a paranoia
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a paranoia


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póde
tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as
allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um
d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica
apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo
fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,
sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado
agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e
systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as
differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de
variadas, são visinhas»[1].
 [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
122.
A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos
acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica
sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde
Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas
sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma
analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre
todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,
direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem
distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com
allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,
que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém
tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento
depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,
de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o
stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente
distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as
caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o
stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á
variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma
e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do
delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas
psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
sonho)»[1].
 [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.
Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da
Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos
interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de
termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por
exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em
vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a
obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,
póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de
_systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de
_incoherencia_.
Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi
vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente
separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de
que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e
que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a
Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição
e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,
acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução
irregular e marchando tantas vezes para a cura?
A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,
vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em
mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.
Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão
fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela
terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque
precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que
uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para
não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente
contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que
a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em
que os motivos differenciaes se esbatem.
Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos
prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.
Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou
esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os
depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como
complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e
allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,
segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha
gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples
_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
funccionaes e organicas.
Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as
degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.
Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;
a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou
passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
á Paranoia é, pois, impossivel.
Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um
esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da
marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam
o principal papel, subordinando a si o estado