a paranoia
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a paranoia


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caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com
paixão excitante».
A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a
estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia
igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz
elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas
oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a
idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e
mesmo o desespero»[1].
 [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.
 165.
Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de
Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre
outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a
monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á
melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio
parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,
não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o
symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.
Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o
extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás
psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
perigosa.
No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario
da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é
confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e
de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
mesmo que a melancolia dos antigos--uma affecção parcial do
entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra
_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções
procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
classificação.
De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do
caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,
Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.
Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas
as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa
invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer
delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o
intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde
acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve
exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O
delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a
verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem
redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as
outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e
preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.
 [1] Falret, _Des maladies mentales_
 [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_
«Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas
que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,
se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu
lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias
pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só
ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
grupo distincto.»[2]
 [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.
 [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.
Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.
A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos
antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos
conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
um delirio parcial e fixo.
Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_
descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado
do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os
delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma
variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as
manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.
II--PHASE ANALYTICA
De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de
perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação
pathogenica.
Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie
pathologica entre as alienações mentaes».
No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio
symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
_delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira
vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e
essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
evolução caracteristica.
Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe
dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
victima de hostilidades cuja origem não