História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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divertindo e nunca aborrecendo
o discente com textos áridos e maçantes.
Gavazzoni, na realidade, passeia com o leitor pelo Cres-
cente Fértil, mostrando como os antigos habitantes da
Suméria, da Babilônia e da Palestina resolveram seus pro-
blemas jurídicos, ainda muito impregnados de preconcei-
tos religiosos, transcrevendo e comentando textos dos Có-
digos de Hamurábi e de Moisés.
Em seguida leva-o à Grécia, cujo Direito nunca logrou
emancipar-se da filosofia, e a Roma, inspirando-se no ma-
gistério do sempre lembrado mestre José Carlos de Matos
Peixoto e dos romanistas franceses e alemães. Nesse tópi-
xv
co, comenta uma por uma as doze Tábuas que deram par-
tida ao Direito Romano escrito.
Por fim, viaja com a mesma segurança pela Idade Mé-
dia, estudando com proficiência a grande obra de Justi-
niano e a contribuição dos povos germânicos na elabora-
ção do atual Direito do Ocidente, passando pela Revolução
Francesa e pelas monumentais codificações que se segui-
ram, nos séculos XIX e XX.
Trata-se, sem dúvida, de uma obra que veio suprir uma
lacuna na bibliografia jurídica brasileira, até agora estri-
bada quase que só no trabalho de J. Izidoro Martins Júnior
e mais recentemente no de Walter Vieira do Nascimento.
CLÉLIO ERTHAL
Desembargador da Justiça Federal, RJ
xvi História do Direito
1Prólogo
1
Prólogo
SOCIEDADES
A sociedade e o homem não se separam nunca.
Afinal, o que é uma sociedade?
Para responder a esta indagação o homem, SEU CRIA-
DOR, veio através dos tempos elaborando respostas com
tantos requintes que foram escritos inúmeros livros (alen-
tados, por sinal) que formaram um verdadeiro emaranha-
do de conclusões, cada qual mais refinada que a outra, o
que tornou a pergunta irrespondível até o fim dos 1900.
Para começar, alguém que procurou resposta para a
pergunta, inventou mais uma: a SOCIOLOGIA,* que seria
a solução para a indagação. E os doutos apressaram-se em
esclarecer que:
\u2014 Sociologia é a Ciência dos Determinismos
Tendenciais dos Fenômenos Humanos Coletivos.
Quem faz esta afirmação é um dos mais respeitados
Mestres, o Sociólogo emérito, Professor Fernando Bastos
de Ávila, S.J., portanto um Jesuíta (Introdução à Sociolo-
gia, 8ª ed. revista, AGIR S/A. Editora, 1996, RJ, pág. 13).
Por sua vez, a SOCIOLOGIA, que veio para \u201cexplicar\u201d
o que seria uma sociedade, trouxe consigo indagações,
exemplo:
Será a Sociologia uma ciência?
Será esta ciência positiva ou indutiva?
* Palavra inventada pelo pensador A. Comte.
2 História do Direito
Então, como se elabora (planeja) a Sociologia e como
se organiza um programa de Sociologia?
O grande Mestre citado por mim afirma que, \u201cem pri-
meiro lugar, seria a Sociologia uma ciência. Ipso facto,
desenvolve sua concepção dizendo, entre as causas, e efei-
tos nos quais se fundam as CIÊNCIAS FÍSICAS, não pode
haver o determinismo, porque \u201conde há determinismo
não há ciência\u201d (obra citada, pág. 13). E continua justifi-
cando que \u201cno mundo social, no mundo dos fenômenos hu-
manos coletivos, aparentemente não há determinismo\u201d
(obra citada, pág. 13).
Eu vou a um dicionário e procuro na letra \u201cF\u201d o signifi-
cado da palavra fenômeno.
Diz o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portu-
guesa, 11ª ed. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, 1964,
Editora Civilização Brasileira S.A., RJ, pág. 545, que fe-
nômeno pode ser entendido e explicado: \u201c... como efeitos
globais de inúmeras ações e reações individuais e
imprevisíveis dos ELEMENTOS DE UMA COLETIVIDA-
DE\u201d. (grifos meus).
Creio, portanto, que a resposta correta seria entender-
se que SOCIEDADE É SIMPLESMENTE UM MOVIMEN-
TO INERENTE À MAIORIA DOS SERES HUMANOS PARA
VIVEREM EM COLETIVIDADE\u201d.
Será isto um fenômeno?
Talvez.
Porque, certamente, surgirão no seio desta vida comu-
nitária os fenômenos ditados pela própria origem do ho-
mem.
Eles existem?
Sim, existem.
São tendências já suficientemente conhecidas pelo
homem desde quando a História as considera como início
da civilização humana.
Qual a finalidade prática desta busca? Evitar que o
fenômeno ocorra? Utopia. O que me parece lícito buscar
são situações que ofereçam basicamente ao homem segu-
3Prólogo
rança física e material de proteção ao núcleo familiar, in-
cluindo nisto trabalho, justiça, igualdade de oportuni-
dades para os que compõem a comunidade, alimentação
farta, dosagem de castigos para os ofensores da paz comu-
nitária e prosperidade. Foi o que o homem sempre buscou
desde priscas eras. Entretanto, preferiam os doutos, em
sua grande maioria, que uma descrição correta de uma
realidade seria não uma teoria, e sim uma descrição do
fato real acontecido, o que a torna um puro esquema for-
mal recheado de inúmeros fenômenos, o que invalida um
estudo detalhado daquela realidade ou daquele fato real
ou o que a desencadeou.
\u201cPela mesma razão, a acumulação de dados factuais não
é teoria. A acumulação de muitos fatos singulares não vale
uma generalização. Uma teoria não é um mosaico no qual
uma grande variedade de rochas está singularmente re-
presentada. Seria um esquema formal imputável a todas
as rochas. Quanto mais elevado o nível de abstração em
que se situa uma teoria, tanto mais amplo o raio do circulo
de seu valor de generalização, isto é, tanto maiores as áreas
de fenômenos que reassume em si\u201d (FERNANDO BASTOS,
in obra citada, pág. 26). E mais, na opinião do ilustre e
respeitado professor, uma síntese não pode ser uma teo-
ria porque uma teoria também não pode ser uma doutri-
na, já que uma teoria \u201cparte sempre de um tal sistema,
que o cientista vai à prova, à luz dos fatos e das leis regis-
tradas\u201d (bis in idem, pág. 27).
Por outro lado, uma teoria tem que ser estudada à luz
da tipologia ou de uma sistemática (taxionomia), dis-
tinguindo-se para efeito de estudos, teorias estáticas e
dinâmicas (NOTA DO AUTOR \u2014 Sobre estas teorias são
sempre citados, basicamente, os Autores LINNEU, biolo-
gia, CONDORCET in Tableau Historique dês Progrés de
L\u2019esprit Humain e WERNER SOMBRAT, sociólogo alemão).
Seguem-se as recomendações do estudo da lei que germina
de uma teoria dinâmica e da definição que, por sua vez,
brota da teoria estática. Surge, quase sempre, destes es-
4 História do Direito
tudos um modelo que são fórmulas aproximadas de teo-
rias.
Mas, citemos a conclusão de FERNANDO RASTOS DE
ÁVILA, S. J., in obra citada, pág. 30, que afirma, verbis:
\u201cEm termos gerais, uma teoria sociológica seria uma visão
global da realidade social, na qual diversos fenômenos e
eventos sociais, coerentemente estruturados, recebessem
uma explicação cabal, isto é, fossem atingidos em sua es-
trutura causal. Uma teoria sociológica também deveria si-
tuar-se num certo plano de abstração, de outra forma não
saberíamos como distingui-la da crônica ou da história.
Deveria enfim oferecer, dentro de determinadas condições,
certas garantias de previsibilidade\u201d.
Todavia, há diferenças entre teoria e ideologia, já que
a segunda usa como base todo um processo histórico (ideo-
logias conservadoras e revolucionárias) e é sempre seletiva.
Até o final do séc. XX, a Sociologia tomou como dire-
triz básica a ANÁLISE, o que permitiu métodos mais apri-
morados de investigação, mas, infelizmente, ainda não
encontrou soluções práticas para os fenômenos sociológi-
cos do mundo habitado e dominado pelo homem.
Na minha opinião quem mais se aproximou da realida-
de da sociologia foi o inesquecível Mestre Maior, o portu-
guês MARCELLO CAETANO, de saudosa memória. Disse
o mestre que \u201cA vida em sociedade é o modo natural da
existência da espécie humana. Os estudos de arqueologia
pré-histórica e de etnologia dos povos primitivos têm mos-
trado que quanto menor é o domínio do homem sobre a Na-
tureza que o rodeia (isto é, quanto mais rudimentar é a
civilização), mais ele carece de estar amparado pelos seus
semelhantes em grupos fortemente coesos.