a paranoia
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a paranoia


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coexistindo com ella a
titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem
Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás
causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim
pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.
 [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.
Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já
aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de
perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o
passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,
phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de
procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só
e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo
na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,
irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de
pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de
grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova
religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas
eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas
hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,
beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,
rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,
indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão
da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.
Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta
impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha
buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que
podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente
duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da
doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,
succedendo a excessos venereos e alcoolicos.
Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit
aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que
a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.
Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado
de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,
appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.
Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico
de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,
nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
reacção em face dos erros sensoriaes.
Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de
espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se
diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela
acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de
reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos
averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os
de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido
para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de
uma obscura variedade aguda.
Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo
secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não
necessaria expressão symptomatica d'aquella.
Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por
algum tempo a sua costumada systematisação--eis o que nos não preoccupa
excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição
mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até
existir independente d'elles.
É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em
defeza da Verrücktheit aguda.
Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece
algumas vezes uma phase inicial aguda.
Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á
verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a
observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação
positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia
negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam
ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve
encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na
sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
verdadeiro _delirio parcial_.
Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle
baseia