Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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pretoriano feita sob Adriano. 
Estas Constituições possuem um caráter predominantemente interpretativo. Estamos, assim, em 
presença de um desenvolvimento ulterior do direito civil e honorário sobre as mesmas bases e 
dos mesmos institutos dos dois tradicionais sistemas219. 
Outras Constituições revelam uma intensa atividade inovadora por parte dos 
imperadores que ampliam notavelmente os horizontes jurídicos. \u201cEstamos em presença de uma 
nova e autônoma neo-formação jurídica; é um novo estrato, um novo complexo jurídico que 
vem acrescentar-se aos precedentes\u201d220. Digno de nota é o aparecimento de um novo sistema 
processual diverso do sistema per formulas (ordo judiciorum privatorum) aplicável tanto no 
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campo do jus civile como do jus honorarium: Trata-se do chamádo processo extra ordinem 
(cognitio extra ordinem). 
Lembremos que o processo extra ordinem já revela uma nova concepção segundo a qual 
o processo judiciário começou a ser concebido como função do Estado e como meio ou 
instrumento genérico de proteção e execução do Direito221. 
Através da época clássica persistem os três sistemas jurídicos (jus civile, jus honorarium, 
jus constitutionum) formalmente distintos embora se inicie um processo de influências 
recíprocas, sem que contudo se chegue a uma unificação222. Ê curioso notar através dos juristas 
clássicos a incerteza e hesitação quando procuram inserir a nova formação legislativa no 
ordenamento jurídico. 
Ora se incluem as Constitutiones Principum entre as fontes do jus civile (temos aqui 
talvez um modo de agradar ao príncipe) e se aplica assim a denominação de jus civile ao direito 
imperial (ver, supra, citação de Papiniano, D. 1.1.7), ora fala-se em novum jus (ver Gaio, 
D.5.3.3), ora contrapõe-se o jus extra ordinem ao jus civile e ao jus honorarium (ver Marcianus, 
D. 48.10.7). Biondi sublinha : \u201cos juristas percebem bem que se trata de qualquer coisa de novo 
a que não sabem dar um nome preciso, mas acabam enquadrando-a no âmbito do jus civile que, 
em sua progressiva evolução, tendia a compreender todo o direito privado\u201d223. 
Na época pós-clássica é nítido o processo de unificação que se conclui sob Justiniano 
conforme atestam as Institutas (2, 10-3): \u201cpaulatinamente, tanto pelo uso dos homens quanto 
pelas formas das constituições, começou a unificar· se numa mesma consonância o direito civil 
e o direito pretoriano (...) (paulatim tam ex usu hominum quam ex constituionum 
emendationibus coepit in unam consonantiam jus civile et praetorium jungi). 
 
Jus Gentium 
 
A expressão jus gentium é empregada nos textos em mais de uma acepção, o que tem 
dado margem a interpretações diversas por parte dos romanistas. Quando às atividades 
comerciais dos romanos se expandiram através da bacia do Mediterrâneo, tornou-se necessária a 
criação de um cargo de pretor cujo titular tivesse jurisdição entre as contendas que surgiam quer 
entre os próprios estrangeiros, quer entre estes e os cidadãos romanos (inter peregrinos e inter 
cives et peregrinos): aparece assim o praetor peregrinus (242 a.C.). Perante o tribunal deste 
magistrado as partes tinham grande liberdade na escolha das expressões com que manifestavam 
suas pretensões (podiam até servir-se de intérpretes), não estando, portanto, presas às palavras 
sacramentais da legis acto. Estamos aqui em face de duas jurisdições paralelas: a do praetor 
urbanus (inter cives) e a do praetor peregrinus (inter peregrinos e interperegrinos et cives). 
Este paralelismo, enfatiza Pacchioni, \u201cfoi fecundo em resultados para o processo de 
formação do direito privado romano\u201d224. O antigo direito é revisado, ampliado e modernizado. 
O conjunto de relações jurídicas de que participavam também os peregrini formava um 
\u201ccomplexo concreto que tinha sua individualidade\u201d a que os romanos referiam \u201cum conceito 
doutrinal que encontramos nos escritores não jurídicos (particularmente em Cícero) e que entra 
plenamente na linguagem dos juristas na época de Adriano, o de jus gentium (...)\u201d225. 
Cícero (De Off. 3 .17, 69) anota que \u201cos antepassados quiseram que uma coisa fosse o 
jus civile, outra o jus gentium (Maiores aliud jus civile, aliud jus gentium esse voluerunt). 
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O jus gentium é um direito positivo do Estado Romano, aplicável aos estrangeiros (e aos 
cidadãos em suas relações jurídicas com os peregrini) e que formalmente possui suas raízes no 
Edito do Praetor peregrinus 226 . Em seu conteúdo o jus gentium inspira-se também em 
princípios e institutos estranhos ao antigo jus civile que, como anota Biondi, \u201cnão eram 
recebidos passivamente, mas enquadrados no sistema e remodelados pelo espírito jurídico 
romano com aquela elasticidade que tornava possível sua aplicação a uma pluralidade 
heterogênea de povos\u201d227. O jus gentium era pois, como diz Giffard, \u201cum direito comum a todos 
os povos (gentes) do mundo romano (orbis roma· nus)\u201d228. 
Cabe aqui uma indagação: qual a relação entre o jus gentium e o jus civile? 
Não há dúvida de que ambos possuem um denominador comum: constituem direito 
privado. É o que está expresso tanto na subdivisão dicotômica (jus civile e jus gentium) como na 
subdivisão tricotômica (jus civile, jus gentium e jus naturale) do direito privado formuladas 
pelos jurisconsultos romanos. 
Quanto à antítese jus gentium-jus civile, deve-se notar que a mesma só é válida sob o 
ponto de vista já acentuado da aplicabilidade de um às relações jurídicas entre os peregrini ou 
entre estes e os cives romani e da aplicabilidade do outro exclusivamente a estes últimos. 
O jus gentium, em oposição ao jus civile, reconhece em suas relações jurídicas como 
sujeitos de direitos e deveres, seres humanos livres não-cidadãos. 
De resto esta antítese se dilui quando consideramos que normas do jus gentium \u201cforam 
em breve tempo acolhidas nas relações entre romanos e aplicadas também no Tribunal do 
praetor urbanus; neste sentido os juristas podiam dizer que, enquanto o jus civile pode não ser 
jus gentium, o jus gentium é necessariamente jus civile\u201d229 . Cícero já havia observado em 
continuação do texto supracitado: \u201cO que é direito civil, nem por isso é direito das gentes, mas o 
que é direito das gentes deve ser direito civil\u201d (quod civile non idem continuo gentium, quod 
autem gentium idem civile esse debet.) Em outras palavras: num sentido lato, o jus civile 
incluiria também o jus gentium; num sentido restrito, jus civile seria o direito somente aplicável 
aos cidadãos romanos). 
O jus gentium inspira-se na bona fides (fides é o dever de cumprir a palavra empenhada, 
imposto a todos os homens) e na aequitas e tem em mira a esfera das relações patrimoniais 
especialmente as mais freqüentemente empregadas nas operações mercantis: venda, locação, 
sociedade, mandato, depósito, comodato, tradição, etc.230 Surgem no âmbito do jus gentium 
institutos que têm análoga função prática à dos existentes no jus civile, porém apresentam mais 
elasticidade e não revestem a mesma solenidade: \u201cnovos tipos de contratos são reconhecidos 
pelo jus gentium, completando a série dos admitidos pelo jus civile; a sponcio, típico instituto 
civilista encerrado em uma fórmula solene, amplia-se na stipulatio, de aplicação universal e que 
preludia a noção moderna de contrato; a traditio suplanta na prática a vetusta mancipatio 
quando o praetor concede a Actio Publiciana, que tem a mesma função da reivindicatio\u201d.231 
A distinção prática entre jus civile e jus gentium foi perdendo a importância à medida 
que se ampliava o círculo de concessão da cidadania romana. 
Após a Constituição Antonina (212 P.C.) sobre a extensão da cidadania romana aos 
habitantes livres do Império não havia mais razão para distinção prática entre os dois ramos do 
direito privado a não ser, como anota Biondi, em relação a algumas minorias privadas dà 
cidadania romana232. 
Até aqui temos tratado do jus gentium como direito