a paranoia
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a paranoia


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o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles
podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,
na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
qual uma etiologia privativa e uma evolução especial--nascendo o
primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?
No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como
outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,
abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico
da eclosão de um delirio systematisado.
Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos
equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo
nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.
Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,
acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,
manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.
Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a
resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se
perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um
unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade
das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das
allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,
pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de
_polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a
designação de Verrücktheit aguda.
Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,
todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha
por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que
ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
portanto, inevitavel.
Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na
Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.
Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição
mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina
que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e
incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,
porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles
não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e
curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.
III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA
Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação
introduzida--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos
agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre
elle.
Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
_Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta
outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,
que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que
succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente
um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença
constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas
estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma
inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é
indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez
surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente
demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são
tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os
paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
classificações?
A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os
precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento
emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de
caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que
nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em
manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da
psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a
forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de
certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a
Verrücktheit secundaria deve ser admittida.
Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que
divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de
fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.
Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição
vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo
até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo
indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,
contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a
meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,
imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a
que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,
pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a
maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia
caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em
acceitar uma _Verrücktheit secundaria_,