Aprendizagem_e_comportamento_humano
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atenção\u201d, mas esses experimentos não avaliam di-
retamente as respostas de \u201catentar\u201d, apenas inferem o primeiro elo a
partir dos desempenhos obtidos.
Teorias do \u201cAtentar\u201d diferem da identificação do \u201cprestar aten-
ção\u201d com o controle de estímulos por assumirem dois estágios na
explicação do comportamento e diferem da explicação que se utiliza
do conceito de RO por não avaliarem diretamente o primeiro dos
dois estágios assumidos. Adicionalmente, é comum encontrar entre
autores desse grupo o argumento de que é vantajoso interpretar o
\u201cprestar atenção\u201d dessa forma justamente por não se prender aos
resultados obtidos com respostas abertas como as ROs:
Não há evidências que suportem o pressuposto de que a atenção e
respostas de escolha [ou de observação] obedeçam exatamente às mes-
mas leis, e a possibilidade de alterar os parâmetros independentemente
um do outro gera explicações que abrangem uma maior variedade de
dados comparativos [entre espécies]. (Mackintosh, 1965b, p. 145)
Com essa liberdade teórica pode-se indicar, por exemplo, que o
\u201cprestar atenção\u201d tem natureza diversa dos processos comportamen-
tais operantes (i.e., é um evento cognitivo ou neurofisiológico):
Presume-se que ROs seguem as mesmas leis [do comportamento
operante], tal como aquisição e extinção, como qualquer outra respos-
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ta, enquanto que hipóteses [sobre o Atentar] são estados cognitivos, não
necessariamente vinculados às leis do hábito. (Zeaman & House, 1963,
p.214)
Em outro momento do mesmo texto, ao avaliar os efeitos da no-
vidade (novelty) dos estímulos sobre o \u201cprestar atenção\u201d, Zeaman &
House (idem, p.200) defendem que o \u201cAtentar\u201d é um processo cen-
tral, possivelmente neurofisiológico:
Os efeitos da novidade nos apresentam um paradoxo, que só pode
ser resolvido assumindo-se que a atenção é um processo central. [...]
Um estímulo não pode ser julgado novo exceto em relação a séries ante-
riores ou a um contexto de estímulos antigos (familiar). Mas esse julga-
mento deve requerer que o sujeito mantenha algum traço, gravação ou
engrama dos estímulos prévios (familiares) para contrastar com o sinal
novo presente. [...] Sujeitos que falham na discriminação por causa da
inatenção estão armazenando informações sobre o estímulo em algum
lugar. Atenção é, portanto, um processo central.
O fato de teóricos que defendem as teorias do \u201cAtentar\u201d (não se
prenderem aos resultados obtidos com respostas observáveis e não
terem a mesma natureza dos processos comportamentais até então
estudados) é contrário, ao menos em alguns aspectos, às proposi-
ções do Behaviorismo Radical.
Skinner diferencia o Behaviorismo Radical de outros behavioris-
mos, entre outros argumentos, defendendo que não se deve ignorar os
eventos que não se pode observar ou medir (Skinner, 1963/1984). Na
medida em que se afasta do Operacionismo Clássico e do Positivismo
Lógico, Skinner permite e incentiva o uso da inferência como recurso
legítimo da ciência em geral e da AC em particular (Skinner, 1984;
Dittrich et al., 2009); contudo, usa uma concepção específica de infe-
rência: \u201ceu a definiria como o uso de termos e princípios científicos
para falar de fatos sobre os quais se sabe muito pouco para tornar pos-
síveis a previsão e o controle\u201d (Skinner, 1984, p.578), e alerta para os
perigos de se inferir sem tomar os resultados experimentais conheci-
dos como base última da interpretação (idem, 1953/1965). Se Skinner
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concebe que a inferência sobre os eventos privados deve ser baseada
nos resultados experimentais obtidos até o momento, é possível argu-
mentar que, para ele, assumir a postura \u201cnão há motivos para se infe-
rir que os eventos inobserváveis têm natureza diferente dos eventos
observáveis\u201d (postura semelhante à de Dinsmoor, 1985) seria preferí-
vel em relação à postura \u201cnão há motivos para se assumir que os even-
tos encobertos seguem as mesmas leis dos comportamentos abertos\u201d,
como parece ser a posição de Mackintosh (1965b), por exemplo. Ob-
viamente, a posição de Dinsmoor (1985) de que o \u201cAtentar\u201d segue as
mesmas leis do comportamento operante também é uma inferência,
mas é uma inferência muito mais próxima daquela defendida por
Skinner (1971/2002, p.22-3), afinal:
Muitas vezes referimo-nos a coisas que não podemos observar ou
medir com a precisão demandada por uma análise científica, e, ao fazê-
lo, há muito a se ganhar ao usar termos e princípios que foram forjados
em condições mais precisas.
Quanto ao assumir que o \u201cAtentar\u201d é necessariamente um pro-
cesso central (i.e. neurofisiológico), os argumentos apresentados por
Zeaman & House (1963) parecem refletir séria incompreensão das
propostas behavioristas radicais. Se o fato de os organismos respon-
derem diferencialmente a certos estímulos que foram apresentados
no passado, mas não estão presentes na situação atual, fosse prova
da existência de uma unidade conceitual como engrama ou repre-
sentação, a AC não teria o que dizer sobre o fenômeno da memória
sem recorrer à neurofisiologia, o que, não obstante, ela faz com fre-
quência. Para a AC, um organismo que passou por certa experiên-
cia com um determinado estímulo teve seu comportamento modifi-
cado pelo papel que esse estímulo desempenhou naquele ambiente
(seja como reforçador, como contexto \u2013 SD etc.). O que resulta dessa
interação é um organismo modificado que reagirá diferentemente
caso venha a ser exposto a um ambiente parecido no futuro. Não é
necessário assumir um \u201cjulgamento interno\u201d do estímulo que avalie
se ele é novo ou familiar. O organismo reage diferencialmente a ele
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porque foi (ou não) exposto a contingências que o tornaram impor-
tante. Os detalhes sobre como o organismo é modificado não são de
competência da AC, apenas disciplinas como a Fisiologia e a Bio-
química têm os métodos adequados para descrever esse fenômeno.
Contudo, a AC pode perfeitamente prescindir desses métodos e con-
tinuar a prever e controlar o comportamento dos organismos. Nesse
caso específico, é necessário apenas conhecer a história que o orga-
nismo tem em relação ao estímulo de interesse.
Uma síntese possível da reconstrução conceitual
De modo geral, parece que restam duas opções ao analista do
comportamento quando tenta conceituar o \u201cprestar atenção\u201d: ou (1)
ele segue uma postura \u201celiminativista\u201d e assume que, havendo um
termo menos carregado historicamente de características mentalistas
(i.e. controle de estímulos), a expressão \u201cprestar atenção\u201d não é neces-
sária e deve ser evitada, ou (2) ele segue uma postura mais \u201ccompre-
ensiva\u201d e conceitua o \u201cprestar atenção\u201d como um sistema complexo
de comportamentos que pode ser analisado em vários níveis, como a
verificação da presença de controle de estímulos ou o estudo de com-
portamentos precorrentes, sejam eles encadeados ou ROs, mas que
interfiram no controle diferencial exercido por um estímulo. A dife-
rença nas duas proposições pode ser interpretada como uma diferença
na abrangência da classe de respostas a que se refere a expressão
\u201cprestar atenção\u201d (Strapasson & Dittrich, 2008), contudo a coexis-
tência das duas proposições não resolve o principal problema da pes-
quisa sobre o tema, a multiplicidade de sentidos em que a expressão é
utilizada. É necessário, portanto, avaliar os benefícios alcançados
com cada uma das formas de abordar o \u201cprestar atenção\u201d e, eventual-
mente, optar por uma delas.
Assumir a primeira postura evita os sistemas conceituais comu-
mente associados à expressão \u201cprestar atenção\u201d na literatura psico-
lógica ampla e no senso comum, e é coerente com a prática
skinneriana de se abandonar os