a paranoia
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a paranoia


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das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
loucura parcial ... Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].
 [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
 [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
contrario, seria sempre um allucinado-delirante.
Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.
Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
delirio e se impõe como realidade ... Muito outra é a allucinação no
Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
persistentes allucinações»[1].
 [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.
Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
novas.
Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?
É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
allucinatorios.
De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
alguma coisa de tormentoso e incoherente.
Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
primitividade das allucinações nos deirios systematisados.
Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.
Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no
delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
parecido com um desarranjo palpavel