Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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no sentido de que sejam observadas 
suas prescrições. 
 
Imperium 
 
Os mais altos magistrados de Roma (ditadores, cônsules e pretores) dispunham de uma 
vasta soma de poderes compreendida sob a designação de imperium. Segundo Homo, este poder 
\u201ccomportava ao mesmo tempo a administração civil do território, o comando das tropas, o 
exercício da justiça, numa palavra, o conjunto de atribuições civis, militares e judiciárias\u201d.360
Originariamente um poder de comando fundado sobre a força e o prestígio do chefe, a 
noção de Imperium vai adquirir na época republicana um valor jurídico mais preciso361. O 
conceito de imperium, anota Wolff, \u201cera o eixo de todo o pensamento constitucional romano\u201d362. 
\u201cA constituição republicana considera porém o imperium sob dois diversos aspectos, 
conforme seja exercido dentro do pomoerium da cidade (imperium domi) ou fora dele, não só na 
guerra (como faria pensar a denominação de imperium militiae) mas também nas funções 
administrativas e jurisdicionais exercidas nos territórios submetidos. Enquanto o imperium domi 
encontra seu limite na provocatio ad populum referente ao condenado à morte, nas 
competências do senado e das assembléias, na irrevogabilidade do jus civile e na santidade das 
leis votadas pelo povo, o imperium militiae é juridicamente ilimitado363. 
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No último século da República a concepção tradicional de imperium sofre alterações: os 
magistrados de Roma, cônsules e pretores, passam a ter apenas funções civis enquanto os pro-
magistrados, governadores de províncias, conservam o imperium integral.364
Três princípios dominam a organização das magistraturas republicanas: anualidade, 
colegialidade e responsabilidade. 
Em princípio o mandato do magistrado é anual (com exceção do ditador e do censor). 
Ao término deste prazo os poderes do magistrado cessam automaticamente365. Esta cessação 
pode ocorrer antes do decurso de um ano por vontade do titular do cargo quando houver motivo 
grave relacionado com o interesse do Estado. 
A reeleição era permitida após determinados intervalos366. A partir do final do século III 
prolonga-se a função de magistrado com a atribuição da pro-magistratura a um magistrado que 
deixa o cargo. Assim temos o pro-pretor, o pro-consul. A pro-magistratura surgiu da 
necessidade de assegurar comandos militares em diversos teatros de operações e prover os 
cargos de governadores nas províncias. 
O princípio da colegialidade constitui um dos traços mais originais da magistratura 
romana e encontra sua expressão mais típica no exercício da magistratura consular367. 
As magistraturas, via de regra (exceção é, por exemplo, o ditador) são exercidas por 
vários magistrados: dois cônsules, dois pretores (número ampliado posteriormente) dois edis 
curuis, etc. Uma das razões da multiplicação do número de magistrados integrantes de um 
mesmo colégio explica-se, entre outras, pelo acúmulo de serviço e pela preocupação em evitar a 
concentração de poderes em uma mesma mão. Deve-se, entretanto, sublinhar que o colégio de 
magistrados não constitui uma entidade que só pode agir por unanimidade de seus membros. É 
antes uma reunião de magistrados do mesmo tipo. Cada membro do colégio pode atuar 
separadamente. Partilham entre si as tarefas quer através de uma alternância temporal (assim, 
por exemplo, os cônsules, podiam revezar-se mensalmente em determinadas atribuições) quer 
por meio de uma divisão das funções. 
Como cada magistrado detém a plenitude do poder e o mesmo poder de seu colega, pode 
interferir na atuação deste quer opondo-se preventivamente (prohibitio) a uma tomada de 
atitude, quer cassando a decisão tomada (intercessio). 
A prohibitio e a intercessio tornaram-se possíveis não somente entre membros de um 
mesmo colégio (par potestas) mas por parte de um magistrado superior em relação a um de 
colégio inferior (maior potestas). \u201cO censor fica fora desta hierarquia; não pode paralisar a 
atividade dos outros magistrados mas nenhum magistrado pode opor-se a seus atos\u201d368. 
Os autores divergem quanto à caracterização e ao alcance da responsabilidade dos 
magistrados romanos. Gaudemet observa que ao término de sua magistratura os magistrados 
devem jurar que nada fizeram contra as leis. \u201cDevem dar conta de sua gestão e podem ser 
julgados pelo Senado. Esta responsabilidade permaneceu assaz teórica pois o próprio Senado é 
composto de antigos magistrados: Juízes e acusados pertencem muitas vezes ao mesmo meio 
social e as alianças familiares evitam uma condenação\u201d369. 
As magistraturas não eram, em princípio, remuneradas. Para o exercício do imperium 
militiae as populações submetidas deviam arcar com as despesas de viagem, sustento e 
alojamento do magistrado e do seu séquito. 
Uma visão geral das magistraturas romanas permite-nos distinguir entre: 
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a) Magistraturas ordinárias (funções permanentes e titulares eleitos anualmente) e 
extraordinárias (funções temporárias). Entre estas últimas figurava, por exemplo, a 
ditadura. 
b) Magistraturas maiores (por exemplo: consulado e pretura) e magistraturas 
menores. Caracterizadas respectivamente pelo direito de tomar auspícios em Roma 
e fora de Roma ou somente em Roma. Note-se que auspicium era um prognóstico 
divino (aprovando ou desaprovando determinado ato público) tomado em um 
espaço quadrangular (templum) mediante a observação (spectio) de determinados 
sinais como o relâmpago, o vôo das aves, etc... A divindade consultada era 
principalmente Júpiter. 
c) Magistraturas patrícias e magistraturas plebéias. As primeiras, em princípio, 
estavam reservadas aos patrícios embora posteriormente ficassem ao alcance dos 
plebeus; as segundas só eram ocupadas pelos plebeus: Distinguia-se também entre 
magistraturas curuis e magistraturas não curuis segundo a faculdade de usar ou 
não a chamada sella curulis, cadeira curul, assento de pés recurvos e cruzados; os 
não curuis sentam em tamboretes de pés direitos (subsellium). 
d) Magistraturas cum imperio ou sine imperio. Esta distinção fundamenta-se no 
imperium de que estavam investidos os titulares das primeiras e que faltava aos 
titulares das segundas. Entre os que possuíam o imperium figuravam os consules, 
os pretores e os ditadores. 
As condições de elegibilidade (jus honorum) variaram de acordo com a época: cidadania, 
completa, serviço militar, idade mínima para cada magistratura, etc. 
Foi estabelecida através dos tempos uma ordem na seqüência dos cargos (certus ordo 
magistratum) a serem exercidos: é o chamado cursus honorum. A lex Villia annalis ou annaria 
de 180 a.C. estabeleceu a seqüência: questura, pretura e consulado. Entre o exercício de uma e 
outra destas magistraturas estabelecia-se o intervalo de dois anos. O acesso à questura deveria 
ser precedido de decem stipendia, isto é, de dez anos de serviço no exército. Entre a questura e 
a pretura introduziu-se mais tarde a edilidade ou o tribunato da plebe. Só podia ser censor ou 
ditador quem houvesse exercido o consulado. Permitia-se o acúmulo de uma magistratura 
ordinária com uma extraordinária. 
Passemos, agora, a um sumário exame de cada magistratura370. 
 
Magistrados cum imperio 
 
Os inícios do Consulado são obscuros e remontam à época de transição da monarquia 
para a república. 
Inicialmente são chamados praetores ou judices (juízes) e posteriormente consules. Em 
367 um dos cargos consulares é reservado aos plebeus. Eleitos pelos comícios centuriatos, os 
cônsules possuem vastas atribuições: convocam os comícios (jus agendi cum populo) e o 
senado (jus agendi cum patribus); comandam as tropas em tempo de guerra, etc., etc. 
As origens da Pretura são também obscuras. A tradição romana vincula às leis Licínias 
(367 a.C.) o aparecimento do pretor, collega minor dos cônsules. Exclusivamente patrícia no 
início, a pretura abriu-se mais tarde (337 a.C.) aos plebeus.