Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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indivíduo nas relações com outros membros da 
sociedade ou por considerar o indivíduo como titular de direitos subjetivos? De Martino, em 
interessante estudo sobre \u201cIndividualismo e Diritto Romano Privato\u201d, chama a atenção para o 
fato de que essa autonomia e essa titularidade de direitos subjetivos constituem fundamentos 
essenciais do direito privado.100 Por si só não seriam suficientes para caracterizar um sistema 
jurídico como individualista. Individualista, segundo De Martino, é um sistema em que a 
liberdade individual é concebida e regulada como fim em si mesma, fora de qualquer 
subordinação aos interesses do grupo os quais são simplesmente considerados como soma dos 
interesses individuais que, devendo existir, limitam-se reciprocamente em sentido negativo. O 
mesmo autor considera a posição da vontade individual no sistema das fontes, em Roma, \u201cbem 
limitada e definida\u201d101. Vejamos, a seguir, alguns exemplos citados por De Martino em que o 
Direito Romano aparece com um sentido social, ético, oposto ao individualista. 
1. O formalismo na idade primeira do Direito Romano constitui a primeira vitória da 
sociedade sobre o individual102. 
2. A tipicidade dos negócios, considerada como uma das categorias fundamentais do 
pensamento jurídico romano, revela-se um grave limite à autonomia privada. Encontramos, com 
efeito, no Direito Romano figuras bem determinadas e definidas de negócios com seus 
elementos essenciais, com suas ações correspondentes103. 
3. O cunho dado à propriedade romana como senhoria absoluta, como poder 
independente, como ato de verdadeira soberania do paterfamilias, não constitui uma 
característica nítida de individualismo? De Martino considera esse cunho, essa marca, não como 
uma exasperação individualística, mas antes como \u201cafirmação da autoridade do pater, isto é, de 
um grupo étnico autônomo\u201d, e cita Bonfante que procura demonstrar \u201cque quando necessidades 
gerais e absolutas da coexistência social o exigiram, também a propriedade romana tolerava 
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limites104. Refutando a opinião muito difundida que acusa o condomínio romano de extremo 
individualismo, De Martino observa que o princípio do jus prohibendi, usado no Direito 
Romano direito de veto de um condômino em relação à atuação de outro condômino não é 
menos equânime e social que o princípio da maioria. Este, ao contrário, \u201cé mais francamente 
individualístico porque dá aos mais fortes um poder quase tirânico contra os fracos, isto é, 
contra os menores e mais modestos interesses\u201d105. 
4. No direito das obrigações, De Martino sublinha que \u201cas idéias e tendências sociais 
possuem uma força preponderante\u201d106. A aceitação da bona fides (que não é uma categoria 
originária do Direito Romano) constitui um \u201ccritério eminentemente social e ético\u201d e revela 
\u201cuma esplêndida influência das idéias sociais sobre o direito\u201d107. 
5. A atuação do pretor, intervindo contra a rígida aplicação do jus civile (conforme 
veremos mais adiante, especialmente no estudo do processo), acentuou mais o espírito social 
que impregna certos aspectos do Direito Romano. 
 
DESIGUALDADE 
 
Estudando brevemente alguma das características do Direito Romano, Villey observa : 
\u201cO direito romano, sem dúvida, é incompleto. Admite a escravidão, não protege os pobres, os 
doentes, os proletários; está bem longe de fazer reinar uma perfeita igualdade entre os 
homens.\u201d108 A idéia difundida entre os intelectuais romanos pelo estoicismo de que todos os 
homens eram fundamentalmente iguais por direito natural (ver o que já escrevemos em páginas 
anteriores) era contrária ao espírito do Direito Romano que, segundo a clássica summa divisio 
de Gaio (1,9), dividia todos os homens em livres e escravos (omnes homines aut liberi sunt aut 
servi). A mentalidade que admite a igualdade fundamental dos homens como filhos do mesmo 
Deus, só triunfou graças à pregação cristã. Ao lado da desigualdade extrema entre livres e 
escravos, o Direito Romano admitia também desigualdade entre os próprios livres. Estudando o 
espírito do Direito Romano, Ihering enfatiza: \u201cEm Roma não existia direito nem Estado, senão 
para os romanos; ou para falar com mais acerto, o direito era circunscrito à comunidade dos 
gentis. Gentilidade e capacidade civil plena, falta de gentilidade e completa incapacidade civil 
são, em sua origem, equivalentes109.\u201d 
Notem-se aqui duas modificações impostas pela evolução dos tempos. A concessão do 
commercium aos estrangeiros e a ampliação da concessão da cidadania. 
Focalizando as diferentes formas de proteção aos estrangeiros, Ihering observa : \u201cA mais 
apreciada consistia na concessão do commercium que fazia participar o estrangeiro das leis 
romanas sobre os bens, permitindo-lhe, por conseguinte, reclamar a proteção que o Estado 
garantia ao direito. Já neste ponto o Direito Romano eleva-se à concepção jurídica moderna que 
não estabelece distinção entre os estrangeiros e os indígenas, com a importante diferença de que, 
o que em Roma era resultado de um privilégio concedido, ou de um pacto público 
especialíssimo, é entre nós a aplicação de um princípio geral e o efeito de uma idéia jurídica 
superior. A concessão do commercium era, entre os romanos, a forma regular que dava acesso 
às relações jurídicas internacionais\u201d110. 
Outra modificação importante é introduzida com a Constituição de Caracala do ano 212 
P.C. que, com algumas exceções, concedia a cidadania romana a todos os súditos do Império, 
transformando esta cidadania, no dizer de Grosso, \u201cem uma cidadania universal do Império\u201d111. 
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Entre os próprios cidadãos romanos o Direito estabelecia desigualdades quanto à 
capacidade jurídica. Assim, por exemplo, o cidadão romano liberto (ex-escravo) formava uma 
classe à parte e não possuía a mesma capacidade dos cidadãos romanos ingênuos (que haviam 
nascido livres e jamais haviam sido escravos). Justiniano iria conceder a todos os libertos a 
condição de ingênuos112. 
 
OUTRAS CARACTERÍSTICAS 
 
Encerremos esta tentativa de apontar algumas características do Direito Romano com a 
observação de Villey segundo o qual esse Direito \u201cprotege as liberdades individuais, com os 
direitos de contornos firmes assegurados a cada um; reconhece a autonomia da família com o 
pátrio poder; ensina ao homem a ter uma palavra e a mantê-la; não é estranho aos sentimentos 
humanitários113\u201c 
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Capítulo III 
UTILIDADE DO ESTUDO DO 
DIREITO ROMANO 
 
Por que estudar Direito Romano? 
Como resposta bem geral a essa indagação poderíamos repetir Von Ihering em sua já 
citada obra O Espírito do Direito Romano: \u201cSucede com o Direito Romano o mesmo que com a 
fascinação que exercem certos indivíduos sobre outros: sentem o encanto, sem saberem ao certo 
como se pôde realizar. Tal foi a atração que ele exerceu para aqueles que o estudaram. Todos 
tiveram a percepção de sua grandeza, alguns levaram-na ao mais cego fanatismo, mas ninguém 
pensou em formular a justificação científica dessa percepção. Têm-se estudado a matéria nos 
seus íntimos detalhes e, cada vez que se trata de formular uma opinião contentam-se em 
outorgar-lhe, nos termos mais gerais, em mais brilhantes testemunhos. 
Se só se aspirasse à geral apreciação, se só se procurasse projetar luz brilhante sobre a 
grandeza do Direito Romano e não se tivesse outro fim senão convencer ao ignorante, ou fechar 
a boca ao cético, bastaria deixar falar os fatos, porque a história leva em si o melhor testemunho 
em favor da excelência do Direito Romano: o papel que desempenhou assinala sua verdadeira 
grandeza.114\u201c 
Nas páginas seguintes vamos tentar demonstrar a utilidade do estudo do Direito Romano 
sob um duplo aspecto: cultural e prático. 
 
UTILIDADE DE ORDEM CULTURAL 
 
Cultura geral - Numa época em que o pragmatismo e o tecnicismo ameaçam bitolar as 
inteligências, nunca será demais sublinhar quão importante se