Metageografia nas RI
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Metageografia nas RI


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reflete as atividades humanas, até que, como diz MARTINS (2007:38), obtemos determinadas representações, \u201cem pensamento, da realidade objetiva que nos cerca. Trata-se de um processo de subjetivação que percorre procedimentos metodológicos. Uma representação subjetiva estabelecida mediante uma sistematização lógica, expressa em uma ou mais linguagens.\u201d
Aí entra o conceito de metageografia: uma representação do espaço mundial essencialmente subjetiva. Consideramos esse termo como análogo à meta-história que propõe Hayden WHITE (1995). O sentido que WHITE dá à meta-história é o sentido reflexivo de um \u201cestudo referente à história enquanto historiografia; por exemplo, o estudo da linguagem, ou linguagens, da historiografia.\u201d\ufffd O termo surgiu como uma crítica pós-moderna à historiografia. Consideramos metageografia, por sua vez, as discursividades geográficas, a produção de concepções do espaço mundial.
Uma obra importante para nós, neste contexto, é The myth of continents: a critique of metageography de Martin W. LEWIS e Kären E. WIGEN (1997). Segundo eles (1997:ix), a metageografia é
o imaginário de estruturas espaciais mediante o qual as pessoas constroem seu conhecimento do mundo: as estruturas, os sistemas aplicados muitas vezes inconscientes que organizam os estudos de história, sociologia, antropologia, economia, ciência política, ou, ainda mais, história natural.\ufffd
Em outras palavras, consideramos metageográficas as estruturas, os padrões ou os modelos do espaço mundial que pretendem facilitar o entendimento deste espaço, mas que em si mesmos não são absolutos ou universalmente válidos, e podem ser cientificamente questionáveis.
Esses modelos não necessariamente estão desenvolvidos por geógrafos, mas podem ser elaborados por qualquer entidade, pessoa ou instituição. LEWIS e WIGEN mencionam como exemplos de concepções metageográficas, os \u201ccontinentes\u201d, o \u201cEstado-nação\u201d, a \u201cdivisão Leste-Oeste\u201d e a \u201cdivisão Norte-Sul\u201d do mundo (1997:1), conceitos que, segundo eles, devem ser examinados a fundo.
LEWIS e WIGEN polarizam sobre essas idéias geográficas hipostasiadas do senso comum. O que é um \u201ccontinente\u201d? Existem \u201cEstados-nações\u201d? A \u201cdivisão Norte-Sul\u201d não é uma simples construção ideológica, tanto como a \u201cdivisão Leste-Oeste\u201d? A forma de nosso planeta e a complexidade na sua superfície não proíbem simplificações tão grosseiras?
Mas os autores reconhecem ser impossível estudar a humanidade sem se servir de metageografias (1997:15). Observa-se que
não existem, propriamente, concepções erradas de espaço ... pois ... elas são coerentes com o que se quer ver sobre o mundo. Se existe algo de \u201cerrado\u201d, esse limite está sim na qualidade da compreensão que temos do mundo. Visões ahistóricas, carregadas de conteúdos ideológicos, situações desse tipo, cada uma delas é sustentada com uma perspectiva equivalente de espaço ... Uma situação perfeita para ilustrarmos o que por último aqui afirmamos, é o caso da geopolítica, nas suas formulações clássicas de \u201cdestino manifesto\u201d e coisas dessa natureza. (MARTINS 2007:37)
Ressaltamos que essa problemática foi estudada implicitamente por vários autores, como: Benedict ANDERSON (1993), para quem a \u201cnação\u201d tem, de fato, um caráter metageográfico; Walter Mignolo, o qual desenvolveu pesquisas em torno da \u201cconstrução\u201d da \u201cAmérica Latina\u201d (LEWIS e WIGEN 1997:25); e Edward SAID (2001), que escreveu sobre o \u201cOriente\u201d considerado como unidade imaginada - para citar só alguns da extensa bibliografia da obra de LEWIS e WIGEN.
Os paradigmas das relações internacionais como metageografias
Retomamos a idéia de LEWIS e WIGEN de que toda consideração global de assuntos humanos implementa uma metageografia, seja admitida ou não.\ufffd Os paradigmas de relações internacionais, segundo nossa opinião, correspondem a tais considerações globais. Para facilitar, utilizamos a classificação de BEDIN et al. (2000:10), segundo quais os paradigmas mais importantes são o idealismo, o realismo, a dependência, e a interdependência; admitimos que existem classificações alternativas dos quadros teóricos gerais.\ufffd
Observamos que a definição do termo paradigma que o politólogo John A. Vasquez nos oferece é muito parecida à definição da metageografia de LEWIS e WIGEN anteriormente apresentada: o conceito de paradigma pode ser definido como
as suposições fundamentais que fazem os especialistas sobre o mundo que estão estudando. Estas suposições proporcionam respostas às perguntas que devem ser apresentadas antes de que comece a teorização ... . Ao responder à estas questões, as suposições fundamentais formam uma representação do mundo[.] (ARENAL 2005:26)
Veremos, no conseguinte, que cada paradigma das relações internacionais se diferencia dos outros por uma representação específica do espaço mundial:
1) O idealismo / liberalismo \u201cotimista\u201d (JACKSON e SØRENSEN 2003:106) dos \u201cideais liberal-democratas universalistas\u201d, se baseia na imaginação de uma divisão entre \u201cOeste\u201d e \u201cresto\u201d do mundo, na qual o \u201cresto\u201d se vai converter em \u201cOeste\u201d, graças à universalização de desenvolvimento econômico e humano e da democracia: uma homogeneização do espaço mundial. LEWIS e WIGEN dedicam um capítulo inteiro à esta simplificação, criticando tanto o eurocentrismo hegeliano como o discurso mais recente do \u201cfim da história\u201d do politólogo Francis Fukuyama. Numa esfera rotativa como nosso planeta, falar de \u201cOeste\u201d não faz sentido.\ufffd
2) O realismo tradicional se baseia no conceito metageográfico do \u201cparcelamento do espaço mundial em Estado-nações\u201d num mundo anárquico onde só importam relações de poder (JACKSON e SØRENSEN 2003:68). O \u201cEstado-nação\u201d foi utilizado como tal pelos primeiros realistas (LEWIS e WIGEN 1997:7), enquanto que teorias realistas mais recentes fazem parcelamentos alternativos do espaço mundial: as \u201ccivilizações\u201d de Samuel Huntington (idem:134), o \u201ceixo do mal\u201d do governo Bush tanto como o \u201ceixo do bem\u201d de Hugo Chávez são empregados da mesma maneira, ou seja, para sugerir uma superficie terrestre constituida por entidades espaciais (mais ou menos) independentes que têm relações conflitivas entre elas mesmas.
3) As teorias da dependência e do sistema-mundo se baseiam nas concepções metageográficas da \u201cdivisão entre Norte e Sul\u201d e da divisão do espaço mundial entre \u201ccentro\u201d, \u201csemiperiferia\u201d e \u201cperiferia\u201d (idem:135). Os pensadores que são analisados / criticados neste contexto são Fernand Braudel, Immanuel Wallerstein e André Gunder Frank. Trata-se de uma metageografia que sugere um parcelamento da superfície terrestre em função de uma hierarquia sócio-econômica. A própria concepção do mundo como um \u201csistema\u201d segue essa mesma lógica (idem:137).
4) O paradigma da interdependência, por sua vez, sugere que a mobilidade crescente de pessoas, bens, informações e capital financeiro causa um \u201cfortalecimento de interconexões globais que não obedecem à lógica restritiva das fronteiras nacionais\u201d (BEDIN et al. 2000:245). Também sugere que todas as nações do mundo compartiriam profundos interesses comuns (BRAILLARD 1990:104). Para dar conta da complexidade deste mundo dominado por fenômenos intra ou transnacionais, surgiram, por exemplo, as metageografias da dinâmica espacial de violações dos direitos humanos, ou das supostas conseqüências de um (possível) aquecimento global.
Um pequeno exercício metageográfico
Um exemplo: O conceito de \u201cEstado fracassado\u201d representa uma metageografia da distribuição no espaço mundial de Estados cujos governos centrais são muito débeis de modo que não cumprem às funções constitutivas/essenciais de um Estado. Trata-se de uma concepção do mundo, que possui uma certa credibilidade no governo estadunidense, influenciando a política exterior desse país: uma metageografia que se impõe como paradigma. O desenvolvimento do conceito de \u201cEstado fracassado\u201d tem implicações \u201csobre o corpo teórico da disciplina de Relações Internacionais, com ênfase no Liberalismo, no Realismo e no Pós-Positivismo\u201d (MONTEIRO, 2006:vii).
Figura: O mapa-múndi segundo