Aprendizagem_e_comportamento_humano
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e externos presentes em alguns mode-
los de implante coclear estão exemplificados na Figura 1.
Figura 1 \u2013 componentes internos e externos de diferentes modelos de implante coclear.
http://www.implantecoclear.com.br/index.php?pagina=modelos (acesso em: jun. 2010).
Componentes internos: receptor estimulador com filamento de eletrodos (painel à es-
querda). Componentes externos: microfone retro auricular, processador da fala, antena
transmissora (painel à direita).
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Existem muitos modelos de implante disponíveis no mercado.
Utilizam recursos que permitem manipular o local e a velocidade de
estimulação elétrica para definir a estratégia de processamento dos
sons da fala. Essa possibilidade de produzir estimulação de modo
localizado e variar a velocidade de envio do estímulo permite ao dis-
positivo reproduzir o modo como o sistema auditivo normal utiliza
o espectro da frequência e os padrões temporais do sinal sonoro do
meio ambiente, gerando, então, a detecção dos sons ambientais.
As implicações do uso de implante coclear e seus avanços tecno-
lógicos fazem desse dispositivo o recurso mais avançado para o tra-
tamento que visa desenvolver repertório de falante em crianças com
deficiência neurossensorial profunda e severa, principalmente entre
aquelas acometidas por esse tipo de perda antes do desenvolvimen-
to de linguagem oral (pré-lingual). Porém, o procedimento cirúrgi-
co se configura como uma etapa intermediária entre a avaliação das
condições pré-implante e o acompanhamento para a regulagem do
implante após seu recebimento (Moret, Bevilacqua & Costa, 2007).
Pesquisas em controle de estímulos
Em deficientes auditivos pré-linguais a função auditiva, isto é,
os desempenhos de detectar, discriminar, reconhecer, compreender
e lembrar8 de estímulos sonoros, será estabelecida pela primeira vez
a partir da ativação do implante. Contudo, os sons ouvidos são des-
providos de valor semântico. Nesse caso, a compreensão de sons da
fala a partir da estimulação elétrica produzida pelo implante reque-
rerá aprendizagem. Estudos com crianças pré-linguais indicam que
o implante favorece o desenvolvimento da habilidade para se perce-
ber sons e também permite o progresso da linguagem oral, contudo
8 Uma descrição pormenorizada dos desempenhos que envolvem o processa-
mento auditivo (detectar, discriminar, reconhecer, compreender e memorizar)
pode ser obtida em Almeida-Verdu, 2002; Moret et al., 2007.
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essas modalidades de desempenho não apresentam o mesmo ritmo
(Bevilacqua et al., 2007).
Um dos aspectos relevantes de acompanhamento e investigação
a partir de diferentes disciplinas (Audiologia, Fonoaudiologia, Aná-
lise do Comportamento, entre outras) é a descrição das condições
sob as quais a expansão de repertórios verbais receptivos (ouvir) e
expressivos (falar) ocorre em surdos implantados e se estes compar-
tilham de verdadeiras relações simbólicas.
O paradigma da equivalência de estímulos fornece o critério ope-
racional que permite diferenciar a emergência de verdadeiras rela-
ções simbólicas de relações condicionais \u201cse-então\u201d. Nesse sentido,
se, por exemplo, um participante aprende as discriminações auditi-
vo-visuais entre uma palavra ditada e uma figura (AB) e entre a
mesma palavra falada e outra figura (AC) e, posteriormente, demons-
tra a emergência de relações visual-visual entre as figuras (BC-CB)
sem o ensino explícito das relações entre estas, então pode-se dizer
que o resultado indica formação de classes de equivalência e verda-
deiras relações simbólicas (Sidman & Talby, 1982).
Da Silva et al. (2006) conduziram o primeiro estudo que aproxi-
mou a Análise do Comportamento, mais especificamente o para-
digma de equivalência de estímulos, da reabilitação de implantados.
Esse estudo teve o objetivo de estender a metodologia das relações
de equivalência para o estudo da estimulação elétrica recebida por
deficientes auditivos implantados. Duas crianças pós-linguais e duas
pré-linguais receberam ensino em relações condicionais entre figu-
ras (AB e AC) que consistiam em letras gregas exibidas na tela de
um microcomputador, e todas demonstraram as relações ensinadas
e derivadas, atestando as relações de equivalência (BC e CB). Em
seguida, um conjunto de estímulos elétricos foi apresentado, via es-
timulação direta na cóclea (uma sequência de cinco pulsos de um
segundo), e foi conduzido o ensino que estabeleceu novas relações
condicionais auditivo-visuais (DC). Foram então testadas as rela-
ções de equivalência auditivo-visuais DA e DB. Os resultados dos
participantes pós-linguais demonstraram a aprendizagem das rela-
ções envolvendo pulsos elétricos (DC) pelo procedimento de empa-
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relhamento de acordo com o modelo, mas não demonstraram a emer-
gência das novas relações auditivo-visuais (DA e DB). Os partici-
pantes pré-linguais sequer aprenderam as relações com estímulos
elétricos, embora o aspecto promissor do estudo tenha sido a con-
dução da pesquisa em controle de estímulos em rotina de hospital e
tenha demonstrado emergência de relações simbólicas visual-visual.
Pesquisas posteriores à de Silva et al. (idem), adotando o mesmo
paradigma para estudo do comportamento simbólico com implan-
tados, além das condições que envolvem a aprendizagem do ouvir,
realizaram também sondagens sobre o efeito dessa aprendizagem
sobre o falar. Os quatro estudos conduzidos por Almeida-Verdu et
al. (2008a) avaliaram o potencial de crianças com surdez neurossen-
sorial que receberam o implante coclear exibirem relações de equi-
valência entre figuras e palavras ditadas pelo procedimento de em-
parelhamento de acordo com o modelo. Dez crianças com surdez
pré-lingual e quatro com surdez pós-lingual foram estudadas e to-
das aprenderam as relações entre palavra ditada e figuras (AB e AC)
ensinadas, e a maior parte delas demonstrou a formação de classes
(BC e CB). Ao final de cada um dos Estudos 1, 2 e 3, foram condu-
zidos testes de nomeação de figuras, mas as crianças não demons-
traram resultados consistentes com os resultados obtidos nos testes
de equivalência. De maneira geral, as crianças demonstraram a mes-
ma vocalização para as figuras (B e C) que foram emparelhadas à
mesma palavra ditada (A), porém a vocalização não fazia correspon-
dência ponto a ponto com essa palavra, ditada na fase de ensino.
Outro estudo recente foi o conduzido por Battaglini (2010), que
teve como objetivo avaliar se implantados cocleares pré-linguais
aprenderiam relações condicionais entre palavra ditada e figura (AB)
e entre figura e palavra impressa (BC) via exclusão, e se o aprendiza-
do dessas relações seria condição para a emergência de relações de
equivalência para a nomeação de figuras (BD) e de palavras impres-
sas (CD). Excetuando-se uma participante, todos aprenderam as
relações ensinadas (AB e AC) e demonstram formação de classes.
Nos pós-testes de nomeação, a maioria dos participantes emitiu
vocalizações sem correspondência ponto a ponto à palavra ensina-
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da. Diante disso, discute-se no estudo a possibilidade de que o nú-
mero de exposições ao estímulo auditivo pode ser uma variável im-
portante para a aprendizagem de novos operantes verbais e a relação
que o ouvir estabelece com o falar.
Um estudo que realizou acompanhamento longitudinal da evo-
lução da audição em surdos pré-linguais implantados foi conduzido
por Gaia (2005) e avaliou o desempenho de implantados em reco-
nhecimento de palavras (relações condicionais auditivo-visuais),
imitação