Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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O pretor foi um magistrado 
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essencialmente judiciário. O acúmulo de serviço levou à criação de um colega em 242, o 
Praetor peregrinus de que já falamos ao estudarmos o jus gentium. Voltaremos ao pretor no 
item sobre as fontes do Direito, quando focalizaremos a natureza do Edictum. 
Originariamente chamado magister populi e posteriormente dictator (porque dictat, isto 
é, dispõe sem consultar outro colega), o ditador foi um magistrado supremo de caráter 
extraordinário talvez desde os inícios da constituição republicana371. 
Designado por um ou por ambos os cônsules em caso de perigo externo (belli gerundi 
ou rei gerundae causa) ou interno (seditionis sedandae causa), o ditador exerce o mandato pelo 
período máximo de seis meses durante os quais está revestido de um imperium maius, isto é, de 
poderes mais amplos que os dos cônsules. O ditador escolhe um auxiliar, o magister equitum, 
que está também revestido de imperium. 
A intercessio tribunicia e a provocatio ad populum revelaram-se, em princípio, 
impotentes contra o poder ditatorial372. 
 
Magistrados sine imperio 
 
A tradição fixa a instituição da censura em 443 a.C. Estamos aqui diante de uma 
verdadeira magistratura moral373. 
Eleitos em número de dois pelos comícios centuriatos cada cinco anos, os censores 
exerciam seus poderes durante dezoito meses. 
\u201cOs censores careciam de imperium mas seu cargo era considerado, sob alguns aspectos, 
a dignidade mais elevada que um cidadão romano podia alcançar; assim é que somente os 
consulares, isto é, os que haviam sido cônsules, eram eleitos ordinariamente para o cargo 
(...)\u201d374. 
Entre as atribuições dos censores destacamos: 
1. O census: recenseamento qüinqüenal dos cidadãos, o qual tinha por fim reparti-los 
em centúrias e tribos segundo sua idade, sua fortuna, sua residência e sua condição; 
2. Regimen morum: no desempenho de suas atividades, o censor exercia um 
policiamento dos costumes podendo censurar os cidadãos cuja vida privada ou 
oficial revelasse áspectos reprováveis: a nota censoria podia privar o cidadão de 
seus direitos políticos (jus suffragium e jus honorum); 
3. A lectio senatus era a elaboração da lista dos senadores podendo ser excluídos os 
considerados indignos. 
 
Edilidade 
 
Os edis da plebe (aediles plebis) foram instituídos ao mesmo tempo que os tribunos da 
plebe (494 a.C.) dos quais foram auxiliares 375 . Segundo Piganiol os edis podem ter sido 
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originalmente os guardiões do templo (aedes) de Ceres ao sopé do Aventino376. Os edis curuis 
foram criados em 367 a.C. 
Entre as atribuições dos edis figuravam o abastecimento da cidade (cura annonae), o 
cuidado das vias públicas (cura viarum), dos edifícios e construções públicas (cura aedium). 
Cabia-lhes também a realização dos jogos públicos (cura lutorum), tarefa esta de grande 
influência na carreira política. 
 
Questura 
 
Os questores como auxiliares dos cônsules em suas funções administrativas da cidade 
foram criados em 447 a.C. em número de dois377. Entre as atribuições dos questores (cujo 
número aumentou) na época republicana podemos lembrar : guardar o tesouro conservado no 
templo de Saturno; acompanhar os cônsules em campanha, providenciando o pagamento das 
despesas e cuidando das presas de guerra. Fundamentalmente a órbita da atuação desses 
magistrados, quer em Roma, quer nas províncias, girava em torno da administração das finanças. 
 
Tribunato da plebe 
 
Os tribunos da plebe (tribuni plebis) aparecem, segundo a tradição, em 494 a. C. A 
princípio em número de dois, seu número elevou-se a dez em 457 a.C. Não eram magistrados 
propriamente ditos. Careciam de potestas (no mesmo sentido da potestas dos demais 
magistrados) e de imperium. 
A potestas tribunicia (poder tribunício) era potestas sacrosancta e \u201ctornou-se em Roma 
o poder mais elevado (exceto a antiga ditadura), pois não se inclinava diante de outro poder e 
todos os outros poderes se inclinavam diante dela\u201d378. 
Originariamente a missão dos tribunos foi a de proteger os plebeus em face da 
prepotência dos cônsules contra os interesses dos plebeus: auxilum latio adversus cônsules. 
Nas atribuições do tribuno da plebe podemos distinguir um poder negativo, a intercessio 
(veto aos atos dos demais magistrados inclusive tribunos) e um poder positivo, a summa 
coercendi potestas, isto é, o sumo poder de coerção através do qual o tribuno tutelava a própria 
inviolabilidade (os tribuni plebis haviam sido declarados sacrosancti, invioláveis à coercitio dos 
supremos magistrados da civitas) e o exercício da intercessio. A coercitio tribunícia 
manifestava-se por exemplo pela faculdade de ordenar a prisão (prensio) de um cidadão, impor-
lhe multas, etc. 
A potestas tribunicia encontrou limitações como: a intercessio de outro tribuno, o 
imperium militar exercido na cidade só em casos excepcionais e o limite da jurisdição urbana. 
Entre as prerrogativas dos tribunos da plebe figurava o jus agendi cum plebe, isto é, o 
direito de convocar a plebe e falar-lhe. 
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Através da história republicana o tribunato da plebe, instituído para defender os plebeus, 
sofreu transformações. Wolff (obra citada, p. 41) observa que \u201co caráter democrático do cargo 
quase desapareceu no final da República. O requisito de que deviam ser plebeus os que o 
desempenhavam converteu-se em mera formalidade. O tribunato degenerou em um cargo 
político solicitado pelos membros jovens da classe senatorial; incorporou-se ao cursus honorum 
(carreira política) depois da questura e, amiúde, mais que titulares de uma magistratura eram 
instrumentos de que se valia a aristocracia senatorial para a consecução de seus programas 
políticos mais reacionários\u201d. 
 
O Senado 
 
Estamos aqui em face do órgão-chave da constituição da República Romana. Bloch 
sublinha: \u201cA estabilidade das instituições e da política romana, que chega a extremos 
surpreendentes tratando-se de uma República, baseava-se no poder e no respeito do senado\u201d379. 
O número de trezentos· senadores atribuído pela tradição ao senado da Realeza indica 
também inicialmente a quantidade de componentes do órgão republicano. Note-se, entretanto, 
que o número de senadores variou posteriormente. Assim, por exemplo, sob Sila o senado foi 
integrado por seiscentos membros. 
A escolha dos senadores competia originariamente aos supremos magistrados da 
República. A partir do fim do século IV a.C. (entre 318 e 312) a lei Ovinia atribuiu aos censores 
a escolha dos senadores. Os antigos magistrados curuis tiveram a preferência nesta escolha e o 
senado passou a ser integrado quase exclusivamente por antigos magistrados curuis (cônsules, 
pretores, edis curuis). Quando os plebeus tiveram acesso ao senado estabeleceu-se uma 
distinção entre os senadores patrícios (Patres) e os de origem plebéia (conscripti). Note-se, 
contudo, que com o decurso do tempo esta distinção foi superada tendo-se ampliado a 
competência do senado patrício-plebeu380. 
O senado deve ser convocado por um dos magistrados que tem o jus agendi cum 
patribus como, por exemplo, o cônsul, o pretor, certos magistrados extraordinários e, mais tarde, 
os tribunos da plebe. 
As atribuições do senado republicano foram as mais variadas. Vejamos alguns exemplos: 
Interregnum - em caso de vacância da magistratura suprema o interrex, sobrevivência da 
monarquia, é escolhido entre os senadores patrícios. Os patres exercem por turno, durante 
cinco dias cada um, o interregnum até que um interrex (que não pode ser o primeiro 
designado) convoca e preside os comícios eleitorais para a creatio do cônsul. 
Auctoritas patrum - é uma ratificação das deliberações comiciais por parte dos patres 
\u201cexpressando assim a soberania do senado patrício que se reserva o direito de confirmar as 
deliberações legislativas tanto eleitorais como judiciais,