a paranoia
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a paranoia


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como não hesitei em admittir uma
_Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
_chronicidade_ essenciaes da Paranoia.
IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS
Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
psychiatria franceza--A autoobservação e o raciocinio não representam um
papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.
Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
soffridas.
Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.
Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
perseguições a que primeiro se applicou.
Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.
A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
ella é radicalmente falsa.
Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
candidato á loucura,
Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
physica da degenerescencia.
Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
A experiencia diz precisamente o contrario.
Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
immediata d'este.
O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
_primitivamente_.
A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue;