Iniciação ao Direito Romano  - MARIO CURTIS GIORDANI
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Iniciação ao Direito Romano - MARIO CURTIS GIORDANI


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caráter filosófico inspirada na de 
Demóstenes455. Lex est commune praeceptum, virorum prudentium consultum, delictorum quae 
sponte vel ignorantia contrahuntur coercitio, communis rei· publicae sponsio. \u201cA lei é um 
preceito comum, a deliberação de homens prudentes, repressão dos delitos que se cometem 
voluntariamente ou por ignorância, garantia comum da república.\u201d Temos aqui a lei apresentada 
como uma espécie de pacto que vincula os cidadãos e assegura a ordem e o poder do estado. 
Para Justiniano (1.2.4), calcado em Gaio, a lei se define: Lex est quod populus romanus, 
senatorio magistratu interrogante veluti consule, constituebat: A lei é o que o povo romano, por 
proposta de um magistrado senatorial, como por exemplo o cônsul, constituía. Esta definição 
distingue a lei do plebiscito cuja definição já reproduzimos anteriormente. 
Os romanos distinguiam duas espécies de leges publicae (leis públicas, isto é, 
provenientes das autoridades públicas que formulam regras obrigatórias de caráter geral): leges 
datae e leges rogatae. As primeiras emanam dos magistrados que atuam em virtude de uma 
delegação do povo ou do senado. As leges datae mais numerosas consistem em estatutos 
provinciais ou municipais visando a organização de territórios conquistados. Leges rogatae são 
as leis votadas pelos cidadãos nos comícios. Após a equiparação dos plebiscito à lex, a 
denominação de leges rogatae abrange também os plebiscitos. 
Na elaboração da lei cooperavam a magistratura, o senado e o comício: a lei é uma 
publica pactio: um público acordo entre os vários elementos constitucionais da República. 
Nenhuma lei podia ser proposta a não ser por um magistrado (os membros da assembléia não 
tinham o poder de apresentar uma proposta legislativa. Quando o plebiscito foi equiparado à lei, 
a iniciativa legislativa passou, de fato, para os tribunos da plebe456. 
O projeto de lei era afixado (promulgatio) para que os cidadãos o discutissem com o 
magistrado em reuniões não oficiais (contiones). 
A proposta do magistrado chamava-se rogatio. Aos participantes do comício 
distribuíam-se duas pequenas tábuas, uma com a letra A (inicial do verbo antiquo = rejeito) e 
outra com as letras U.R. (uti rogas = como pedes). O votante depositava a tábua de sua 
preferência na urna (cistula) limitando-se a aprovar ou rejeitar integralmente os projetos de lei 
ou ainda a abster-se (non liquet), Compreende-se que esse processo de votação propiciava 
abusos por parte do proponente que podia enxertar em propostas, disposições heterogêneas. As 
leis assim enxertadas chamavam-se leges saturae e foram posteriormente proibidas457. 
A lei aprovada pelos comícios necessitava da ratificação do senado: auctoritas patrum. 
\u201cA partir da lei Publilia a auctoritas do senado passou a ser dada por antecipação, qualquer que 
fosse o resultado da votação comicial (incertus eventus) ; tornou-se assim mera formalidade e 
com esse caráter subsistiu enquanto subsistiram os próprios comícios\u201d458. 
A lei votada pelo comício (lex rogata) constava, além do index (que continha o nome 
gentilício do magistrado proponente e a sucinta indicação do conteúdo da lei: Lex Aquilia de 
damno), de três partes: 
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Praescriptio: continha o nome e o título do magistrado proponente, a data e o local da 
votação, a indicação da cúria, centúria ou tribo que votava em primeiro lugar bem como o nome 
do cidadão chamado a iniciar a votação. 
Eis, a título de exemplo, a praescriptio da Lex Quinctia de aquaeductibus do ano 9 a.C. 
T. Quinctius Crispinus consul populum jure rogavit populusque jure scivit in foro pro 
rostris aedis divi Julü pridie K. Julias. Tribus Sergia principium fuit, pro tribu S. Sex... L. f. 
Virro primus scivit. 
T. Quíncio Crispim cônsul propôs legalmente ao povo e o povo legalmente votou no 
foro ante a tribuna do templo do divo Júlio no dia anterior às Kalendas de Júlio. Foi a primeira a 
tribo Sérgia e pela tribo S. Sex. Virro, filho de Lúcio, votou primeiro. 
Rogatio: era o próprio texto da lei apresentado pelo magistrado e aprovado pela 
assembléia. Se fosse muito extenso, o texto era dividido em capítulos. 
Sanctio: indicava as medidas a serem tomadas em caso de transgressão da lei459. 
As leis comiciais entravam em vigor a partir do momento em que o magistrado 
proclamava sua aprovação (renuntiatio) e independentemente do ato de publicação. Os textos 
das leis eram gravados em bronze ou pedra e expostos ao público. A expansão do domínio 
romano tornou necessário afixar as leis votadas na capital, nas regiões do interior. Assim é que 
grande parte das leis romanas conhecidas através da epigrafia provém da Itália ou das 
províncias. 
Um texto de Ulpiano (Lider singularis regulurum) distingue entre leis perfeitas, 
imperfeitas e menos que perfeitas (Leges aut perfectae sunt, aut imperfectne, aut minus quam 
perfectae). 
Perfectae são aquelas que impunham a nulidade do ato praticado contra o dispositivo 
legal. Assim, por exemplo, a Lex Vocania (169 a.C.) declarava nulos os legados superiores à 
parte destinada ao herdeiro testamentário. A Lex Aelia Sentia (3 P. C. ) anulava as manumissões 
feitas pelo devedor em fraude do credor. 
Minus quam perfectae são as que não estabelecem a nulidade do ato contrário mas 
impõem uma pena ao transgressor. Assim, por exemplo, a Lex Furia testamentaria (204-169 
a.C.), que vedava, com certas exceções, o legado excedente de mil asses, não anulava o legado 
assim concedido mas obrigava o legatário a restituir ao herdeiro o excesso em quádruplo. 
As Imperfectae não são sancionadas nem pela nulidade nem por uma pena. Assim, por 
exemplo, a Lex Cincia de donationibus (204 a.C.) que proibia qualquer espécie de doação 
superior a determinada quantia (que ignoramos), excetuando-se dessa proibição determinadas 
pessoas. A lei não impunha nulidade nem pena. \u201cDisso resultava que nessa hipótese o 
magistrado não podia prestar o seu concurso para fazer cumprir a lei. Assim é que, se a doação 
excessiva havia sido prometida mas ainda não estava realizada, o donatário não podia exigir o 
cumprimento dela, porque a lei a proibia; por outro lado, se a doação tivesse sido efetuada, não 
podia o doador reaver a coisa doada, porque a lei não estabelecia a nulidade do ato\u201d460. 
O imperador Teodósio II (439) estabeleceu que a sanção de nulidade se contém 
implicitamente em toda lei proibitiva. 
As leis comiciais não tinham valor territorial mas pessoal: aplicavam-se somente aos 
cidadãos romanos em qualquer lugar em que se encontrassem461. 
Quanto à lei no tempo, deve-se observar que na legislação republicana não havia regra 
geral estabelecendo o princípio da irretroatividade em direito civil. \u201cAtesta, todavia, Cícero que 
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as leis civis continham normalmente uma cláusula de estilo vedando-lhes o efeito retroativo: em 
virtude dessa cláusula, a lei nova respeitava os atos praticados de acordo com a lei antiga\u201d462. 
A lei Falcidia ( 44 a. C. ), que proibia os legados excedentes de três quartos da herança, 
afastou expressamente a hipótese da retroatividade ao estabelecer a cláusula : post hanc legem 
rogatam (D. 35.2.1) \u201cA repetição dessa cláusula em diversas leis denota que não havia um 
princípio geral vedando o efeito retroativo da lei; aliás, não seria necessária a repetição\u201d463. 
Os juristas clássicos, quanto se sabe através dos textos, não formularam o princípio da 
irretroatividade da lei. No período pós-clássico aparece numa constituição (codex theodosianus, 
1.1.3) de Teodósio I (393) o princípio geral segundo o qual as leis não prejudicam os fatos 
passados e estabelecem regras apenas para os fatos futuros: omnia constituta non praeteritis 
calumniam faciunt, sed futuris regu1am ponunt464. 
Em diversas constituições de Justiniano afirma-se expressamente a irretroatividade. 
Quando, entretanto, a lei retroagir, não pode prejudicar a coisa julgada