a paranoia
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a paranoia


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emotivo e as idéas falsas.
A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer
que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da
personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações
fundamentaes do humor.
Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações
medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão
mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
d'este delirio.
 [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.
Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob
o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora
symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
maniacos, agudos e sobreagudos.
 [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.
As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,
puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros
ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A
marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela
morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo
raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à
demencia, termo natural das psychopatias que não curam.
Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação
representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer
idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos
confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,
desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo
se conspira para as separar.
Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,
exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
_Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura
possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos
da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou
_transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_
de duas psychoses distinctas n'um unico doente.
Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
historia dos trabalhos germanicos.
Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi
perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de
Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para
a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação
mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
incompleta_.
E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e
o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já
senão residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas,
taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximação pathogenica ou
nosologica era, com effeito, possivel.
Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do
momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma
aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á
Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da
melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da
Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.
 * * * * *
Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor
intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu
logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.
A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii
sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela
clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então
quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do
mallogrado escriptor italiano.
Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do
desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,
escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos
definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o
desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se
tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da
vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com
Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,
apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
comquanto capaz de remissões.
 [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
vol. VII.
O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde
logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
originalidade imprevistas.
Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como
o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos
sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas
são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.
O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como
vae vêr-se, dos mais originaes.