a paranoia
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a paranoia


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A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de
conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas
condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos
elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos
ou não o são nunca.
Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas
degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
_raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos
constituiriam degenerescencias, segundo Morel.
Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós,
reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.
Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou
attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de
ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como
transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel,
reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico
normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A
monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
infelizes condições geradoras.
Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho
elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a
unica legitima.
É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser
procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no
terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem
primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções
de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é
um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na
sua evolução, procura incessantemente approximar-se.
Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da
nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje.
Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que,
intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a
scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção,
procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente
constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
anthropologico do termo.
Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.
Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia,
porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo,
total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
que definimos.
Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da
vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se
considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado
irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.
Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na
descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
_hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a
regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a
hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é
dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das
degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de
considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
proximos.
Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um
typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um
_doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que
o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um
duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e
incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados
superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal
que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan
incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?
E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu
_terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
parcial?
Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um
final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que
o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso
thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a
Paranoia é uma degenerescencia.
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MAUDSLEY--_Pathlogy of Mind_;
SPITZKA--_A Manual of Insanity_.
INDICE
PREFACIO
PRIMEIRA PARTE
HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS
I--PHASE INICIAL