a paranoia
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a paranoia


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como adiante veremos, de poder
acceitar-se sem restricções.
II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA
Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de
marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação
pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram
englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,
pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit
chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de
Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
defendem a Verrücktheit aguda.
Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da
consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou
depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella
activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.
Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal
associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a
imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.
Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é
identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção
preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um
erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são
infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por
exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os
delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão
para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as
de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são
os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a
sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.
Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação
de Verrücktheit aguda.
Comecemos pelos delirios systematicos.
A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para
designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre
os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se
denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão
longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje
não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que
o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger até
Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,
um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão
principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade
aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um
papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?
Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os
argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o
hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;
examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a
opinião contraria.
Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,
ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.
A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações
notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o
Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
é um facto importante e que deve registar-se, porque essas
differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à
etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,
enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as
allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o
delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á
etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa
exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente
chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como
um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença
accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,
predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,
dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que
provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o
automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,
por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que
na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a
apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora
igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das
idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas
allucinações emergentes de todos os sentidos.
Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao
mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases
agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu
vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.
Examinemos o valor d'estes argumentos.
Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado
episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação
muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.
Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo
parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas