Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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DO BAIXO IMPÉRIO OU BIZANTINO 113 
Leges antes de Justiniano 113 
A jurisprudência no periodo pós-clássico 114 
A lei das citações 115 
Compilações de Justiniano 116 
O 1º Código 117 
O Digesto (Pandectas) 117 
As Institutas 119 
O segundo Código 119 
Novelas 120 
Antinomias 120 
CAPÍTULO IX 
INTERPRETATIO 121 
NOÇÕES GERAIS 121 
A INTERPRETAÇÃO NO DIREITO ROMANO 124 
BIBLIOGRAFIA 134 
NOTAS 139 
 
 
Capítulo I 
NOÇÃO DE DIREITO ROMANO. 
INFLUÊNCIAS RECEBIDAS 
 
NOÇÃO DE DIREITO ROMANO 
 
Podemos definir o Direito Romano como o \u201cconjunto de normas jurídicas que regeram o 
povo romano nas várias épocas de sua História, desde as origens de Roma até a morte de 
Justiniano, imperador do Oriente, em 565 da era cristã\u201d1. 
Estudando a História da Educação em Roma, o historiador Marrou sublinha que, no 
campo do ensino jurídico, cessa o paralelismo entre as escolas gregas e latinas : \u201cAbandonando 
aos gregos a filosofia e (ao menos por muito tempo) a medicina, os romanos criaram com suas 
escolas de direito um tipo de ensino superior original.\u201d Esta originalidade provém 
evidentemente do objeto desse ensino: o direito romano que, como acentua, ainda, Marrou, 
representa \u201co aparecimento de uma forma nova de cultura, de um tipo de espírito que o mundo 
grego não havia de modo algum pressentido\u201d2. 
É comum salientar-se que, enquanto a Grécia antiga notabilizou-se, entre outras 
características, pela vocação especulativa, cultora da idolatria da razão, que deu ao mundo 
ocidental a Filosofia, Roma, impregnada de um senso prático, criou um admirável ordenamento 
jurídico da sociedade, que reflete tão bem os traços marcantes do gênio romano: a gravitas 
(senso de responsabilidade), a pietas (expressão da obediência à autoridade tanto divina como 
humana) e a simplicitas (a qualidade do homem que vê claramente as coisas e as vê tais como 
são). Kaser atribui aos dotes do povo romano a magnitude e a importância do Direito Romano 
privado: \u201cA magnitude do Direito Romano privado e sua importante missão histórica devem-se 
aos dotes do povo de Roma para o Direito, à sua constante atenção para com as realidades vitais 
e a um sentimento jurídico educado, depurado com o transcurso do tempo.3\u201c Compreende-se a 
magnitude dessa criação original ao gênio romano quando se considera que o Direito Romano 
chegou a ser, na palavra de Jhering, \u201ccomo o cristianismo, um elemento de civilização 
moderna\u201d4. 
 
A LONGA VIGÊNCIA DO DIREITO ROMANO 
 
As origens, a evolução e, finalmente, a reinterpretação e atualização do Direito Romano 
nas compilações justinianas no século VI P. C. abrangem um multissecular espaço de tempo em 
que os institutos jurídicos surgiram, desenvolveram-se e sofreram modificações, algumas tão 
profundas que os tornaram quase irreconhecíveis ou simplesmente extinguiram-nos. 
Compreende-se, assim, que o Direito Romano não ofereça em seu conjunto uma unidade 
monolítica. Como anota Margadant, frases como: \u201cno Direito Romano encontramos a seguinte 
regra... \u201c sugerem falsamente uma unidade que não existe5. A diversidade do Direito Romano 
encontra fácil explicação em numerosos fatores que, através do tempo, influíram direta ou 
 1
indiretamente na estrutura dos institutos jurídicos. Essa vasta gama de fatores inclui desde os 
acontecimentos políticos, econômicos, sociais, religiosos que assinalaram as diferentes fases da 
História de Roma até a intensa atuação dos jurisconsultos das mais diferentes épocas, o profícuo 
trabalho dos pretores e as normas jurídicas emanadas de fontes tão diversas como os Comícios, 
o Senado e o Imperador. 
 
 
HISTÓRIA INTERNA E HISTÓRIA EXTERNA 
 
O filósofo alemão Leibniz (+ 1716) distinguiu, no estudo do Direito Romano, entre 
História Externa e História Interna. Nem todos os autores estão acordes em aceitar esta divisão e 
os que a adotam divergem no que tange a seu sentido exato e à respectiva periodização. A 
História Externa tem por objeto o estudo das instituições políticas e sua atuação como fontes 
produtoras do direito; a História Interna visa a conhecer os institutos do direito privado em sua 
formação e ulteriores desenvolvimentos. 
A periodização da História Externa do Direito Romano coincide com a da História de 
Roma:6 
Realeza (da fundação de Roma até o início da República em 510 a.C.). 
República (de 510 a. C. até a batalha de Actium, 31 a. C. ). 
Império subdividido em: 
a) Principado (do início do reinado de Augusto até o reinado de Diocleciano). 
No principado o imperador é o \u201cprimeiro\u201d (princeps) dos cidadãos, mas submetido às leis como os demais. 
b) Dominato (do reinado de Diocleciano (284-305) até a morte de Justiniano em 565). 
O imperador não é mais o primeiro dos cidadãos, mas o senhor (dominus). Este 
qualificativo já exigido anteriormente torna-se obrigatório por ordem de Diocleciano. 
Observe-se que, da História de Roma, dois acontecimentos devem ser lembrados: em 
395, opera-se a divisão definitiva do Império em Império Romano do Ocidente e Império 
Romano do Oriente. Em 476, o primeiro sucumbe com a deposição de seu último imperador, 
Rômulo Augústulo. 
Entre outras, podemos anotar a seguinte periodização da História Interna :7
1. Período das origens (coincide com a Realeza). 
2. Período do antigo Direito (do início da República até a época dos Gracos segunda metade do II século a. 
C.). 
3. Período clássico (da época dos Gracos até Diocleciano ). 
4. Período pós-clássico, romano-helênico ou bizantino (de Diocleciano até a morte de Justiniano). 
Não se deve confundir período bizantino da História do Direito Romano com Direito 
Bizantino, isto é, o Direito que se desenvolveu no Império Romano do Oriente, após a morte de 
Justiniano. 8
 
 2
INFLUÊNCIAS NA EVOLUÇÃO DO DIREITO ROMANO 
 
Inserido no importante quadro da História de Roma, o Direito Romano está sujeito 
através dos numerosos séculos a um longo desenvolvimento que se de um lado conserva uma 
perene continuidade a partir de suas origens, apresenta, de outro lado, uma ampla e intensa 
variedade caracterizada por justaposições e estratificações e que ,leva da extrema simplicidade 
primitiva à mais vasta complexidade\u201d9. 
No estudo dessa longa e complexa evolução histórica do Direito Romano constitui um 
aspecto interessante a indagação sobre se teria havido e, em caso positivo, até onde se teriam 
feito sentir influências de outros sistemas jurídicos ou de outras manifestações culturais 
estranhas ao povo romano. 
Não cabe evidentemente, dentro dos estreitos limites da presente obra, aprofundar um 
tema tão interessante e que já despertou entre romanistas os mais vivos debates. Pretendemos, 
apenas, abordar resumidamente três problemas: 
1. Influência dos Direitos Orientais; 
2. Influência da Civilização Grega; 
3. Influência do Cristianismo. 
 
 
INFLUÊNCIAS ORIENTAIS 
 
As descobertas arqueológicas no Oriente Próximo revelaram a existência de rico 
material de conteúdo jurídico desde os códigos legislativos (entre os quais deve-se destacar o 
famoso Código de Hamurabi) até contratos redigidos em milhares de tabletes de argila 10 . 
Compreende-se que a decifração e o estudo de toda essa vasta documentação de conteúdo 
jurídico (na qual deve ser incluída também a grande quantidade de papiros) tenha chamado a 
atenção não só dos historiadores, de um modo geral, mas dos especialistas em História do 
Direito e, de modo muito particular, dos romanistas. Ao lado do desenvolvimento do estudo do 
Direito Comparado surge entre alguns autores a tendência para explicar as origens e a evolução 
do Direito Romano por influências de outros sistemas jurídicos. Volterra sintetiza a história dos 
estudos sobre a influência dos Direitos Orientais no Direito Romano, na primeira parte de sua 
obra Diritto Romano e Diritti Orientali. Aliás a preocupação em comparar