo
foi o suplício de Jesus era uma prática romana absorvida
dos gregos e que era encontrada na Lei da 12 Tábuas. A
influência grega estava mais perto de Israel do que se po-
deria imaginar. Via de regra, quando se relatam passagens
nas quais o Israelita domina a língua grega (pelo menos a
entendia) e conhecia seus hábitos, a explicação normalmen-
te é dada atribuindo-se ao comércio intenso da Grécia com
Israel e praticamente todos os outros grandes centros do
Oriente Médio.
Mas não. Próximo, muito próximo de Israel, em terras
palestinas, existiam pelo menos dez cidades helênicas que
surgiram desde as campanhas de Alexandre e selêucidas
da Síria. Eram cidades gregas de povoação helênica, co-
nhecidas como a Decápole, que era uma espécie de con-
federação entre as dez cidades. As mais importantes eram
Citópolis, a oeste do rio Jordão, Hippos, Gerasa, Pela, Ga-
dara e Filadélfia, localizadas na Transjordânia. Todas ti-
nham autonomia municipal reconhecida por Pompeu, mas
subordinadas diretamente a Roma. Outras existiam ou vie-
ram a existir, inclusive a cidade de Tiberíades, cujo povoa-
mento era de gregos. Tudo isso complicava o Estado de Is-
rael. A mistura política com uma incrível variedade de par-
tidos e seitas com tendências cosmopolitas ou messiânicas
culminou com o movimento revolucionário dos Zelotes.
Entretanto, Israel permaneceu fiel à Teocracia e assim
atravessou os séculos, não sendo, por causa disso, histori-
camente conhecido, o nome de um só artista israelita.
Segundo os historiadores, tal como acontece com os
árabes, o que impediu o movimento artístico em Israel, me-
nos na arte da ourivesaria, foi a proibição contida na Bí-
blia (Êxodo e Deuteronômio) \u2013 \u201cNão farás imagem talha-
da, nem figura alguma do que há embaixo na terra, nem
no que há nas águas embaixo da terra\u201d. Vale voltar a Vida
Quotidiana na Palestina no Tempo de Jesus para que o seu
consagrado autor, Daniel-Rops, faça a síntese desta curio-
sa faceta do povo israelita. Referindo-se à pobreza das ar-
tes em Israel, Daniel-Rops diz que:
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\u201cA pintura era mais pobre; não se encontrou nenhuma
do tempo de Cristo; os humildes desenhos florais ou geo-
métricos (motivos árabes \u2013 minha observação) que podem
imaginar-se sobre as paredes caiadas das casas judaicas
desapareceram como os ornatos pintados e dourados sobre
motivos esculpidos que deviam brilhar no templo, a famo-
sa Videira de Oiro, por