História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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e a pregar a
fraternidade universal e a igualdade de direito para to-
dos. Sentiam a doutrina da solidariedade da raça humana
e a dignidade do homem independente de sua posição na
sociedade, riqueza, nascimento e educação. Pode-se resu-
mir sua idéia nestas palavras \u2014 A virtude não despreza
ninguém, seja grego ou bárbaro, homem ou mulher, rico ou
pobre, homem livre ou escravo, sábio ou ignorante, são ou
doente. \u2014 O conceito aproxima-se, como se vê, do ponto de
vista moderno\u201d. (Autor e obra citados, págs. 189 e 190.)
Desde há séculos os romanos tentaram (em parte
conseguiram) adequar a filosofia estóica ao direito.
Daí, em resumo, a sua extraordinária importância,
decantada por todos os doutos.
Nos seus últimos anos de República, os cultores do di-
reito, magistrados, \u201cadvogados\u201d ou autores (jurisprudentes
ou juris consulti), como praticantes do direito davam, os-
tensivamente, seus pareceres, a quem os consultasse.
 Seria o que se pratica hoje na advocacia, o uso de \u201cme-
moriais\u201d para sustentar as teses expostas em favor das par-
tes. A influência dos jurisconsultos cresceu de tal forma
que o Imperador Adriano formou um conselho de assuntos
jurídicos para ajudá-lo a conduzir os assuntos legais.
Concordo com R. H. Barrow, que na sua história de Los
Romanos, ao desenvolver o tema, Direito Romano e sua
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importância, preferiu omitir \u201clos intentos más insignifi-
cantes de codificación de los siglos III y IV, para ocupar-
mos directamente del código de Teodosio, que entró en vi-
gor en el año 439 d.C. es una colección oficial de los esta-
tutos de los Emperadores y no contiene ninguno de los es-
critos de los jurisconsultos\u201d. Todavia, como o próprio Au-
tor reconhece, foi para nós de grande valor porque \u201cnos
proporciona una descripción de las actividades de los
Emperadores Cristianos y de las condiciones sociales de la
época\u201d. (Obra e autor citados, pág. 217.) As condições so-
ciais a que se refere o conceituado historiador Barrow fo-
ram ditadas pelos povos bárbaros (designação genérica
para os Godos, Visigodos, Suevos, etc...) que invadiram a
Europa. Inevitavelmente, as leis foram codificadas a par-
tir do ano 500 d.C.; incorporaram as leis bárbaras ao di-
reito romano. Assim aconteceu com:
O edito de Teodorico que juntou leis romanas e
ostrogodas (500 a.C.).
Enfim, com JUSTINIANO, surge a grande legislação, o
grande código, o Corpus Juris Civilis, ou como ainda é co-
nhecido, o DIREITO ROMANO, porque é, no dizer de J. CRETELLA
JÚNIOR, um \u201cconjunto ordenado das regras e princípios ju-
rídicos, reduzidos a um corpo único, sistemático, harmôni-
co, mas formado de várias partes, planejado e levado a efei-
to no IV século de nossa era por ordem do Imperador
Justiniano, de Constantinopla, monumento jurídico da
maior importância, que atravessou os séculos e chegou até
nossos dias\u201d. E o emérito Autor ainda acrescenta o seguin-
te, para justificar a importância da obra de Justiniano:
Após afirmar que o direito romano como um todo é um le-
gado jurídico deixado pelos romanos que floresceu por mais
de mil anos e que serviu e serve como \u201cum vasto campo de
observação, verdadeiro laboratório do direito\u201d, trouxe para
nosso direito atual, só no campo dos direitos das obriga-
ções, por exemplo, diversos tipos de contratos (a compra e
venda, o mútuo, o comodato, o depósito, o penhor, a hipo-
teca), incorporados. Os nossos códigos têm alterações tão
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pequenas \u201cque sua origem é absolutamente reconhecível.
(Autor citado em Direito Romano Moderno, 7ª edição, Fo-
rense, RJ, 1996, págs. 2 e 3).
É por tudo isto que Cretella adverte que \u201co método
moderno estuda o direito romano como um sistema jurídi-
co do passado, sem procurar aplicá-lo; considera o direito
em si e por se (jus gratia juris) (pág. 6), mas lembra que \u201co
direito de Justiniano estudado em toda a Europa, desde o
século XII e aceito oficialmente na Alemanha, em fins
do século XV, teve grande influência na formação do direi-
to atual, refletindo-se na redação dos modernos códigos e
em especial no código civil francês de 21 de março de 1804
e no código civil alemão, de 1900. \u2014 Além disso, na Escó-
cia e na África do Sul, até bem pouco tempo, o direito ro-
mano encontrava quase integral aplicação\u201d. (Obra e autor
citados, pág. 3.)
 Do imortal LAFAYETTE RODRIGUES PEREIRA in Direito das
Cousas \u2014 Adaptação ao código civil por JOSÉ BONIFÁCIO DE
ANDRADA E SILVA, Edição da Typ. Batista de Souza, 1922 \u2014
obra que herdei do meu querido pai, Nélson Gavazzoni Sil-
va, lê-se verbis:
\u201cEm Portugal, onde ou nunca reinou o feudalismo, ou
exerceu fraquíssima influência, subsistiu sempre, ou pelo
menos do século XII em diante, o regime da propriedade
do Direito Romano, suposto o impedissem de funcionar
regularmente a instituição dos morgados, as concessões de
bens da Coroa, o viciamento da emphyteuse e a decadên-
cia das leis da amortização.
A história do Direito algum dia há de pagar ao velho
reino do Ocidente a homenagem de admiração e reconheci-
mento que lhe deve. Muitas das doutrinas que a revolução
escreveu no código civil francês vigoraram de há séculos
nas ordenações e nas práticas dos tribunes portuguezes. A
precessão em assumptos desta natureza é uma palma que
reverdece e não murcha entre as que a victória colheu no
Oriente.
O Direito que entre nós regula a propriedade é ainda o
Direito que herdamos de Portugal, salvo uma ou outra re-
87Capítulo II \u2014 Pequeno Apanhado Histórico
forma parcial e as modificações determinadas pelo novo
regime político, Direito Notável pelo merecimento de suas
disposições, mas imperfeitíssimo na forma externa.
\u201cConstitui o fundo da sua contextura o Direito Roma-
no no próprio texto latino\u201d. (Obra e autor citados, págs.
VII e VIII. Obs. Grafia original da obra.)
E é, ainda, do respeitabilíssimo LAFAYETTE a afirmati-
va, verbis:
\u201cO Direito Romano é ainda, como acima observamos, a
fonte mais abundante das regras do nosso Direito\u201d. (Bis in
idem, pág. XI).
O respeitado Mestre do Direito, Professor e Ministro
do STF, JOSÉ CARLOS MOREIRA ALVES, no seu recentíssimo
vol. II do Direito Romano, 6ª edição, Editora Forense, RJ,
1997, depois de tecer comentários sobre a evolução histó-
rica da obrigação no direito romano, abrangendo o direito
pré-clássico, direito clássico, com sua habitual objetivida-
de e precisão técnica, afirma que, verbis:
\u201c\u2014 Com referência aos direitos pós-clássico e justianeu,
há a fusão das relações jurídicas obligatio e debitum (isso
em virtude do desaparecimento da distinção entre o ius
civile e o ius honorarium) numa só, denominada generica-
mente obligatio; em face disso, ao invés de se conhecerem
como no direito clássico \u2014 apenas algumas obligationes,
passou-se a conhecer, nos períodos pós-clássico e justianeu,
um conceito genérico de obligatio: relação jurídica pela qual
alguém deve realizar uma prestação, de conteúdo eco-
nômico, em favor de outrem\u201d. (Autor e obra citados, págs.
7 e 8.)
Mas, infelizmente, antes da consagração do direito ro-
mano, há uma espécie de quasar ou buraco negro na nossa
história \u2014 é a época da chamada IDADE MÉDIA, durante as
invasões das tribos bárbaras; sua fixação e lutas no terri-
tório europeu conquistado e as épocas turbulentas da bai-
xa e alta Idade Média e o apogeu e declínio do feudalismo.
88 História do Direito
 Como ficou o Direito Romano durante tantos séculos
de turbulências? Vamos tentar rastreá-lo, começando por
um pequeno histórico do declínio romano. Começo pelos
Imperadores decadentes. Os Césares, que governaram o
Império Romano de 193 d.C. à 244 d.C.; chegaram ao trono
jovens e com algumas exceções, morreram jovens. São eles
GETA, CARACALA, ELEGABALO, ALEXANDRE E GORDIO III. Dos
cincos governantes citados, o nome de Elegabalo é o mais
conhecido. Ele foi um dançarino sírio que se julgou um
Deus, já que nasceu