Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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cada um desses periodos, convém lembrar 
alguns textos referentes às fontes do Direito. 
Gaio (1.2): \u201cConstant autem jura populi romani ex leugizbus, plebiscitis, 
senatusconsultis, constitutionibus principum, edictis eorum qui jus edicendi habent, responsis 
prudentium\u201d = \u201cOs direitos do povo romano constam de leis plebiscitos, senatusconsultos, 
constituições imperiais, editos dos que têm o direito de expedi-los, respostas dos 
jurisconsultos.\u201d 
Justiniano (Inst.1. 2. 3) : Scriptum jus est lex, plebiscita, senatusconsulta, principum 
placita, magistratuum edicta, responsa prudentium = \u201cO direito escrito é a lei, os plebiscitos, os 
senatusconsultos, as constituições imperiais, os editos dos magistrados, as respostas dos 
jurisconsultos.\u201d 
Papiniano (D.1.1.7): Jus autem civile est, quod ex legibus, plebiscitis, senatusconsultis, 
decretis principum, auctoritate prudentium venit. Jus praetorium est, quod praetores 
introduxerunt. . . .-. \u201cDireito Civil é aquele que vem das leis, dos plebiscitos, dos senatus 
consultos, dos decretos dos príncipes, da autoridade dos jurisconsultos. O direito pretoriano é 
aquele que os pretores introduziram...\u201d 
Pompônio (D. 1.2.2.12): Ita in civitate nostra aut jure id est lege constituitur, aut est 
praprium jus civile, quod sine scripto in sola prudentium interpretatione consistit, aut sunt legis 
actiones, quae formam agendi continent aut plebiscitum, quod sine auctoritate patrum est 
constitutum, aut est magistratuum edictum, unde jus honararium nascitur, aut senatusconsultum, 
quod solum senatu constituente irducitur sine lege, aut est principalis constitutio, id est, ut quod 
ipse princeps constituit pro lege servetur = \u201cAssim em nossa cidade estão constituídas (as 
seguintes fontes): o direito, isto é, a lei, o direito civil propriamente dito, que, sem estar escrito, 
consiste só na interpretação dos jurisconsultos, as ações da lei, que contém a forma de demandar, 
o plebiscito, que se fez sem a autoridade dos patrícios, o edito dos magistrados, donde nasce o 
direito honorário, senatusconsulto, que se introduz sem lei, somente pela deliberação do senado, 
e a constituição do príncipe, isto é. o que o próprio príncipe determina que seja observado como 
lei. 
 
 
 
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ORIGENS 
Costume 
 
Na Realeza a principal fonte do Direito foi o costume dos antepassados (mos maiorum, 
jus non scriptum), \u201cnormas consuetudinárias transmitidas de geração em geração, não 
desligadas de todo da norma religiosa (fas) e completadas, quanto ao Direito público, pelos 
tratados (foedem) intergentilícios que estruturaram a cidade\u201d432. 
Pomponius, jurisconsulto contemporâneo de Adriano e de Antonino Pio, informa-nos 
em um fragmento conservado no Digesto (1.2.2.1) que, em suas origens, o povo romano era 
governado pelos reis, sem lei certa e sem jurisprudência certa (sine lege certa, sine jure certo). 
Ainda Pomponius (D. 1.2.2.2) menciona a existência de leis votadas pelos comícios 
curiatos e colecionadas em um livro por um certo Sextus Papirius, importante personagem 
contemporâneo de Tarquínio, o Soberbo. O livro, diz ainda Pomponius, \u201cchama-se jus civile 
papirianum, não porque Papírio tenha acrescentado algo, mas porque deu unidade às leis 
promulgadas sem ordem\u201d. (Liber... appellatur jus civile Papirianum, non quia Papirius de suo 
quicquam ibi adiecit, sed quod leges sine ordine latas in unum composuit.) Autores antigos 
como Dionísio de Halicarnasso (séc. I a.C ), Cícero (106-43), Tito Lívio (59 a.C.-17 p.C. ) e 
Plutarco (46-120) mencionam as leis régias. Estas leis são atribuídas principalmente a Rômulo, 
o fundador, e a Numa, o rei legislador. Seu conteúdo diz respeito ao ritual dos sacrifícios, a 
matéria de direito privado e de direito penal. As sanções são, em geral, religiosas433. 
Sobre as leis régias Gaudemet anota434: 
1. Não existiam verdadeiras leis votadas pela assembléia na época real. 
2. Não se pode tratar de leis escritas porque a escrita na época real era excepcional e 
porque no início da república os plebeus reclamaram no sentido de que o direito fosse 
redigido. \u201cAs \u2018leis régias\u2019 não são leis nem mesmo regras jurídicas escritas\u201d435. Seriam, 
antes, \u201cexpressão de antigos costumes, colocados pela tradição sob o patrocínio dos 
lendários reis de Roma\u201d436. 
Arias Ramos observa que \u201ca atividade legislativa dos comícios curiatos no tempo dos 
reis era uma dessas antecipações de que tanto usa a historiografia romana em seu afã de dar 
antigüidade a suas instituições políticas\u201d437. 
Quanto ao jus civile papirianum, a primeira notícia segura de sua existência é um 
comentário feito por Grânio Flaco, contemporâneo de Júlio César438. Autores como Cícero e 
Varrão, que citam freqüentemente as leis régias, não fazem menção alguma ao jus Papirianum, 
ao menos nas obras que conhecemos. Com base neste silêncio Mommsem e Girard crêem que 
se trata de uma compilação apócrifa da época de César ou de Augusto. Outros autores, 
entretanto, consideram possível que a compilação tenha sido efetivada em fins do século III ou 
do século II a.C.439
 
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ANTIGO DIREITO 
Lei das XII Tábuas440
No período do Antigo Direito a primeira fonte a ser mencionada é a Lei das XII Tábuas, 
a mais importante das leis republicanas. No presente item faremos um rápido estudo sobre este 
notável documento que Tito Lívio (3, 34, 6) considerou fons ommis publici privatique juris 
(fonte de todo o direito público e privado), e a seguir enumeraremos as principais leis 
subseqüentes. No item seguinte, ao abordarmos as fontes no período clássico, exporemos uma 
breve noção de lei. 
Segundo a tradição histórica, os plebeus, insatisfeitos com a interpretação dos costumes 
pelos pontífices, escolhidos entre os patrícios, e desejosos de verem escritos e divulgados esses 
mesmos costumes, teriam pleiteado (462 a.C.), por intermédio do tribuno da plebe Terentilius 
Arsa, a nomeação de uma comissão para efetuar a almejada redação. Depois de vários anos, em 
451, a assembléia centuriata teria designado uma comissão de dez membros incumbidos de 
redigir as leis (decemviri legibus scribundis). Observe-se que, ainda segundo a tradição, antes 
da eleição dos decênviros, teria sido enviada uma missão à Grécia para estudar as leis helênicas, 
especialmente as de Solon. 
Em 450 ou 451 teriam sido redigidas as dez Tábuas da Lei. A codificação foi 
completada no ano seguinte (450 ou 449) com a redação de mais duas tábuas, formando se 
assim a Lex duodecim Tabularum (Lei das XII Tábuas) conhecida também como Lex 
decenviralis (Lei decenviral) ou apenas Lex. 
Entre os que contestaram a tradição relativa à Lei das XII Tábuas, defendendo teses que 
Gaudemet chama de hipercríticas, figuram Ettore Pais (historiador italiano) e Edouard Lambert 
(professor da Faculdade de Lyon). \u201cSegundo Pais, as XII Tábuas não representam uma obra 
legislativa feita de um jacto, no meado do século V a.C. mas uma compilação constituída por 
leis votadas em datas diversas, no curso do século IV e publicada com o nome de Jus 
Flavianum, nos fins desse século, por Cneus Flávio, amanuense do censor Ápio Cláudio. A tese 
de Lambert é mais audaz e demolidora: a lei decenviral é apenas uma coleção de brocardos 
jurídicos, feita para servir às necessidades práticas, nos fins do século III pelo jurista romano 
Sexto Élio Peto Cato. Tanto o historiador italiano como o jurista francês deslocam do meado do 
século V para uma época posterior (fins do século IV, conforme o primeiro, fins do século III, 
conforme o segundo), a confecção do código decenviral.\u201d441 
Entre os que fizeram um estudo critico das teses de Pais e Lambert figura P. F. Girard 
que demonstrou, \u201cpor razões ao mesmo tempo jurídicas, históricas e filológicas, que não se 
podia rejeitar toda a antiga tradição\u201d442. 
Gaudemet lembra que três elementos atestam o caráter arcaico das XII Tábuas : a 
tradição romana,