Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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coisa. acidental. O primeiro \u201cobsta à 
formação do ato jurídico, por excluir a manifestação da vontade real\u201d (D. 39.3.20.: nulla erdim 
voluntas errantis est). O segundo \u201cvicia essa vontade mas não a exclui\u201d294 . Na realidade\u201d a 
influência do erro de fato na validade do negócio jurídico variou através da história do Direito 
Romano.295
Vejamos, a seguir, algumas modalidades de erro de fato, de acordo com os textos.296 
Error in negotio - recai sobre a própria índole do negócio jurídico. Exemplo : \u201cse eu der 
uma soma em depósito e tu a recebes como mútuo; não há depósito nem mútuo\u201d. (D. 12.1.18.1.: 
Si ego quiasi deponens tibi dedero, tu quasi mutuam accipias, nec depositum, nec mutuum est.) 
Uma parte queria praticar um ato e a outra queria praticar ato diferente. 
Error in persona - recai sobre a identidade da pessoa \u201ca quem o ato favorece ou com 
quem se contrata\u201d297. Exemplo: Se um testador, querendo designar alguém herdeiro, designa 
outro por engano. (D. 28.5.9.pr.: Quotiens volens alium heredem scribere alium scripserit in 
corpore hominis errans...) Não é herdeiro o que foi designado porque não era essa a intenção 
nem o que se pretendeu designar porque não foi designado (placet neque eum heredem esse qui 
scriptus est, quoniam voluntate deficitur, neque eum quem voluit, quoniam scriptus non est). 
Note-se que a nulidade do ato decorre do fato de ser visada uma determinada pessoa (o negocio 
jurídico é praticado intuitu personae). \u201cEntretanto, quando a consideração da pessoa não é 
essencial, o certo a respeito dela é indiferente, exemplo: o negociante vende a dinheiro a quem 
quer que seja, pelo que, se em certo comprador lhe parece reconhecer Pedro em vez de Paulo, 
isso não afeta a validade do ato\u201d298. 
O erro sobre o nome (error nominis) da pessoa ou da coisa, como que uma ou outra 
possa ser identificada não implica a invalidade do negócio jurídico. Inst. 2.20.29.: Si quis in 
nomine... erraverit, si de ·persona constat, nihilominus valet legatum... Se alguém errou no 
nome\u2026 , sendo conhecida a pessoa, nem por isso deixa de valer o legado. D. 18.1.9.1.: nihil 
enim facit error nominis, cum de corpore constat: nada influi o erro na denominação, quando se 
identifica o objeto. 
Error in corpore \u2013 recai sobre a identidade da coisa. Exemplo: \u201cSe o estipulante se 
refere a uma coisa e o promitente a outra, não se contrai nenhuma obrigação, como se nenhuma 
resposta desse a uma pergunta; por exemplo, se alguém estipula de ti um escravo Stico e tu 
pensas que se trata de Pânfilo, que julgas chamar-se Stico\u201d (Inst. 3.19.23.: Si de alia re 
stipulator senserit, de alia promissor, perinde nulla contrahitur obligatio, ac si ad interrogatum 
responsum non esset, veluti si hominem Stichum a te stipulatus quis fuerit, tu de Pamphilo 
senseris, quem Stichum vocari credideris). 
Error in substantia - \u201crecai sobre a matéria de que a coisa é feita\u201d299. Biondi anota que a 
substantia rei \u201cnão é dada pela constituição química da coisa mas pela função econômico-social 
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que tem a coisa na vida comum; é a diversa função social que faz divergir essencialmente um 
escravo de uma escrava, um quadro de outro, o original de uma cópia.\u201d300 Estamos aqui em face 
de assunto controvertido. 
Os juristas clássicos divergiam na apreciação das conseqüências jurídicas do error in 
substantia. Para os seguidores da doutrina peripatética como, por exemplo, Marcelo, este error 
não implicava nulidade pois consideravam o critério decisivo de identificação das coisas a 
forma e não a matéria. Para os que seguiam a doutrina estóica (como, por exemplo, Ulpiano) a 
matéria era essencial para a identificação das coisas e não a forma (ver Matos Peixoto, obra 
citada, p. 393 ). 
Ulpiano (D. 18. 1. 9. 2.) comenta : \u201cDai indaga-se se há compra e venda quando não se 
erra no próprio objeto mas na substância; por exemplo, se for vendido vinagre por vinho, bronze 
por ouro, ou chumbo por prata ou outro objeto que pareça prata. Marcelo escreveu que há 
compra e venda porque se consentiu no objeto, embora se haja errado na matéria.\u201d (Inde 
quaeritur si in ipso corpore non erratur, sed in substantia error sit, ut puta si acetum pro vino 
veneat, aes pro auro ve1 plumbum pro argento vel quid aliud argento simile, an emptio et 
venditio sit. Marcellus scripsit libro sexto digestorum emptionem esse et venditionem, quia in 
corpus consensum est, etsi in materia sit erratum.) Ainda Ulpiano (ibidem) nega a nulidade do 
negócio se foi comprado vinagre feito de vinho (si modo vinum acuit) em vez de vinho; o 
negócio porém é nulo se foi adquirido como se fosse vinho um vinagre não feito de vinho (si 
vinum non acuit, sed ab initio acetum fuit). Neste caso parece que foi vendida uma coisa por 
outra (aliud pro alio venisse videtur). Nos demais casos, conclui Ulpiano, \u201ctoda vez que há erro 
quanto à matéria, não há venda (o ato é nulo): (in caeteris autem nullam esse venditionem puto, 
quotiens in materia erratur). 
Error in quantitate - Trata-se de erro quanto à quantidade da coisa. As opiniões aqui não 
são uniformes. Vejamos um exemplo : D. 19.2.52.: Se te alugo uma herdade por dez mil 
sestércios e se tu crês que tomaste de aluguel por cinco mil, o contrato é nulo (Si decem tibi 
locem fundum, tu autem existimes quinque te conducere, nihil agitur); mas se eu entendesse que 
te alugava por menos e tu (entendesses) que tomavas de aluguel por mais, certamente o aluguel 
não será maior do que eu pensei (sed et si ego minoris me locare sensero, tu pluris te conducere, 
utique non pluris erit conductio, quam quanti ego putavi). 
Dolo Os antigos juristas romanos distinguiam entre dolus malus e dolus bonus. O 
primeiro, segundo Lábeo é definido como \u201ca malicia, engano, maquinação empregada para 
valer-se da ignorância de alguém, para enganálo ou fraudá-lo. (D. 4.3.1.2.: Labeo autem... sic 
definiit dolum malum esse omnem calliditatem, fallaciam, machinationem ad circumveniendum, 
fallendum, decipiendum alterum adhibitam.) Dolus bonus é \u201cuma certa astúcia, socialmente 
tolerada como a que se usa contra o inimigo e contra os ladrões ou a que o vendedor ou o 
locador usa para melhor vender ou locar a coisa\u201d301. (D. 4.3.1.3.: os antigos mencionavam 
também dolo bom e davam este nome à astúcia sobretudo quando alguém maquinava algo 
contra o inimigo ou contra o ladrão: veteres dolum etiam bonum dicebant et pro sollertia hoc 
nomen accipiebant, maxime si adversus hostem latronemve quis machinetur). 
O dolus malus é \u201co único que tem relevância jurídica\u201d302. 
Nos judicia bonae fidei (ações de boa fé, aquelas em que o judex aprecia os fatos ex fide 
bona, isto é, de acordo com a boa fé) levava-se em consideração o dolus malus. Valia aqui o 
princípio: a boa fé é incompatível com a fraude e o dolo. (D. 17.2.3.3.: fides bona contraria est 
fraudi et dolo.) Na stipulatio (contrato verbal de ampla aplicação) o credor pode precaver-se 
contra o dolo por parte do devedor por meio da cláusula doli em que o segundo assegura a 
ausência de dolo presente e futuro. 
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O pretor Aquilius Gallus (séc. I a.C.) introduziu a actio doli (ação de dolo) que configura 
o dolus como delito privado.303
A exceptio doli foi introduzida pelo pretor em favor da parte lesada e oponível contra a 
ação que surgisse em virtude de negócio doloso. 
Lembremos que se ambas as partes agissem dolosamente, nenhuma delas podia reclamar 
contra a outra. (D. 4.3.36.: si duo dolo malo fecerint, invicem de dolo non agent). 
 
Coação (Vis, metus) 
 
Distingue-se entre coação física (vis corpori illata) e coação moral (vis animo illata). A 
primeira consiste em forçar fisicamente (vis absoluta) alguém a praticar contra sua vontade um 
determinado ato; exclui a vontade da vítima e impede assim a existência do próprio negócio 
jurídico. A segunda (vis compulsiva ou impulsiva) consiste em \u201cameaça à vida, à integridade 
física, à liberdade, à honra da