Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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só se explica pela evolução política, social e econômica 
de Roma. 
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O helenismo triunfante em Roma dá conta nas já citadas influências filosóficas no 
Direito Romano. 
As guerras civis do último século republicano vão resultar no estabelecimento do 
Principado, acarretando profunda modificação nas fontes de produção do Direito. 
A Constituição de Caracala que, com algumas exceções, concedeu a cidadania aos 
habitantes do Império (212 P.C.), reflete uma nova mentalidade, conseqüência, em parte, do 
declínio da hegemonia itálica e da rápida provincialização do exército romano. 
A inserção do Cristianismo na História Romana vai ter, como já vimos, importantes 
reflexos em alguns aspectos do Direito Romano. 
A divisão do Império Romano em Pars Occidentis e Pars Orientis efetivada em 395 é 
rica de conseqüências para a evolução do Direito Romano, especialmente no Oriente, evolução 
esta que vai culminar com as famosas compilações justinianéias no século VI. 
Concluamos: É impossível uma perfeita inteligência ao Direito Romano sem inseri-lo 
dentro do contexto histórico em que se originou, se desenvolveu, se modificou e, finalmente, se 
cristalizou no Corpus Juris Civilis. 
 
EPIGRAFIA 
 
A epigrafia, uma das mais importantes disciplinas auxiliares da História \u201cé a ciência das 
inscrições escritas sobre materiais duráveis: pedra, mármore, bronze, etc., e é de suma 
importância para a história da Antigüidade (em alguns casos também para a dos tempos 
modernos), dando-nos numerosas informações que os textos escritos sobre papiro e pergaminho 
não conservaram\u201d136. Intimamente relacionada com a epigrafia, a paleografia, outra disciplina 
auxiliar da História, \u201cé o estudo metódico de textos antigos quanto à sua forma exterior. 
Abrange não só a história da escrita e a evolução das letras, mas também o conhecimento dos 
materiais e dos instrumentos para escrever\u201d137. 
A epigrafia latina tem por objeto as inscrições latinas e constitui disciplina auxiliar 
fundamental da História de Roma. Ao lado da epigrafia latina deve ser mencionada a epigrafia 
grega igualmente de suma importância para a História de Roma pois inúmeros acontecimentos 
desta História só nos são conhecidos por intermédio de inscrições gregas. 
Um dos mais importantes processos empregados pelos epigrafistas para conseguir cópias 
das inscrições e facilitar assim o estudo das mesmas é a fotografia. O progresso da técnica 
fotográfica possibilita a obtenção de material de primeira qualidade. Quando as inscrições, em 
virtude da ação do tempo ou por outras causas, não proporcionam uma fotografia nítida, 
impõem-se outros processos: \u201ccoloca-se em cima da inscrição uma folha molhada que depois é 
roçada com uma escova para o papel entrar nas cavidades das letras. Ou, então, não havendo 
água, cobre-se a folha com plumbagina, esfregando-a depois com uma escova: as letras ocas 
aparecem em branco, destacando-se dos fundos escuros\u201d138. 
As inscrições latinas caracterizam-se sobretudo pela brevidade de sua redação. 
Freqüentemente a letra inicial ou as primeiras letras de uma palavra substituem a palavra inteira. 
Compreende-se assim a importância da interpretação das abreviações para a perfeita 
compreensão do texto epigráfico. Assinalemos de passagem que existem verdadeiros léxicos de 
siglas (assim se chamam as abreviações que constam só da inicial) e de abreviações139. A obra 
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fundamental para o estudo da epigrafia latina é o Corpus inscriptionum latinarum que teve 
como um de seus redatores Th. Mommsen. 
A epigrafia jurídica tem por objeto o estudo das inscrições cujo conteúdo interessa ao 
Direito. Pacchioni lembra que o século XIX pode ser chamado o século da epigrafia em virtude 
\u201cda grande importância que a descoberta, a publicação e a ilustração das inscrições gregas e 
latinas adquiriram para a melhor inteligência e para a integração dos nossos conhecimentos em 
torno do direito e, em geral, em torno da vida pública e privada dos antigos ( )\u201d140. Um 
trabalho fundamental para o estudo da epigrafia latina, no que interessa ao Direito Romano, é a 
obra de Girard: L'épigraphie latine et le droit romain. O conteúdo das inscrições latinas que 
interessam ao Direito Romano diz respeito à estrutura política (inscrições referentes ao \u201ccursus 
honorum\u201d e aos títulos imperiais), a atos públicos (leis, plebiscitos, editos, etc.) e atos privados 
(pouco numerosos). 
Os candidatos aos cargos públicos deviam obedecer a determinadas regras que 
disciplinavam sua ascensão a partir dos escalões inferiores aos mais elevados da carreira das 
honras (cursus honorum), conforme veremos mais adiante no estudo da estrutura política de 
Roma. Lembremos agora, apenas a título de exemplo, algumas inscrições referentes a esse 
cursus honorum. Uma inscrição encontrada em Beirute e datando da metade do século IV 
emprega a expressão per singulos gradus referindo-se às diferentes etapas que sucessivamente 
deveriam ser percorridas pelos candidatos na carreira pública. Grande quantidade de inscrições 
honoríficas ou funerárias contém indicações sobre a carreira percorrida pelo personagem 
focalizado, \u201cTodo o cursus honorum pode apresentar-se epigraficamente sob duas formas: 
segundo a ordem direta, se as dignidades forem indicadas na mesma ordem que foi seguida 
realmente e se o cursus parte assim das funções mais baixas para atingir, finalmente, ás mais 
elevadas; segundo a ordem inversa se a enumeração parte, ao contrário, destas últimas para 
chegar progressivamente às primeiras\u201d141. Em alguns casos as inscrições apresentam o cursus 
de um personagem sob as duas formas. 
A título de curiosidade vamos reproduzir algumas siglas e abreviações que designam 
epigraficamente a questura, a edilidade, o tribunato da plebe, a pretura e.o consulado: 
Quaestor - Q, QVAE, QVAES 
Aedilis - AED, AEDIL 
curuis - CUR 
plebis - PL, PLEB 
Tribunus plebis - TR, TRIB. P, PL 
Praetor - P., PR, PRAET. 
Consul - C., COS, CON, CONS. 
plural: COS.S, CONSS, COS 
As inscrições epigráficas, cujo conteúdo são fontes produtoras do Direito, revestem 
importância capital para o estudo do Direito Romano, permitindo-nos o contato direto com leis, 
plebiscitos, senatusconsultos, etc. Vejamos alguns exemplos142. 
1. Senatusconsultum de 186 a.C. relativo às Bacchanales. 
Trata-se de uma carta enviada pelos cônsules aos habitantes da ager Teuranus no Bruttium, e 
que nos torna conhecido o dito senatusconsulto. O texto gravado em bronze e encontrado em 
1640 no Bruttium provavelmente no local em que se situava o ager Teuranus encontra-se 
atualmente no museu de Viena. A inscrição está datada e localizada. Foi gravada por uma 
pessoa de pouca cultura o que se depreende, por exemplo, dos erros ortográficos143. 
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2. Carta do Pretor L. Cornelius (que foi cônsul em 156 a. C.) endereçada aos habitantes de 
Tibur dando-lhe ciência de uma decisão do senado a seu respeito. A inscrição, gravada em 
bronze, foi encontrada no século XVI e ignora-se seu atual paradeiro. 
3. A Lex Sempronia judiciaria (cerca de 123 a.C.), que reorganizava o tribunal especial diante 
do qual deviam ser apresentadas às acusações de malversação contra os magistrados romanos, 
é-nos conhecida através de nove fragmentos de bronze, dos quais sete estão no Museu Nacional 
de Nápoles e dois no Museu de História da Arte em Viena.143 a. 
4. Lex Latina tabulae Bantinae (cerca de 133 a.C.). 
Em Bantia (confins da Lucânia e da Apúlia), foi encontrada, em 1790, uma Tábua de bronze 
mutilada (atualmente no Museu de Nápoles) com uma inscrição em cada face. Em uma face foi 
gravada uma lei em língua osca. Esta inscrição reveste incalculável valor para o estudo desta 
língua. Na outra face encontra se gravada a sanctio de uma lei latina de data e conteúdo 
ignorados. Os textos referentes à sanctio (sanção) interessam ao estudo das partes da lei (ver, 
mais adiante,