Lei das Organizacoes Criminosas - Lei Nova
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Lei das Organizacoes Criminosas - Lei Nova


DisciplinaDireito Penal III5.983 materiais52.672 seguidores
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de fachada de empreendimentos realizados unicamente para o fim de lavagem de 
dinheiro e de ativos. Empresas que somente existem no papel, a fim de facilitar o 
acobertamento de atividades ilícitas, é que deverão constituir o alvo das exigências de 
especificidade da atuação empresarial. 
Do mesmo modo que o fato de ter havido a prática de um ou mais delitos por parte de 
integrantes de determinada empresa \u2013 por meio dela \u2013 não se qualifica, por si só, como 
formação de quadrilha ou bando, também não excluirá a imputação a só circunstância 
daexistência legal (oficial, registrada) da empresa. Cumprirá investigar e esclarecer se a 
atividade declarada no objeto social é efetivamente realizada, a tanto não bastando, 
evidentemente, a realização esporádica e eventual de atos lícitos. Uma coisa é a prática de 
crime por empresa regularmente constituída; outra, a constituição regular de empresa para a 
prática mascarada de atividade ilícita. 
De outra parte, foram instituídos outros tipos penais, sob a rubrica Dos crimes ocorridos na 
investigação e na obtenção da prova, dentre os quais avulta aquele contido no art. 21 da Lei 
12.850/13, que prevê a pena de seis meses a dois anos, e multa, para quem recusar ou omitir 
dados cadastrais, registros, documentos e informações requisitadas pelo juiz, Ministério Público 
ou delegado de polícia, no curso de investigação ou do processo. 
Mais adiante veremos a possibilidade de invalidação de algumas das disposições legais que 
comporiam o cenário do aludido tipo penal, especificamente em relação às requisições diretas 
do Ministério Público e do delegado de polícia. E veremos também que a Lei 12.850/13 é 
pródiga em bizarrices. 
d) Da investigação e dos meios de obtenção de provas 
O art. 3º enumera os meios de obtenção de prova a serem realizados no curso da persecução 
penal (fase de investigação e de processo), quase todos eles já de conhecimento geral e 
práticas rotineiras. 
Direito Penal IV \u2013 Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/13) 
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A novidade \u2013 e põe novidade nisso! \u2013 é a infiltração de agentes, prevista inicialmente na Lei 
9.034/95, com redação dada pela Lei 10.217/01, e, depois, na Lei 11.343/06 (Tóxicos \u2013 art. 53, 
I), mas sem qualquer regulamentação quanto às condutas e consequências dos atos praticados 
pelo infiltrado. Sobre ela falaremos em tópico específico. 
As demais, sobre as quais se poderiam levantar algumas objeções quanto à respectiva 
extensão, não oferecem maiores dificuldades. 
São elas (art. 3º): 
I- colaboração premiada; 
II- captação ambiental de sinais eletromagnéticos, ópticos e acústicos; 
III- ação policial controlada; 
IV- acesso a registros de ligações telefônicas e telemáticas, a dados cadastrais constantes de 
bancos de dados públicos ou privados e a informações eleitorais ou comerciais; 
V- interceptação de comunicações telefônicas e telemáticas, nos termos da legislação 
específica; 
VI- afastamentos dos sigilos financeiro, bancário e fiscal, nos termos da legislação específica; 
VII- infiltração, por policiais, em atividade de investigação, na forma do art. 11; 
VIII- cooperação entre instituições e órgãos federais, distritais, estaduais e municipais na busca 
de provas e informações de interesse da investigação ou da instrução criminal. 
Note-se que o dispositivo legal faz remissão à reserva da legislação específica em relação a 
apenas dois incisos (V- interceptação de comunicações telefônicas e telemáticas, e, VI- 
afastamentos dos sigilos financeiro, bancário e fiscal), deixando claro que os demais meios de 
obtenção da prova ali previstos estariam regulados na própria Lei 12.850/13. 
E, no que toca especificamente ao acesso a registros, dados cadastrais, documentos e 
informações, prevê o art. 15 que o delegado de polícia e o Ministério Público terão acesso, 
independentemente de autorização judicial, apenas aos dados cadastrais do investigado, que 
informem exclusivamente a qualificação pessoal, a filiação e o endereço mantidos pela Justiça 
Eleitoral, empresas telefônicas, instituições financeiras, provedores de internet e 
administradoras de cartão de crédito. Referida norma repete aquela contida no art. 17-B da Lei 
9.613/98, com redação dada pela Lei 12.683/12. 
A questão que se põe aqui diz respeito ao nível de tangenciamento da privacidade e da 
intimidade que estaria contido na nova regra de investigação, na medida em que, apesar de se 
limitar à informação relativa aos dados pessoais (filiação, qualificação e endereço), o fato é que 
os órgãos de investigação teriam acesso, desde logo, às informações também de ordem 
econômico-financeiro, que resultaria do esclarecimento quanto à portabilidade de cartões de 
crédito e de telefonia, bem como da existência de contas bancárias e/ou aplicações financeiras. 
E isso, naturalmente, ostenta uma dimensão que vai além da simples informação a respeito de 
dados pessoais. 
Direito Penal IV \u2013 Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/13) 
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Já tivemos oportunidade de sustentar \u2013 Capítulo 9, atinente às Provas \u2013 que o Ministério 
Público, titular da ação penal pública, não deveria se submeter às restrições impostas aos meios 
de prova não incluídos expressamente no rol do art. 5º, XII, da Constituição da República (ver, 
no ponto, o item 9.1.4.1, a, b, c e d). 
No entanto, prevalece no Supremo Tribunal Federal o entendimento em sentido contrário, 
alçando o Poder Judiciário à instância única de controle de legalidade das investigações, 
incluindo todas as espécies de afastamento de liberdades públicas (sigilo bancário, fiscal etc, 
sem falar naquelas expressamente reservadas à exclusividade jurisdicional \u2013telecomunicações, 
de dados, telemáticos etc.). Mesmo em relação à Receita Federal, e no âmbito de 
procedimentos regulares ali instaurados, decidiu-se pela exigência de autorização judicial para 
a quebra de sigilo bancário (RE 389.808, de 24.11.2010). 
E com a atual composição da Corte não vemos a menor possibilidade de alteração desse 
quadro. 
Mas, as disposições ora em comento apresentam algumas peculiaridades. 
É que não se cuida de acesso aos dados de movimentação financeira, nem àqueles relativos aos 
valores eventualmente depositados à titularidade do investigado, e, tampouco, ao montante de 
gastos efetuados com o sistema de telefonia ou de administração de crédito. O que a lei 
autoriza é que tais instituições informem o nome, estado civil, filiação e endereço da pessoa. 
Há, portanto, redução sensível quanto ao conteúdo de privacidade a ser acessado, ainda que se 
reconheça, como o fazemos, que a medida ostenta dimensão mais alargada da privacidade e da 
intimidade do investigado. Por isso, sustentamos a validade constitucional da medida. 
E para que se possa falar no acesso aos dados de qualificação e de localização dos investigados, 
impõe-se, de início, a indispensável existência de regular procedimento investigatório, a 
legitimar as medidas apontadas na citada legislação. 
Poder-se-ia levantar aqui importante questão acerca da livre atuação policial em tais situações, 
como, aliás, já vem sendo feita em alguns setores \u2013 já citamos o posicionamento da 2ª. Câmara 
de Coordenação Criminal do MPF, em relação à suposta incapacidade da autoridade policial em 
representar diretamente ao juiz, sem a intervenção do MP \u2013 Procedimento MPF \u2013 
1.00.001.000095/2010-86, julgado em 2.12.2010. 
De fato, é certo que o juízo de ponderação acerca da adequabilidade da medida, que balança 
entre a garantia da proibição do excesso e a necessidade de efetiva proteção penal contra ações 
de dimensões tão relevantes (as organizadas), deve passar também pelo controle 
de viabilidade da persecução penal, de modo a se evitar a adoção de medidas invasivas sem a 
prudente análise de sua pertinência e de sua necessidade. E esse controle, como se sabe, 
pertence ao Ministério Público,