a paranoia
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a paranoia


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ser pedida, não a condições privativas do
delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.
Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo
espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou
commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza
clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á
personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o
abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros
individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos
factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,
um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção
delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.
Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel
professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção
clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas
medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.
Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,
essa unidade do delirio de perseguições.
Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia--tudo n'elles é
differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas
no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos
passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por
erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na
marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração
de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com
razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os
representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose
senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:
na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em
erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou
passivos, mas a dos degenerados hereditarios.
A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de
perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,
acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.
Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no
diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem
desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições
ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual
desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes
passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma
palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
hereditarios»[1].
 [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3
A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:
«Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação
superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na
direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não
demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de
interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do
mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].
 [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.
Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha
periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma
evolução progressiva ... Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,
mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de
grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].
 [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.
A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se
attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos
a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].
 [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.
Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,
chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não
é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas
que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo
pôr em duvida.
Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores
hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
seguido, hostilisam o medico assistente.
As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os
perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de
loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças
mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo
apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a
titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.
De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o
delirio dos perseguidos-perseguidores.