Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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servia-se de filhos, escravos e 
pessoas in mancipio como meios auxiliares de irradiação de sua atividade jurídica. De acordo 
com o Direito Civil, os efeitos favoráveis dos atos desses súditos do chefe de família revertiam 
automaticamente para o patrimônio do pater...\u201d334. 
Gaio (2. 87) informa-nos: \u201cPor conseguinte adquirimos o que os nossos filhos, que 
temos em nosso poder, ou nossos escravos recebem por mancipação, obtêm por tradição, 
estipulação ou qualquer outra causa; porque quem se encontra em nosso poder nada pode ter 
para si.\u201d (Igitur quod liberi nostri quos in potestate habemus, item quod servi nostri mancipio 
accipiunt ve1 ex traditione nanciscuntur, sive quid stipulentur, vel er aliqualibet causa 
adquirunt, id nobis adquiritur; ipse enim qui in nostra potestate est, nihil suum habere potest.) 
Era como se o filho ou o escravo falasse pela boca do pai ou do senhor (Inst. 3. 19. 13: quia 
patris ve1 domini voce loqui videtur). 
Acrescente-se que o jus honorarium tornou o paterfamilias responsável pelas obrigações 
resultantes desses atos. 
Cabe aqui uma observação respectivamente sobre as figuras do nuntius e do procurator. 
Nuntius era um mero portador da declaração de vontade emitida por quem realizava o 
negócio (dominus negotii). Cabia-lhe reproduzir fielmente a declaração da vontade da parte ao 
respectivo destinatário. Era utilizado apenas em negócios jurídicos não solenes. 
Em D. 18.1.1.2. encontramos menção ao nuntius para a efetivação de um contrato 
consensual: \u201cA compra é de direito das gentes e por isso se realiza mediante consentimento e 
pode contratar-se entre ausentes por mensageiro ou por carta\u201d (Est autem emptio juris gentium, 
et idev consensu peragitur et inter absentes contrahi potest et per nuntium et per litteras). 
O \u201cnuntius\u201d equivalia portanto a uma carta, isto é, a um mero instrumento de 
comunicação. 
Procurator - O termo procurator, anota Biondi, \u201cna linguagem romana denota o ofício 
de uma pessoa que faz as vezes de outra mas não denota representação\u201d335. 
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Excepcionalmente a posse pode ser adquirida por procurador (Paulo, Sent. 5.2.2.: sed 
per procuratorem adquiri nobis possessionem posse utilitatis causa receptum est). 
Gaio (2. 95) já anotara: \u201cApenas quanto à posse, pergunta-se se podemos adquiri-la por 
pessoa estranha\u201d (Tantum de possessione quaeritur, an per extraneam personam nobis 
adquiratur). 
\u201cNa procuratio, que tem raízes na antiga família romana, o procurator - em geral um 
liberto - é o senhor de fato do patrimônio que se encontra sob sua administração, tanto que, com 
relação a ele, tem poderes amplos. Mas a procuratio é um instituto mais social do que, 
propriamente, jurídico. Segundo parece, o procurador verdadeiro era munido de mandato (tanto 
assim que o gestor de negócios era um falsus procurator), mas se distinguia do mandatário por 
cuidar prolongadamente dos negócios de outrem, e não por um só momento\u201d336. 
O Procurator omnium rerum, representante direto do paterfamilias, era em geral um 
liberto que administrava todos os bens numa família romana importante. 
Ulpiano (D. 3.3. 1.) assim define procurador: Procurador é aquele que administra os 
negócios alheios por mandato do titular (Procurator est qui aliena negotia mandatu domini 
administrat). 
Vejamos agora, brevemente, a representação das partes em juízo. Bonfante observa que 
esta representação \u201cfoi a primeira forma de representação amplamente admitida pelos 
romanos\u201d337. 
Convém lembrar preliminarmente que encontramos na História do Direito Romano três 
sistemas de processo civil: ações da lei (legis actiones), formulário (per formulas) e 
extraordinário (cognitio extraordinaria). 
Diga-se de passagem que a sucessão cronológica desses sistemas processuais é gradual: 
um suplanta o outro após um período de coexistência. 
No processo formalista das legis actiones, era proibido agere nomine alieno com 
algumas exceções constantes das Institutas (Inst. 4.10.) que completam um texto de Gaio (4. 
82.)338. 
pro populo: para defender causas de interesse público. 
pro libertate: em defesa da liberdade de alguém. 
pro tutela: em defesa do pupilo. 
ex lege Hostilia: em caso de furto, a favor de um prisioneiro em poder dos inimigos ou 
de um ausente a serviço público. 
No processo formulário aparecem novas categorias de representantes: curadores, 
representantes de pessoas jurídicas (actores ou sindici), cognitores e procuratores. Estas duas 
últimas categorias merecem uma atenção especial. 
Cognitor - Estamos aqui diante de um mandatário ad litem, instituído perante o 
magistrado (in jure) pelo autor ou pelo réu, na presença do adversário (coram adversario) e por 
meio de palavras solenes (certis verbis) conservadas por Gaio ( 4. 83. ). 
Procurator era primitivamente um encarregado de administrar bens. Podia, sem 
mandato especial, litigar na justiça e cumprir outros àtos de gestão do patrimônio. 339 \u201cO 
conceito de procurador nasceu na humilde família agrícola romana. O atarefado paterfamilias 
manumite seu hábil villicus Hermes e, de forma implícita, tácita ou explícita, em um mandato 
geral incumbe seu novo liberto da administração de seus bens e especialmente da defesa de seus 
interesses econômicos\u201d340. 
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Desde a época de Gaio (4. 84.) considera-se igualmente como procurator aquele que 
recebeu especialmente mandato para pleitear na justiça, sem palavras especiais, podendo 
constituir-se na ausência e ignorância do adversário (Procurator nullis certis verbis in litem 
substituitur, sed ex solo manduto et absente et ignorante adversario constituitur). 
Ainda Gaio nos informa que alguns consideraram também procurator quem não tivesse 
mandato, contando que assumisse a causa de boa fé e apresentasse caução pela futura 
ratificação de seus atos pelo mandante (caveat ratam rem dominum habiturum). 
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Capítulo VII 
ESTRUTURA POLÍTICA 
 
Já sublinhamos a importância da História de Roma como disciplina auxiliar 
indispensável ao estudo do Direito Romano. Entre os capítulos dessa História que apresentam 
íntima relação com o estudo do Direito figura o referente à estrutura política de Roma, à 
organização da Res Publica. Estamos aqui em pleno campo do Jus publicum. Conforme 
veremos no capítulo seguinte (Fontes do Direito Romano) é na estrutura política de Roma que 
encontramos as chamadas Fontes de Produção em sentido material, a saber, \u201cos órgãos que, 
segundo a estrutura política do Estado em determinada época, têm a função de criar as normas 
de direito\u201d.341
O estudo das Instituições Políticas de Roma apresenta ainda um significado especial 
para os estudiosos da Teoria Geral do Estado e do Direito Constitucional, como acentua 
Burdese (Manual de Derecho Publico Romano, p. V): \u201cA configuração do Estado Moderno foi 
realizada pelos juristas e teóricos da política da Baixa Idade Média e do Renascimento sobre o 
modelo de Roma. A idéia do Estado como um ente abstrato e supremo, distinto da massa de 
indivíduos que o integram, e que atua por meio de normas gerais ou leis e de ordens concretas e 
atos coercitivos impostos por um aparelho burocrático, é de origem romana. Roma também 
proporciona o modelo mais conhecido, ao lado da Monarquia britânica, de um governo 
equilibrado em seus diversos órgãos para evitar abusos do poder, o que constitui a essência do 
moderno governo constitucional analisado por Montesquieu, que foi um bom conhecedor da 
História Antiga.\u201d 
No sucinto estudo que pretendemos fazer da Estrutura Política de Roma vamos seguir a 
periodização tradicional já mencionada quando focalizamos a História Externa do D. Romano: 
Realeza, República, Império ( Principado e Dominato). 
 
REALEZA 
 
A história da fundação de Roma e dos acontecimentos que se enquadram dentro do 
período chamado Realeza constitui um amplo campo de dúvidas e de controvérsias. Vale aqui