a paranoia
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a paranoia


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de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a
sciencia.
Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si
proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas
differentes.
Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida
ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e
conceptuaes, é conforme á verdade clinica.
VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.
A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na
exhibição do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica
das obsessões; sua inexactidão--Idéas do auctor; inesperada confirmação
d'ellas por J. Séglas--A obsessão é um delirio systematico abortado;
este é uma obsessão progressiva--Demonstração; analyse dos factos--Como
se fórma o Eu; estratificações systematisadas--A personalidade e as
subpersonalidades; o atavismo.
Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem
um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem
reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de
obsessões.
Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,
esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas
tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.
Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não
lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados
mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação
simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu
delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na
exhibição dos seus conceitos falsos.
O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em
realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente
empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que
surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo
da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.
Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no
fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma
defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua
inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do
inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que
obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação
apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.
Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na
exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de
interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda
remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem
difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o
resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,
como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso
e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê
surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não
critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura
evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas
habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,
cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.
Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e
ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,
pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que
provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em
vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas
interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
systema das suas convicções religiosas.
Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de
subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,
n'uma palavra, de não formarem systema?
A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.
Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um
estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a
sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.
Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo
de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se
impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia
dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um
syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões
são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de
allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,
embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam
_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração
official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da
assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.
Será, porém, rigorosamente assim?
Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade
nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.
Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa
obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a
sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisações_
que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,
entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no