Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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levadas a cabo pelas assembléias 
populares\u201d381. A auctoritas patrum assegura à deliberação comicial uma eficácia plena 
(auctoritas vem de augere = aumentar). Esta instituição tornou-se mais tarde mera 
formalidade. 
Função legislativa - \u201csua função legislativa reveste caracteres amplíssimos. Realiza-a mediante 
as discussões e aprovações dos projetos de lei que o correspondente magistrado submete 
ao conhecimento e voto das assembléias e em certas ocasiões mediante a petição ao 
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magistrado, tomando a iniciativa, para que este apresente à assembléia o correspondente 
projeto de lei382. No final da época republicana o Senado se arroga o direito de declarar a 
inconstitucionalidade de certas leis bem como de dispensar a observância de certos 
preceitos legislativos 383 . No item sobre as Fontes do Direito focalizaremos o senatus 
consultum. 
Guardião dos cultos - o senado decide sobre a admissão de novos deuses, a proibição de cultos 
estrangeiros, etc. 
Atuação no campo militar - exerce a direção suprema da guerra e controla o imperium militae 
dos magistrados. Autoriza o recrutamento, licenciamento ou a permanência dos soldados 
nas fileiras, etc. 
Atuação financeira e administrativa - Fiscaliza o tesouro, autoriza as despesas, especialmente a 
guerra e obras públicas. Administra as terras públicas (ager publicus) que são importante 
fonte de renda. 
Política externa - abriu-se, anota Bloch, \u201co campo de mais brilhante atuação para o Senado\u201d384. 
Recebe embaixadas e envia seus legados ao exterior. Prepara e autoriza a conclusão de 
tratados. 
Concluamos esta incompleta visão do senado romano da República: \u201cAssim, pela 
variedade de suas competências, a continuidade de sua ação, a autoridade de seus membros, o 
senado desempenhou um papel essencial no estabelecimento do império de Roma sobre o 
mundo mediterrâneo. É ele que, com o povo mas antes dele (Senatus populusque romanus) 
encarna a cidade e a majestas senatus não é menor que a do povo.\u201d385 
 
Os Comícios 
 
Comícios curiatos 
 
Estas assembléias cuja origem remonta à Realeza, tornam-se no século III a.C. \u201cum 
simples simulacro e uma pura formalidade\u201d386. Os cidadãos (inicialmente os comícios curiatos 
eram integrados só por patrícios, posteriormente os plebeus lograram seu ingresso) não mais 
comparecem às reuniões fazendo-se representar por trinta litores. Entre suas atribuições figuram: 
1) votar a Lex curiata de imperio que confere o imperium aos magistrados superiores; 2) em 
matéria de direito privado aprovam o testamento comicial e autorizam a adrogatio (adoção de 
um paterfamilias por outro). 
 
Comicios centuriatos 
 
Os comícios centuriatos (comitia centuriata) constituem a assembléia por excelência 
(comitiatus marimus) da Constituição Republicana. A tradição atribui a Servius Tullius (578-
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535 a.C.) a criação da nova assembléia que desempenharia papel tão relevante na História 
Republicana, sofrendo no decurso do tempo profundas reformas. A organização primitiva da 
Assembléia centuriata bem como as datas que assinalam sua evolução estão sujeitas a dúvidas e 
debates entre os historiadores, o que se explica facilmente pela deficiência das fontes387. Sobre 
um ponto não pairam dúvidas: as origens militares dos comitia centuriata deixaram numerosas 
e acentuadas marcas na convocação, no local (Campo de Marte), na obrigação de o cidadão 
apresentar-se armado, na repartição dos cidadãos de acordo com a idade (aptidão para o 
combate), na presidência reservada a magistrados titulares do imperium, etc. 
Nas linhas seguintes limitar-nos-emos a uma sucinta exposição da estrutura e das 
atribuições dos comícios centuriatos, mencionando a reforma efetuada no século III a.C. (por 
volta de 241 a.C.). 
A assembléia estava repartida em cinco classes integradas quer por patrícios quer por 
plebeus, de acordo com a respectiva fortuna apurada no recenseamento (census). (Note-se que 
desde 312 a.C. a fortuna mobiliária foi equiparada a fortuna imobiliária que até então constituía 
a base da organização. Imóveis e móveis foram avaliados em dinheiro, asses)388. 
Eis as classes censitárias : 
Primeira classe: cidadãos possuidores de uma fortuna que: ultrapassasse os 125.000 asses. Esta 
classe compreendia 80 centúrias, sendo 40 de juniores (cidadãos de 17 a 45 anos) e 40 de 
seniores (cidadãos que haviam atingido a idade de 46 anos). Note-se que estes ficavam 
adstritos à defesa da cidade até os 66 anos. 
Segunda classe: cidadãos de 75.000 asses. 
Terceira classe: cidadãos de 50.000 asses. 
Quarta classe: cidadãos de 25.000 asses. 
Estas três últimas classes compreendem, cada uma, 20 centúrias (10 de juniores e 10 de 
seniores). 
Quinta classe: está integrada pelos cidadãos de 11.000 asses e se compõe de 30 centúrias. 
Devemos ainda acrescentar: 1) 18 centúrias de cavaleiros; 2) 5 centúrias acessórias, fora 
das classes. Observe-se, entretanto, a divergência com relação ao número dessas centúrias. 
A votação se fazia por cabeça dentro de cada centúria. A maioria dos sufrágios 
expressos dentro de cada centúria constitui o voto desta centúria. A opinião da Assembléia 
estava firmada quando 97 centúrias (a maioria dentre as 193) estavam de acordo. Bastava, para 
obter esse resultado, que as 18 centúrias de cavaleiros (prestavam serviço militar a cavalo, 
adquirido e mantido pelo Estado: equites equo publico) entrassem em acordo com as 80 
centúrias da primeira classe, para decidir a votação que se iniciava pelas centúrias eqüestres. 
Note-se que as centúrias de infantes não contavam necessariamente cem integrantes. O 
número era, na realidade variável para mais ou para menos de cem, \u201cInferior a cem nas 
centúrias de primeira classe, excedia a esse número e dele se distanciava progressivamente, à 
medida que se descia na escala da fortuna, nas demais classes\u201d389. Observe-se que os votos dos 
seniores equivaliam em número aos votos dos juniores, embora os primeiros certamente fossem 
menos numerosos que os segundos. 
\u201cPrivilégios de idade e de fortuna faziam dos Comícios centuriatos uma assembléia 
aristocrática e tradicionalista\u201d390. 
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No século III (por volta de 241 a.C.) opera-se uma reforma na assembléia 
centuriata. .Infelizmente as fontes não nos prestam informações seguras sobre a natureza dessa 
reforma, o que explica as divergências existentes entre os historiadores391. 
Segundo Gaudemet o único dado certo sobre a reforma foi a perda da prerrogativa de 
votar em primeiro lugar por parte dos cavaleiros 392 . \u201cA eleição não começava mais pelas 
centúrias eqüestres, mas por uma das centúrias da primeira classe, tirada a sorte para votar em 
primeiro lugar e que se chamava centuria praerogativa.\u201d.393
Entre as atribuições dos comícios centuriatos podemos lembrar: 
1. Eleger os magistrados superiores : censores, cônsules, pretores, tribunos militares com 
poder consular (tribuni militum consulari potestate, substitutos, de maneira intermitente, 
dos cônsules entre 444 a.C. e 367 a.C.). Gaudemet (obra citada, p.168) observa que só 
tardiamente, em parte por influência de doutrinas políticas gregas,\u201do magistrado 
aparecerá como uma criação da assembléia\u201d. Segundo a concepção republicana antiga a 
assembléia apenas confirmaria a creatio feita pelo magistrado anterior. 
2. Votar as leis sob o controle rigoroso dos magistrados. 
3. Possuíam uma jurisdição em matéria penal. 
4. Intervinham em grau de recurso (provocatio ad populum) interposto contra sentença 
que condenasse à pena capital. 
 
Comícios tributos 
 
Os comícios tributos originaram-se, provavelmente, dos antigos concilia plebis 
(assembléias compostas exclusivamente de plebeus). 
A criação de circunscrições territoriais urbanas denominadas tribos, ainda na Realeza, 
constituiu, observa Homo \u201cuma inovação duplamente interessante: aplicava-se ao mesmo tempo