wagner-luiz-teodoro-depressao-corpo-mente-e-alma

wagner-luiz-teodoro-depressao-corpo-mente-e-alma


DisciplinaLivros14.653 materiais90.408 seguidores
Pré-visualização44 páginas
da 
infância estão permeados por experiências do passado, 
Wagner Luiz Garcia Teodoro 
~ 206 ~ 
 
sofrendo a influência de possíveis sentimentos de culpa. Neste 
caso, o desamor que a criatura experimenta em relação a si 
pode representar um grande obstáculo à superação da 
depressão. Estando a culpa na base de muitos processos 
depressivos, faz-se necessário que, no trabalho psicoterápico, 
o desenvolvimento do auto-perdão e da auto-aceitação receba 
atenção especial, permitindo que a pessoa fique em paz 
consigo para poder estar em paz com a vida. 
Entende-se, assim, que aprender a amar é um exercício 
de tolerância, respeito e aceitação para consigo e os outros. 
 
Depressão: corpo, mente e alma 
~ 207 ~ 
 
 
 
 
 
 
 
 
Wagner Luiz Garcia Teodoro 
~ 208 ~ 
 
 
Em todos os campos do conhecimento, existem 
opiniões divergentes ou ao menos diferentes sobre vários 
assuntos. Durante muito tempo, somente as ciências exatas 
estavam livres desses conflitos, mas, atualmente nem elas, em 
especial a física e a química, escapam à necessidade de 
considerar os novos paradigmas apresentados pela física 
quântica. 
Em se tratando das ciências humanas e biológicas, 
observa-se que as divergências são mais acentuadas. Talvez 
esse fato se dê pela complexidade encontrada na união 
\u201ccorpo, mente e alma\u201d. Nas fases iniciais da construção do 
conhecimento científico, esses três elementos, que compõem 
o todo humano, eram contemplados separadamente. O corpo 
era objeto exclusivo da medicina, a alma encontrava-se sob os 
olhares filosóficos e espiritualistas, enquanto a mente tinha 
sua exploração iniciada pela filosofia, seguida da medicina e 
posteriormente, da psicologia. 
Atualmente, as neurociências têm se encarregado de 
contribuir com o desvendar da relação corpo/mente, iniciada 
pela medicina e expandida pela psicanálise, revelando os 
mecanismos fisiológicos das emoções. Contudo, apesar das 
discretas manifestações de alguns seguimentos da psicologia e 
da medicina, os aspectos espirituais ainda são tidos como 
pertencentes aos campos espiritualista, religioso e místico. 
Mesmo com as inúmeras declarações feitas nos 
últimos 150 anos, por pesquisadores respeitados no meio 
científico, sobre a veracidade das manifestações espirituais, 
mesmo com milhares de manifestações mediúnicas existentes 
e com o milenar espiritualismo cultivado pelos povos 
Depressão: corpo, mente e alma 
~ 209 ~ 
 
orientais, ainda assim a ciência se recusa a dar a devida 
atenção ao elemento espiritual. 
A seu tempo, as ciências médica e psicológica muito 
se beneficiarão dos conhecimentos sobre a realidade 
espiritual. Porém, por enquanto, permanecem míopes, 
mergulhadas em verdades unilaterais defendidas com 
radicalismo em função de personalismos e interesses 
profissionais e econômicos. 
A ciência somente se aproximará realmente da 
\u201cVerdade\u201d quando puder considerar a soma dos diversos 
olhares sobre este todo incrivelmente complexo que é o ser 
humano. Cada pessoa vê a vida de acordo com a própria 
perspectiva, isto é, a partir do lugar em que se encontra e, 
mesmo diante de verdades parciais, só enxerga aquilo que está 
pronta para enxergar. As lentes do olhar humano são 
reguladas pela personalidade, pela cultura, pelos conflitos 
emocionais e pelo estado de consciência alcançado por cada 
criatura. À medida em que se aproximar do conselho de um 
filósofo da antiguidade, \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d, o ser 
humano estará mais próximo de uma verdade universal. 
Vale ressaltar que, embora a abordagem espiritual 
associada às práticas médicas e psicológicas ainda seja pouco 
expressiva, importantes progressos vêm ocorrendo em função 
dos esforços de instituições como a Associação Médico-
Espírita do Brasil, que promove eventos reunindo 
pesquisadores de várias partes do mundo e estimulando novas 
parcerias para pesquisas sobre os aspectos espirituais e sua 
influência nos campos da saúde física e mental. No campo 
psicológico, destacamos as importantes contribuições da 
psicologia transpessoal, divulgando a importância de uma 
postura menos egoísta e de maior consciência sobre si, o 
mundo e a realidade. 
Wagner Luiz Garcia Teodoro 
~ 210 ~ 
 
 
 Uma dos fatores emocionais mais observados nos 
casos de depressão é a dificuldade que a pessoa encontra para 
lidar com a própria raiva. 
 Inerente à condição humana, a raiva decorre das 
inúmeras e inevitáveis situações de frustração impostas pela 
vida desde o nascimento. Assim, a educação e os bons 
vínculos afetivos vão lentamente conduzindo a criança ao 
amadurecimento emocional, de forma a torná-la mais 
tolerante e bem adaptada. 
 De uma pessoa emocionalmente madura espera-se a 
capacidade de renunciar, substituir, aguardar, compreender e 
se expressar. Trata-se da possibilidade de tolerar situações 
indesejáveis, e de não guardar para si a raiva experimentada, 
podendo manifestar seu descontentamento. Tal condição 
começa a ser estruturada desde cedo quando o bebê, que é 
naturalmente intolerante às frustrações, se irrita por sentir 
fome, frio, dor e outras sensações desconfortáveis. Caso ele 
encontre, no momento da raiva, alguém que o acolha e cuide, 
restabelecendo uma condição de conforto, vai aprendendo que 
o mundo pode agüentar sua agressividade e que as dores são 
passageiras e suportáveis, desenvolvendo assim a capacidade 
de tolerar os momentos desagradáveis. 
No entanto, o bebê pode vivenciar situações em que 
sua raiva não encontra o acolhimento necessário ou a ação do 
amor firme que é capaz de construir bons limites e um ego 
forte. Desta forma, a criança não desenvolve uma boa 
condição de tolerância, tendendo a comportamentos 
agressivos e imaturos, ficando mais propensa a desenvolver 
conflitos emocionais, entre eles a depressão. 
Depressão: corpo, mente e alma 
~ 211 ~ 
 
Entre as abordagens que colocam a raiva como uma 
das causas do transtorno depressivo, destacam-se a 
psicanálise, a bioenergética e as explicações espiritualistas. 
Na visão psicanalítica, as perdas podem ser sucedidas 
pela raiva da pessoa em relação ao ente perdido, sendo que 
esta raiva pode se voltar contra a própria pessoa na forma de 
depressão. 
Outra explicação da psicanálise, que liga a raiva à 
depressão, é o sentimento de culpa gerado pela existência de 
sentimentos ambivalentes, de amor e ódio, em relação a 
alguém ou pelo fato de não atender as expectativas de pessoas 
amadas. A sensação de nutrir sentimentos e/ou 
comportamentos de hostilidade por alguém que se ama ou de 
ter lhe decepcionado provoca um estado de culpa, que está 
carregado de raiva da pessoa contra si mesma, resultando em 
baixa auto-estima. 
No entendimento da abordagem psico-corporal, 
quando a expressão da raiva é inibida, provoca-se um estado 
de tensão em diversos grupos musculares e a repetição desta 
inibição ao longo do processo de desenvolvimento infantil 
tende a produzir uma tensão muscular crônica que resulta em 
bloqueio do fluxo da energia corporal, rebaixamento da 
expressividade e comprometimento respiratório, 
desvitalizando o corpo e a mente, culminando na depressão. 
No caso das explicações que possuem um foco 
espiritual, estas tendem a se aproximar das opiniões 
anteriores, apontando a raiva