História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni
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História do Direito - dos Sumérios até a nossa Era - Aluisio Gavazzoni


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dico que está ligado à existência da própria lei principal,
que é, evidentemente, a Constituição. Ora, \u201ceste princípio
de supremacia atende, evidentemente, às exigências das
mais diversas, como, por exemplo: a manutenção de um
equilíbrio social, a formação de sistema de critérios bási-
cos que dependem, ou melhor, que dão origem à legislação
que disciplina os critérios legais para a execução das no-
vas normas\u201d. São, portanto, \u201cconseqüências evidentes des-
ta supremacia as regras ditadas pela Constituição e a es-
tabilidade destes preceitos. Após o estabelecimento da hie-
130 História do Direito
rarquia temos uma Constituição que vai depender ainda
das leis orgânicas ou complementares para que estes pre-
ceitos constitucionais sejam regulados por leis ordinárias
que são leis votadas pelo Congresso. Estabelecida esta hie-
rarquia vale notar que a supremacia da Constituição cons-
titui uma exigência organizatória do Estado federativo
porque é um órgão que fica acima do Governo, deve ter
competência para decidir sobre o alcance dos poderes e
sobre quaisquer conflitos decorrentes do funcionamento do
mecanismo federal\u201d. (HERMES LIMA, in Introdução à Ciên-
cia do Direito, Ed. Freitas Bastos, 19ª ed., pág. 140.)
Com base na opinião majoritária dos Mestres no meu
trabalho que citei, teci comentários críticos sobre os inú-
meros casos, de crucial importância, que foram empurra-
dos pelos legisladores para uma posterior regulamentação
o que, é lógico, estrangulou a Constituição de 1988.
Apontei as mais graves, na minha opinião, contidas no
artigo 5º do Capítulo. I \u2014 Dos Direitos e Garantias Funda-
mentais \u2014, do substitutivo \u2013 Dos Direitos e Deveres Indi-
viduais e Coletivos. Deste modo comecei pelo mandado de
injunção.
Entendi que sem uma regra processual completa é im-
possível o seu conhecimento e apreciação com fulcro na
lei complementar que seria para acrescentar ao Código de
Processo em vigor, a nova Lei excepcional, já que com for-
ça de um Mandado de Segurança limitado.
Pergunto se Mandado de Injunção foi feito para garan-
tir o exercício dos direitos e liberdades do cidadão à falta
de norma regulamentadora que torne inviável o exercício
dos direitos e liberdades constitucionais inerentes à nacio-
nalidade, à soberania, à cidadania, como pode ser ele in-
vocado se a própria regra reguladora desse direito ainda
não existia na época?
Juridicamente, este artigo da Constituição a mim pa-
rece claro, era um artigo Inconstitucional por Omissão.
Na mesma situação vamos encontrar o § 2º do Art. 9º do
Cap. II da Constituição, que assegura o direito de greve.
131Capítulo V \u2014 O Renascimento
O § 1º já foi parcialmente definido por lei, regulamen-
tado. Todavia, no § 2º. Quem define os ABUSOS? A lei conti-
nua omissa. O que pode parecer abuso para uns, para ou-
tros não o é. Seria um meio legal de assegurar seu direito
constitucional de fazer greve. Exemplo: depredação de ôni-
bus por piqueteiros para impedir que os que não quiseram
participar da greve o façam circulando com os veículos. É
um abuso ou não? Serão os responsáveis alcançados pelas
penas da lei?
É evidente que falta a complementação, na minha opi-
nião, deste parágrafo; também se deve aplicar a inconsti-
tucionalidade por omissão do Poder Executivo, que se
carateriza pela não expedição de um regulamento que
tipifique o ato praticado como abuso.
Vou citar outro exemplo mais detalhadamente para não
fugir demasiadamente do traçado inicial deste trabalho.
Vou discutir a figura constitucional do denominado crime
hediondo.
\u201cA TIPIFICAÇÃO DOS CRIMES HEDIONDOS\u201d. \u2013 Do Título II \u2013
Dos direitos e garantias fundamentais \u2013 Cap. I \u2013 Dos De-
veres Individuais e Coletivos \u2014 Art. 5º Da Constituição da
República Federativa do Brasil de 5 de outubro de 1988,
Inciso XLIII.
Na íntegra, o inciso XLIII da Constituição brasileira
em vigor reza: \u201ca lei considerará crimes inafiançáveis e
insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o
tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terroris-
mo e os definidos como crimes hediondos, por eles respon-
dendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-
los, se omitirem;\u201d
O ínclito Professor LUÍS ROBERTO BARROSO em seu aplau-
dido O Direito Constitucional e a Efetividade de suas Nor-
mas \u2014 Limites e Possibilidades da Constituição Brasilei-
ra, Editora Renovar, 1990, cita a obra clássica de JOSÉ AFON-
SO DA SILVA, Aplicabilidade das Normas Constitucionais,
quanto à sua eficácia e quanto à sua aplicabilidade, divi-
dindo-a em
132 História do Direito
\u201cA \u2013 Normas Constitucionais de eficácia plena e apli-
cabilidade imediata;
B \u2013 Normas Constitucionais de eficácia contida e
aplicabilidade imediata, mas passíveis de restrição;
C \u2013 Normas Constitucionais de eficácia limitada ou
reduzida (que compreendem as normas definidoras de prin-
cipio institutivo e as definidoras de princípio progra-
mático), em geral dependentes de integração infraconsti-
tucional para operarem a plenitude de seus efeitos\u201d (obra
citada, pág. 82).
Para o respeitado Professor MICHEL TEMER in Elemen-
tos de Direito Constitucional, 1983, pág. 13, estas Normas
\u201cmelhor se denominariam de eficácia redutível ou restrin-
gível (bis in idem, pág. 82).
BARROSO concorda que a citação supra é de todo perti-
nente, mas, após considerar CELSO RIBEIRO BASTOS e CAR-
LOS AYRES DE BRITO (Interpretação e Aplicação das Normas
Constitucionais, 1983, pág. 122); HUMBERTO QUIROGA LAVIÉ
(Derecho Constitucional, 1984, pág. 138 e seg. e outras de
não menos notáveis Autores, prefere citar a tese do Mes-
tre CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE MELLO que identifica, se-
gundo BARROSO, \u201cas distintas posições em que os adminis-
trados se vêem investidos em decorrência das regras con-
tidas na Lei maior\u201d, concluindo que \u201csob este aspecto, as
normas constitucionais alocam-se em três categorias dis-
tintas:
A \u2013 Normas concessivas de poderes jurídicos;
B \u2013 Normas concessivas de direitos;
C \u2013 Normas meramente indicadoras de uma finalidade
a ser atingida (obra e A. citados, págs. 83/84).
Todavia, sem embargo, não havendo garantia jurídica,
nenhum desses \u201cdireitos\u201d impostos pela Constituição esta-
ria plenamente assegurado.
De há muito, para mim, em nosso país, não se pode
falar mais em fronteiras entre Legislativo, Executivo e Ju-
diciário. As discussões doutrinárias, contudo, insistem em
estabelecer limites de atuação entre Legislativo, Executi-
133Capítulo V \u2014 O Renascimento
vo, e Judiciário. Data venia, é inegável que o último e der-
radeiro poder a decidir imperativamente (esgotados os pro-
cedimentos legais cabíveis a cada hipótese) é sempre o
JUDICIÁRIO. O Mestre BARBOSA MOREIRA em seu \u201cO Poder
Judiciário e a Efetividade da Nova Constituição\u201d, in Rev.
Forense, vol. 314, pág. 151, ressalta a importância do Ju-
diciário mesmo com algumas críticas pertinentes. Por isso
mesmo LUÍS ROBERTO BARROSO, por nós tantas vezes citado,
destaca:
\u201cA Constituição, já tivemos oportunidade de assinalar,
é um corpo de normas jurídicas, ou seja, compõe-se de pre-
ceitos obrigatórios que organizam o poder político e a con-
duta. Tanto dos órgãos estatais quanto dos cidadãos.
Vulnera-se a imperatividade de uma norma de direito quer
quando se faz aquilo que ela proíbe, quer quando, se deixa
de fazer o que ela determina. Vale dizer: a Constituição é
suscetível de descumprimento tanto por ação, como por
omissão\u201d (obra citada, pág. 152). Mais à frente o culto Au-
tor dá ênfase aos principais e mais comuns casos de
tipificação por omissão, dizendo que:
\u201cDiversos são os casos tipificadores de inconstitucio-
nalidade por omissão, merecendo destaque dentre eles: a
omissão do órgão legislativo em editar lei integradora de
um comando constitucional\u201d (obra citada, pág. 153).
Seria essa a hipótese da TIPIFICAÇÃO DESTA NORMA CONS-
TITUCIONAL por mim analisada?
Vejamos.
O inciso XLIII do Art. 5º