História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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Os fatos
vividos e a recente história brasileira estão aí para confir-
mar a minha posição.
O início da nossa história constitucional data de 1824
e, como diz Luís Roberto Barroso, \u201cse inicia sob o símbolo
da outorga\u201d\u2014 porque \u2013 \u201ca ulterior submissão da Carta de
1824 à ratificação das províncias, ao contrário da indul-
gente avaliação de autores ilustres, não permite se lhe
aponha o selo da aprovação popular, por mais estreitos que
sejam os critérios utilizados para identificá-la. De parte
isto, a legitimação pelo resultado final, indiferente aos
126 História do Direito
meios e métodos do percurso seguido, é valoração etica-
mente discutível, além de mais exemplo jurídico\u201d (leis in
idem, pág. 7). Todavia, a Carta de 1824 teve o mérito de
não quebrar a tradição portuguesa. Em 1834 foi baixado o
Ato Institucional nº 16, que reformava a Constituição em
vigor, mas foi enfraquecido pela Lei nº 105, editada em
1840. A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, demonstrou de
vez a necessidade de reformas profundas na Constituição.
Luís Roberto Barroso lembra que antes de ser revogada
pelo Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889 (proclama-
ção da República no Brasil), a Carta Imperial, a Constitui-
ção do Império, já convivia \u201ccom a decadência da economia
agraria\u201d \u2014 (problema com o qual o Brasil convive até hoje,
1999) \u2014 \u201ce com a deterioração das relações entre a monar-
quia, de um lado, e o clero e o exército de outro\u201d (obra e A.
citados, págs. 9 e 10).
Em 1891 é institucionalizada nova Constituição, esta
moldada na Constituição dos Estados Unidos da América
do Norte. A principal mudança é na forma de governo: subs-
titui-se o governo parlamentarista em presidencial e o Es-
tado único em federação. Durou pouco o acolhimento aos
mandamentos constitucionais da nova Carta Republicana.
Em 1930 acaba, melancolicamente, o ciclo constitucional
da nossa República. Getúlio Vargas ascende ao poder por
força de uma revolução que é institucionalizada em 1934,
com a \u201cajuda da Revolução Constitucionalista de São Pau-
lo, ocorrida 2 anos antes\u201d. A partir do movimento comunis-
ta de novembro de 1935, as instituições políticas de 1934
só conservariam aparência de vida, \u201ce a Carta de 1934,
por força de Declaração do Estado de Guerra, suspendeu
as garantias constitucionais. (Obra e A. citados, pág. 19.)
Não obstante a Constituição de 16 de julho de 1934 ter
sido \u201cdiscutida e votada num período em que, por toda par-
te, se sentiam abalados os alicerces da democracia tradici-
onal, em que entrava em aguda crise de desvalor o princí-
pio da liberdade individual sacrificado ao prestígio cres-
cente do Estado ou da Nação como entidade política, à fei-
127Capítulo V \u2014 O Renascimento
ção das realizações fascistas, das audazes investidas do
nacional-socialismo e dos ensaios menos ambiciosos, em-
bora igualmente bem-caracterizados, de outras ditaduras.\u201d
(EDUARDO ESPÍNOLA, in Constituição dos Estados Unidos do
Brasil, Ed. Freitas Bastos, 1952, pág. 23).
Nova modificação da Constituição ocorre em 10 de no-
vembro de 1937. Assim, e desse modo, inaugurou-se no Bra-
sil \u201ca ditadura cada vez mais acentuada, com os poderes
absolutos do Poder Executivo, o qual, por meio de decre-
tos-leis, se substituía, em muitos casos, ao Legislativo, atri-
buindo-se a esse regime, por eufemismo, o título de Estado
Novo\u201d. (A. e obra citados, pág. 27.)
Ora, a Constituição de 1937 havia, simplesmente, reti-
rado do Legislativo suas funções, transferindo-as para o
EXECUTIVO. O Supremo Tribunal Federal sofreu sérias res-
trições em sua soberania diante do que ditava o parágrafo
único do art. 96 da Constituição de 1937, com as modifica-
ções introduzidas, verbis:
\u201c§ único \u2013 No caso de ser declarada a inconstituciona-
lidade de uma lei que, a juízo do Presidente da República,
seja necessária ao bem-estar do povo; a promoção ou defe-
sa de interesse nacional de alta monta, poderá o Presiden-
te da República submetê-la novamente a exame do Parla-
mento; se este a confirmar por dois terços de votos em cada
uma das Câmaras, ficará sem efeito a decisão do Tribunal\u201d.
Todos sabem que o Parlamento da época de Getúlio
Vargas lhe era totalmente dócil.
Em 29 de outubro de 1945 Getúlio Vargas é deposto
pelo Exército, comandado pelo General Góis Monteiro.
Foi eleito por eleição direta o novo Presidente da Re-
pública do Brasil, o General Eurico Gaspar Dutra, em 31
de janeiro de 1946. Na mesma data acontecem as eleições
para a Assembléia Nacional Constituinte, que se instala
em 5 de fevereiro de 1946.
128 História do Direito
Nasce em 18 de setembro de 1946 a nova Constituição
do Brasil.
Os direitos sociais do homem ganham, nesta nova Cons-
tituição, especial destaque e igual importância.
Parece aos Autores que a primeira Constituição da épo-
ca moderna a se preocupar no continente europeu a nível
de Constituição com o problema social, foi a Constituição
alemã de 1919. Nas Américas a primazia coube à Consti-
tuição mexicana de 1917, modificada e melhorada pela Lei
de janeiro de 1934. A espanhola tratou dos direitos sociais
a partir de 1931; a uruguaia em 1934 e a cubana (antes da
revolução castrista) em 1940.
Em 1964, com a revolução contra o governo de João
Goulart, o Ato Institucional nº 2 solapa a combalida Cons-
tituição de 1946. Para definitivamente derrogá-la, pois
bastaram para isto três (3) Atos Institucionais, uma vinte-
na de emendas e quatro dezenas de Atos Complementares.
Em 1969 surge um arremedo de Constituição pela Emen-
da Constitucional nº 1, que faz ampla reforma na agoni-
zante \u201cConstituição\u201d de 1967. O Presidente Ernesto Geisel
que sucedeu o General Médici eleito em 1974, no final do
seu mandato, revogou, pela Emenda Constitucional nº 11,
de 1978, todos os Atos Institucionais e Complementares
em desacordo com a Constituição Federal vigente. Eleito o
General João Figueiredo com sua aprovação ocorre a elei-
ção indireta para Presidente da República e o civil Tancredo
Neves é eleito pela oposição mas falece antes de tomar pos-
se. Assume o seu vice-presidente, José Sarney, pela Emen-
da Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985. Em
1986 é convocada outra Assembléia Nacional Constituinte
eleita em 15 de novembro de 1986 para elaborar mais uma
nova Constituição para o Brasil. Em 1988 é promulgada
mais uma Constituição brasileira que, para a maioria dos
parlamentares constituintes, seria a definitiva. Que espe-
rança.
JOÃO GILBERTO LUCAS COELHO, no seu livro A Nova Cons-
tituição, Avaliação do texto e comentários, 2ª ed., Editora
129Capítulo V \u2014 O Renascimento
Revan, 1991, ao fazer um estudo crítico sobre a Carta, ad-
verte ser ela \u201canalítica, não se limitando a princípios bási-
cos. Mesmo assim reclama um grande número de leis com-
plementares e ordinárias, em alguns casos necessárias para
a plena vigência da aplicação dos seus princípios\u201d (obra
citada, pág.14).
Conforme relembrou o Exmo. Sr Ministro do STF JOSÉ
CARLOS MOREIRA ALVES, no programa oficial de sessão sole-
ne do Parlamento em 1º de fevereiro de 1987, \u201cDe há mui-
to, porém, feneceram os ideais de Constituição perfeita e
perpétua. Como adverte DUGUIT, a eterna quimera dos ho-
mens é procurar inserir nas Constituições a perfeição que
eles não têm.
 Pode dizer-se, generalizando a lúcida observação de
RUI BARBOSA nos primórdios da República, que o indispen-
sável é uma Constituição sensata, sólida, praticável, polí-
tica nos seus próprios defeitos, evolutiva nas suas insufi-
ciências naturais, humana nas suas contradições inevitá-
veis\u201d.
Data venia, nós brasileiros estamos como o grego
Diogenes: continuamos com a \u201clanterna\u201d na mão à procura
de uma Constituição \u201cSensata\u201d...
Em meu pequeno trabalho A Nova Constituição e as
Leis Penais \u2014 Dúvidas e Ponderações, Ed. Freitas Bastos,
1ª ed., 1988, RJ, já dizia e agora repito, apesar de não ser
novidade que há e deve ser cumprido o ordenamento jurí-