a paranoia
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a paranoia


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acto reflexo;
clara ao principio, ella obscureceu-se um instante--aquelle precisamente
em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e
impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
creado pela idéa imposta.
Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o
mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas
e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão;
tudo o mais é secundario e derivado.
Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um
criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na
designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de
um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso
morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão.
Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e
logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as
nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado
de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da
_réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que,
a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não
sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e
não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é
obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações.
Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
obsessão:--aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá
essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter
_intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações
pathologicas, o que equivale a dizer--pela constituição de um delirio?
Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa
obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia
das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.
Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações
normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas,
tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por
fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um
dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes
inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera
consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o
delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu,
que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á
personalidade normal vencida uma outra vencedora.
Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução
permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a
personalidade humana encontra-se successivamente representada por
systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por
associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do
mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova
systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação
dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada,
dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras
systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente
satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da
hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma
palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.
As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as
mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em
grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo,
quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de
gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica
de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo
sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada.
Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais
recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas
para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_,
que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do
meio, capitalisada pela herança.
N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados
apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um
Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do
outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção,
uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
emfim, _à quoi s'en tenir_.
Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é
o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia
obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a
insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos
habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios.
VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA
Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas
de degenerescencia; opiniões diversas--A degenerescencia e a observação
clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing--Necessidade de
um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definição de
Morel; o seu defeito essencial--A noção do atavismo em psychiatria; as
idéas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e
Riva; documentos justificativos--A Paranoia é uma degenerescencia.
Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre
as suas origens.
Que psychopatas abrange a degenerescencia?
Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados
aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema
decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções
psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
superioridades de intendimento.
O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte,