História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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Justiniano foi levado ao
poder do Império Romano Oriental. Durante mais ou me-
nos cem anos a Itália esteve dominada pelos reis Bárbaros
de origem Teutônica. Justiniano reconquista a Itália e a
influência do Império Romano Oriental se faz nítida sobre
ela. Em 533, Justiniano começa a codificar o Direito Ro-
mano existente. O código passa a vigorar, como é lógico,
primeiro no Império Romano do Oriente. Quando a Itália
foi reconquistada, a ela se impuseram, conseqüentemente,
as leis codificadas. Na Itália começaram a surgir escolas e
universidades de direito. Já se sabe que a grande obra ju-
rídica de Justiniano foi a criação do CORPUS IURI CIVILIS, o
núcleo do Código Civil, que engloba o código com os esta-
tutos imperiais, o digesto com a jurisprudência, as
Institutas, um tratado básico e as Novelas que fazem refe-
rência ao Direito Romano dos anos 535 a 565 d.C.
O Digesto começa com as palavras de ULPIANO, um dos
mais consagrados jurisconsultos romanos. O primeiro tre-
cho diz:
\u201cQualquer um que tente estudar o direito (jus) precisa
saber primeiro de onde deriva a palavra ius. Se chama ius
de justiça, porque de acordo com a justa definição de CEL-
SO, o direito é a arte do bom e do justo\u201d.
81Capítulo II \u2014 Pequeno Apanhado Histórico
Justiniano acreditava tanto no direito romano que,
mesmo depois de mil anos, afirmava que os jurisconsultos
deveriam ser considerados e respeitados como verdadeiros
sacerdotes da lei (vale recordar que por volta de meados
do ano 400, o direito romano já não era mais distribuído e
aplicado pelos sacerdotes do Templo). Vou destacar como
venho fazendo a evolução do direito romano desde a Lei
das XII Tábuas:
Em 441 a.C. (cem anos depois da promulgação da Lei
da XII Tábuas) é criado o cargo de PRETOR, um magistrado
especial para retirar dos CÔNSULES os seus poderes de ma-
gistrados.
Em 242 surge a figura de outro tipo de PRETOR, o PRETOR
PEREGRINO (praeperegrinus) para se ocupar, prioritaria-
mente, do julgamento de questões entre estrangeiros que
não estavam sujeitos às leis romanas. Deste modo, \u201co di-
reito\u201d distribuído pelo pretor peregrino era um direito pró-
prio de cada pretor, pois, baseado nos costumes sociais dos
estrangeiros sub judice, esse Magistrado dava a sua sen-
tença. Assim um novo direito começa a ser criado. Enquanto
o pretor urbano aplicava o direito do cidadão romano (ius
civile), o peregrino criava, literalmente, o direito das gen-
tes (ius gentium).
H. BARROW, em Los romanos, coleção Breviários, publi-
cado no México, em 1992 (15a tiragem), faz interessantes
considerações sobre o assunto. Diz o ilustre Autor que \u201cEl
pretor era nombrado anualmente. Por consiguiente, le
convería aprovechar el dicto de su predecesor, se asi lo
deseaba; pero podía modificarlo al principio y luego
ampliarlo durante el desempeño del cargo\u201d. Desse modo o
EDITO (grifo meu) estava \u201cen constante desarrollo\u201d, estava
vivo. \u201cEl derecho de los edictos es la voz viva (viva vox) del
derecho civil. Continuamente se le estaban incorporando
nuevas ideas\u201d.
E, em seguida esclareceu que:
\u201cCon el curso del tiempo aumentaran las relaciones en-
tre romanos e itálicos, hasta que en el año 89 a.C. se
concedió la cidadanía romana a todos estes.
82 História do Direito
Hasta entonces habian estado bajo el jus gentium, ad-
ministrado por el protetor peregrinus, que era más amplio
y más equitativo que el derecho de los ciudadanos. Los
ciudadanos, por otra parte, se habian dado cuenta de la
naturaleza del jus gentium. Asi que cuando los itálicos
pasaban a ser ciudadanos romanos, no estaban dispuestos
a aceptar nada que fuera menos amplio, y los que ya eran
ciudadanos romanos estaban siempre dispuestos a aceptar
algo más amplio. El resultado fue que por medio de un
proceso gradual el derecho civil fué aproximandose al
derecho de gentes, que era más amplio. Desde luego, la
ciudadanía implicaba muchas cosas que eran negadas a
los extranjeros, el jus gentium no reemplazó al derecho ci-
vil los siglos II y III d.C.\u201d. (Obra e autor citados, pág. 212.)
Acontece que o governador da Província que fora no-
meado por Roma sempre entre os que ocupavam postos ele-
vados da administração romana e tivessem conhecimento
de leis, tinham o direito de publicar EDITOS (mesma força
de uma lei) inclusive modificando outro EDITO do seu pre-
decessor se assim lhe parecesse melhor. Todavia, sempre,
em qualquer circunstância, deveriam prevalecer as deter-
minações das leis romanas.
No período do Império que, como já foi visto, substitui
o regime republicano, as decisões do Senado romano não
constituíam leis. Eram simplesmente recomendações para
a Assembléia Popular, que as acolhia no todo ou em parte,
ou não.
Caracalla, no ano 212 d.C., deu cidadania a todos que
fizessem parte do Império Romano.
No período em que foram Imperadores Trajano e Séti-
mo Severo, o poder total ficava concentrado nas mãos dos
Imperadores (época do direito romano clássico) que senti-
ram forte influência, recordo, dos jurisconsultos e da filo-
sofia grega.
Fala-se amiúde na influência do pensamento grego so-
bre o direito romano, principalmente na filosofia dos estói-
83Capítulo II \u2014 Pequeno Apanhado Histórico
cos. Acredito que devamos recapitular o que pregavam os
adeptos dessa escola filosófica para melhor nos posicio-
narmos.
Os ESTÓICOS eram uma escola de pensadores gregos fun-
dada por Zenão, no século IV a.C. Assim como os epicu-
ristas, os estóicos se interessaram pelo problema de bem
viver uma boa vida, ou da Ética. Também construíram uma
interessante explicação sobre a natureza do universo, que
desde o filósofo THALES, que viveu na cidade grega de Mileto
por volta do ano 600 a.C., ocupava lugar de destaque den-
tre os pensadores. Basicamente os estóicos defendiam a tese
de que o homem é subordinado intrinsecamente ao ideal
universal e \u201csendo uma unidade no todo e sujeito às suas
exigências, o homem sente-se feliz quando as compreende
e obedece satisfeito\u201d. (S. E. Frost Jr., em Ensinamentos
Básicos dos Grandes Filósofos, edição 87, págs. 25 e 65).
EPICURO, pai da Escola epicurista, entendia que o homem
podia fazer as escolhas e determinar seu destino, porém
ZENÃO com seus estóicos assumiram outra postura. Para
eles \u201co mundo é o resultado de leis fixas e imutáveis ..., até
a vontade do homem é determinada\u201d. Todavia, ao defende-
rem sua posição filosófica sobre \u201co problema de ética ou da
vida justa, os estóicos abandonaram o determinismo com-
pleto de sua metafísica\u201d. (Por metafísica \u2014 esclarece Frost
Jr. \u2014 referimo-nos à concepção dos filósofos sobre o uni-
verso e a realidade.)
Em sua ética (grifos meus) os estóicos ensinam que o
homem pode determinar se obedecerá ou não à lei moral,
se seguirá ou não a razão e se procurará ou não realizar o
supremo bem. Nesse ponto, os estóicos seguem a tradição
de Sócrates, Platão e Aristóteles). (Obra e autor citados
págs. 139 e 140.)
Quanto à política, os estóicos defenderam uma teoria
contrária à dos epicuristas, que ensinavam que toda a vida
social se baseia no interesse próprio do indivíduo. Deste
modo as leis seriam \u201csimplesmente normas que o grupo
aceita de acordo com as quais os membros estão dispostos
84 História do Direito
a viver. Se os membros do grupo entendem que certa lei
não tem valor para conseguirem o que querem, podem
modificá-la ou eliminá-la\u201d (Grifei).
Para Zenão e seus estóicos, \u201co homem é mais que um
mero indivíduo interessado no bem-estar próprio. É tam-
bém um indivíduo dotado de impulso inato, que torna ne-
cessária a vida em grupo\u201d logo, para os estóicos, é univer-
sal e domina o indivíduo. Desta maneira \u201ccada um deve
estar sempre disposto a sacrificar-se pelo bem do estado...
Na verdade os estóicos ensinaram muita coisa que se tor-
nou ponto fundamental do pensamento moderno.
Ao perder a Grécia sua independência, começaram eles
a considerar todos os homens irmãos