Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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própria pessoa ou de pessoa que lhe é cara\u201d304. Os romanos usam 
dois vocábulos para exprimirem a coação moral: metus e vis; metus é a situação de temor em 
que se encontra uma pessoa por efeito das ameaças; vis é a própria ameaça.305
\u201cEntretanto nem toda violência moral é suficiente para determinar a anulabilidade do ato 
jurídico; são necessárias umas tantas condições: que seja grave, atual e capaz de impressionar 
um homem ponderado. Se a ameaça tem por fim compelir o ameaçado a cumprir um dever 
jurídico (ex.: pagar uma dívida), não vicia o ato, embora possa ser punida criminalmente306. 
Lábeo (D. 4.2.5.) diz que por metus se deve entender não um temor qualquer mas o de 
um mal maior (metum accpiendum Labeo dicit non quemlibet timorem sed maioris malitatis). 
 
ELEMENTOS ACIDENTAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO307
 
Entre os elementos acidentais do negócio jurídico (que existem em número 
indeterminado) vamos lembrar: o termo (dies), a condição (condicio) e o modo (modus). 
Observe-se que esses elementos acidentais não são elementos de importância secundária pois 
fazem parte integrante do negócio jurídico em concreto. Essa inclusão é voluntária e empresta 
ao ato uma fisionomia particular. Biondi (obra citada, p. 194) sublinha que \u201cse fala também de 
limitações voluntárias do efeito do negócio pois que visam limitar as conseqüências legais do 
ato\u201d. Evidentemente determinado elemento acidental não será adicionado se a natureza do ato 
não o comportar ou se a lei não o permitir. 
Termo - é \u201caquele momento a partir do qual o negócio jurídico deve começar a produzir 
os seus efeitos ou deve deixar de os produzir\u201d308. 
Tem por fim fixar a duração dos efeitos da relação, fazendo-os começar ou fazendo-os 
cessar num dado dia309. Distingue-se, assim, entre termo suspensivo ou inicial (a partir dele o 
direito pode ser exercido) e termo resolutivo ou final (com seu advento, o direito se extingue). 
Exemplo de termo inicial: a data de vencimento de uma dívida. Exemplo de termo final : o dia 
em que termina uma locação310. 
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Os romanos designavam o termo inicial e termo final respectivamente com as 
expressões ex die e in diem. Os antigos romanistas diziam respectivamente dies a quo (termo 
inicial, dia a partir do qual) e dies ad quem (termo final, dia para o qual se vai). 
Paulo (D. 44.7.44.1.) assim distingue o termo (dies): \u201cAcerca do termo há um duplo 
aspecto: ou a obrigação começa num termo (ex die) ou existe até que chegue o termo (in diem); 
termo inicial por exemplo (a estipulação): \u201cprometes dar nas calendas de Março\u201d tem por efeito 
que não pode ser exigida antes do termo; termo final, porém, por exemplo: \u201cprometes dar até as 
calendas?\u201d (Circa diem duplex inspectio est: nam vel ex die incipit obligatio aut confertur in 
diem; ex die velut Kalendis Martiis dare spondes? Cujus natura haec est, ut ante diem non 
exigatur; ad diem autem \u201cusque ad Kalendas dare spondes?\u201d.) 
Vale aqui lembrar que \u201cos juristas romanos não admitiam termo resolutivo com relação 
a certos direitos ou situações jurídicas (assim, o direito de propriedade, o direito de servidão, a 
qualidade de herdeiro), que não podiam ter, em Roma, duração limitada no tempo pela vontade 
das partes\u201d311. 
Papiniano (D. 28.5.34.) diz que \u201ca herança não pode ser dada com termo inicial ou 
termo final, mas, posto de lado o vício do prazo, mantém-se a instituição\u201d (Hereditas ex die ve1 
ad diem non recte datur, sed vitio temporis sublato manet institutio). 
O lapso de tempo decorrido entre a data do negócio jurídico e a superveniência do termo 
chama-se prazo. Quando o prazo começa a correr, usa-se a expressão dies cedit; quando se 
extingue, diz-se dies venit. É o que nos ensina Ulpiano (D. 50.16.213. pr;): \u201cCedere diem\u201d 
significa que começa a ser devida a quantia; venire diem significa que chegou o dia, em que se 
pode exigir a quantia\u201d (\u201cCedere diem\u201d significat incipere deberi pecuniam; \u201cvenire diem\u201d 
significat eum diem venissse quo pecunia peti possit). 
O termo, em geral, é fixado com base em uma data do calendário (Kalendis Martiis) ou 
em um acontecimento futuro mas certo (cum morieris). A futuridade e infasibilidade do evento 
constituem características essenciais do termo. Note-se, contudo, que pode ser incerto o tempo 
em que esse evento se realiza.312
Condição (condicio) - \u201cé o evento futuro e incerto de que depende o nascimento ou a 
extinção de um direito\u201d.313
Exemplo: \u201cse um navio vier da Ásia\u201d (si navis ex Asia venerit). 
Não se consideram condições: 
1. As cláusulas que, apesar de se assemelharem às condições, referem-se a 
acontecimentos passados ou presentes embora desconhecidos pelas partes. 
\u201cAs condições que se referem a uma época passada ou presente, por exemplo, 
prometes dar-me se Tício foi cônsul ou se Mévio estiver vivo, Ou invalidam 
imediatamente a obrigação ou não a procrastinam. Na verdade, se o fato se não 
realiza, a estipulação é nula, e se o fato se realiza, a estipulação vale desde o 
momento em que se fez, porquanto um fato certo na ordem dos acontecimentos 
não retarda a obrigação, ainda que seja incerto relativamente a nós.\u201d 
(Inst. 3.15.6.: Condiciones, quae ad praeteritum vel ad praesens tempus referentur, 
aut statim infirmant obligatianem aut omnino non differunt: veluti si Titius consul 
fuit vei si Maevius vivit dare spondes? Nam si ea ita non sunt, nihil valet stipulatio: 
sin autem ita se habent, statim valet. Quae enim per rerum naturam certa sunt, 
non morantur obligationem, licet apud nos incerta sint.) 
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2. As chamadas condições tácitas ou implícitas (condiciones quae tacite insunt, na 
linguagem das fontes ou condictiones juris, na linguagem dos romanistas). 
São na realidade \u201ccláusulas que decorrem necessariamente da natureza do direito a 
que acedem\u201d.314
Assim, por exemplo, o dote prometido sob a condição de casamento: não há dote 
sem matrimônio. D. 23.3.21.: A estipulação que se faz por causa do dote, consta 
que implica esta condição: se efetuar-se o matrimônio. (Stipulationem quae 
propter causam dotis fiat, canstat habere in se condicionem hanc \u201csi nuptiae 
fuerint secutae.) 
Há condições que, \u201cpor certas circunstâncias não produzem os seus efeitos normais\u201d315. 
São as que consistem em fato impossível fisicamente e as que configuram um fato ilícito, imoral 
ou contra os bons costumes. Examinemo-las brevemente. 
Segundo as Sententiae de Paulo (3.4B.1.) há duas espécies de condições: possível ou 
impossível; possível é a que pode ser admitida pela natureza das coisas; impossível a que não o 
pode. (Condicionum duo sunt genera: aut enim possibilis est, aut impossibilis: possibilis, quae 
per rerum naturam admitti potest, impossibilis, quae non potest.) Quando se subordina a 
obrigação a uma condição impossível, a estipulação é nula (Inst. 3.19.11.: Si impossibilis 
condicio obligationibus adiciatur, nihil valet stipulatio). 
Exemplo de condição impossível (Inst. 3.19.11.): prometes dar se eu tocar o céu com o 
dedo\u201d (si digito caelum attigero, dare spondes?) Observe-se, entretanto, que se a condição for 
enunciada negativamente (prometes dar se eu não tocar o céu com o dedo? Si digito caelum non 
attigero, dare spondes?) entende-se a obrigação como pura (isto é, sem condição) e 
imediatamente exigível (Inst. 3.19.11.: pure facta obligatio intellegitur, ideoque statim petere 
potes)316. 
As condições ilícitas (turpes) invalidam o ato. Segundo as Sententiae de Paulo (3.4B.2.) 
as condições contra as leis, decretos dos imperadores ou bons costumes são nulas (contra leges 
et decreta principum vel bonos mores... nullius sunt momenti). Exemplo: se cometeres um 
homicídio (Si homicidium feceris)317. 
Distinguem-se várias espécies de condições propriamente ditas: Positivas ou negativas: 
\u201cse a estipulação consiste em ser alguma coisa feita ou não\u201d (Inst. 3.15.4.: si aliquid factum 
fuerit aut non fuerit). 
\u201cA condição