História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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de MATOS
PEIXOTO, Curso de Direito Romano, págs. 63 e 64, verbis.
\u201cSegundo LAMBERT, o Código decenviral seria um ver-
dadeiro milagre sociológico, por ser a única legislação pro-
fana da antigüidade, numa época em que todos os códigos
primitivos são estratificações costumeiras, sob a ação di-
vina.
Esse argumento procede de uma ilusão criada pelo es-
tudo do direito comparado: a suposição de que se pode
universalizar todos os fenômenos, sem levar em conta as
condições em que cada fenômeno se produz. Os exemplos
citados por LAMBERT referem-se a legislações orientais (Có-
digo de MANU, leis muçulmanas), que surgiram entre po-
vos antigos do Oriente, de que essa lei seja o único código
profano para um povo de civilização primitiva. Os calmucos
são um povo primitivo e isso não impediu que os seus che-
fes se reunissem nos princípios do século XVIII e elabo-
rassem um código profano. Em condições idênticas estão
os achantis (costa do Ouro), cujo rei lhes impôs um código
elaborado, sem inspiração divina, com o concurso do seu
conselho. Só uma condição é necessária para se fazer uma
codificação: o conhecimento da escrita.
Outra consideração exclui ainda a hipótese de que a
Lei das XII Tábuas haja sido compilada por CNEU FLÁVIO,
nos fins do século IV, ou por SEXTOÉLIO PETO CATO, nos fins
do século seguinte: é a existência de disposições antiqua-
das, em desuso, em qualquer dessas épocas, como normas
relativas ao talião e à sorte do devedor insolvente (venda
Trans Tiberim que como escravo o esquartejamento do seu
cadáver, se havia mais de um credor).
 Para que incluir essas disposições, que há muito caí-
ram em desuso ou foram revogadas, em compilações desti-
nadas a servir às necessidades da prática judiciária?
76 História do Direito
Não se nega que a história das XII Tábuas esteja emol-
durada em episódios lendários, como a tragédia de Virgínia
e a delegação à Grécia. Entretanto, podadas as florescên-
cias fabulosas e romanescas, resta o tronco da árvore. Em
vez de uma história colorida, rica em lances dramáticos e
exemplos morais, encontram-se apenas os nomes dos decên-
viros e as disposições severas da lei. Mas esse resíduo, sem
encanto nem poesia, é um fragmento de verdade\u201d (sic).
77Capítulo II \u2014 Pequeno Apanhado Histórico
77
Capítulo II
PEQUENO APANHADO HISTÓRICO
No ano 252 d.C. as tribos bárbaras começaram a inva-
dir o Império Romano e, com ele, toda a Europa.
Em 337 d.C. o imperador romano Constantino foi bati-
zado cristão, segundo consta, em seu leito de morte. O Cris-
tianismo torna-se, finalmente, a religião do Império Ro-
mano.
Em 410 d.C. os godos saqueiam e queimam Roma. Os
romanos abandonam a Britânia (Inglaterra) para defen-
der Roma.
Em 455 d.C. Roma é assaltada e saqueada, outra vez,
pelos vândalos.
Em 476 d.C. o chefe ou rei dos godos, de nome ODOACRO,
depôs o último Imperador Romano e foi proclamado (por
ele mesmo) Rei de toda a Itália. Acabava o Império Roma-
no Ocidental. Restou o Império Romano do Oriente.
Em 1453 d.C. o Império Oriental é conquistado pelos
turcos otomanos.
A todos esses fatos já nos referimos. Desta maneira va-
mos continuar a nossa caminhada por onde passou o direi-
to em busca da distribuição da Justiça entre os povos. To-
davia um pequeno apanhado histórico se faz necessário.
No ano de 527 d.C., Justiniano foi sagrado Imperador
do Império Romano Oriental, cuja capital, como se sabe,
era Constantinopla. Antes dele houve um outro Imperador
dos romanos de notável importância. Seu nome \u2014 Dio-
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cleciano. Os dois últimos governantes marcaram duas das
quatro grandes épocas em que os juristas dividem o direi-
to romano. Apesar de muitas outras divisões serem defen-
didas pelos doutores da lei, vamos ficar com a divisão da
história do direito romano em quatro grandes e importan-
tes fases.
A história interna envolve mais de um milênio; a his-
tória externa, dividida por duas datas relevantes, fica as-
sim:
1a \u2014 até 510 a.C., denominada época real;
2a \u2014 até 27 a.C., denominada época republicana;
3a \u2014 até 284 d.C., denominada época do principado
(fundada por Augusto);
4a \u2014 até 565 a.C., época do Dominato, fundado por
Diocleciano.
Quanto à época Real, aceita-se a divisão em três épo-
cas:
1a \u2014 São os seis primeiros séculos de Roma. Direito
antigo ou pré-clássico, que vai da fundação de Roma até a
lei Ebúcia, a qual introduziu, conforme foi dito antes, as
leis escritas (de 149 a 126 a.C.);
2a \u2014 abrange quatro séculos e meio e vai da lei Ebúcia
até o fim do reinado de Diocleciano no ano 305 a.C.; é o
período conhecido como o direito clássico;
3a \u2014 abrange dois séculos e meio e termina com a mor-
te de Justiniano e ficou conhecido como o período do direi-
to pós-clássico ou Romano-Helênico (graças à influência dos
filósofos gregos no direito romano).
Segundo os juristas o período de ouro do direito roma-
no aconteceu com os Antônios e os Severos (anos 96 \u2014235)
onde, segundo os doutos, o direito romano atingiu o seu
ponto máximo de perfeição. Segundo o escritor Girard, não
houve, após a LEI DAS XII TÁBUAS, uma lei tão decisiva quan-
to a lei Ebúcia para a história do Direito Romano (in,
Mélanges de Droit Romain, I, pág. 67) apud Matos Peixo-
to, obra citada, pág. 2.
79Capítulo II \u2014 Pequeno Apanhado Histórico
Valendo-me, mais uma vez, das aulas do Mestre Matos
Peixoto, vou transcrever a opinião do imortal romanista e
filósofo IHERING in Esprit du Droit Romain, que não aceita
a divisão da história do direito romano em externa e inter-
na, por entender que esta divisão importa negação de uni-
dade e conjunto da história jurídica romana. (Obra e autor
citados, pág. 3.)
Rapidamente vou lembrar o que ficou entendido como
definição das épocas do direito romano. Em síntese:
1 \u2014 Direito Antigo. Foi um direito simples e formal, a
ponto de não aceitar nenhum erro na formulação de uma
proposição em juízo. Se alguém propusesse, por exemplo,
uma ação contra um vizinho que tivesse cortado sua videi-
ra e usasse na petição a palavra em latim vites em vez de
arbores (árvores) como mandava a Lei das XII Tábuas, a
causa estava perdida. Era usada pelos magistrados uma
interpretação Literal, de ferro.
2 \u2014 Direito Clássico \u2014 O formalismo é substituído por
interpretações moderadas e alicerçadas na eqüidade e no
bom-senso. Só não aceita em nenhuma hipótese um erro
de direito cometido no processo. Ao contrário o erro de fato
admite justificação.
A obra mais importante, de acordo com os professores,
é Ius Civile de Quinto Múcio Cévola (140 \u2014 82) em dezoito
volumes.
3 \u2014 Direito pós-clássico ou Romano-Helênico \u2014 Carac-
teriza-se pelas impropriedades cometidas durante o gover-
no de Constantino. Neste período o direito não tem mais
jurisconsultos e as obras jurídicas são simples compilações
e os julgados têm por base os repertórios de jurisprudên-
cia. Em suma, a praticidade fácil ocupa o lugar das inter-
pretações mais elaboradas.
Atribui-se ao estudo da teologia cristã força preponde-
rante para a declínio do direito pagão.
Mas com Justiniano o direito recebe outra vez um for-
te impulso. Entretanto, vem a ser um direito misturado,
isto é, o direito romano adaptado aos costumes dos povos
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bárbaros, novos senhores da Europa, em obediência aos
novos tempos, levando em consideração os costumes orien-
tais, as condições da sociedade e principalmente, às cren-
ças religiosas dominantes.
Temos, pois, agora, um conhecimento geral das defini-
ções das épocas principais do Direito Romano.
Mas por que toda esta importância dada ao Direito
Romano?
Antes de reiniciarmos a caminhada partindo de Cons-
tantino, não custa relembrar o que aconteceu para que,
historicamente, o direito criado pelos romanos ganhasse a
importância que tem para, praticamente, toda a humani-
dade civilizada.
No ano 527 d.C., como vimos,