Aprendizagem_e_comportamento_humano
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faixa etária e diminuir em outra
(Campbell, 1995).
Muitas crianças que apresentam problemas de comportamento
no ambiente escolar acabam sendo rotuladas como apresentando al-
guma \u201cdeficiência\u201d e/ou \u201cincapacidade\u201d pessoal. Tais estigmas po-
deriam dificultar seu desenvolvimento social e prejudicar seu ren-
dimento escolar (Marchesi & Martin, 1995). Na maioria das vezes,
os problemas de comportamento infantil são favorecidos e manti-
dos pelos contextos escolares e pelo ambiente familiar (Bolsoni-Sil-
va & Del Prette, 2003).
Diante disso, pesquisas procuram investigar as habilidades so-
ciais infantis utilizando os relatos de pais e de professores, por con-
siderarem estes como observadores privilegiados dos comportamen-
tos das crianças (Bolsoni-Silva et al., 2006; Cia & Braham, 2009;
Feitosa, 2003). Alguns estudos indicam que pais e professores ten-
dem a concordar ao avaliar os comportamentos das crianças
(Kumpulanein et al.; 1999; Ruffalo & Elliott, 1997). Outros, po-
rém, sinalizam que pais e professores podem divergir quanto às ava-
liações sobre comportamentos das crianças (Bolsoni-Silva et al.,
2006; Feitosa, 2003; Satake et al., 2003).
Bolsoni-Silva et al. (2006) realizaram um estudo com o objetivo
de comparar as avaliações de mães e de professoras sobre habilida-
des sociais e problemas de comportamento de 24 pré-escolares indi-
cados pelas professoras com indicativos de problemas de comporta-
mento e 24 como sendo socialmente habilidosos. O estudo indicou
que as mães perceberam mais habilidades sociais que as professo-
ras. Entre essas habilidades estão: cumprimentar as pessoas; fazer
elogios; expressar desejos, carinhos, direitos e desagrado; negociar;
comunicar-se de forma positiva; fazer amigos. Os autores defendem
a hipótese situacional (Achenback, McConutghy & Howell, 1987)
que considera que as crianças podem apresentar comportamentos
diferentes em contextos distintos. Neste caso, a escola seria um am-
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biente que apresenta mais regras e normas de convívio social. Assim,
colocaria mais exigências e traria mais dificuldade de adaptação, es-
pecialmente para as crianças com dificuldades comportamentais
(Bolsoni-Silva et al., 2006). Na mesma direção, Feitosa (2003), ao
comparar as avaliações de pais e de professoras sobre as habilidades
sociais de 64 crianças (idade entre sete e oito anos) com e sem pro-
blemas de aprendizagem, segundo a percepção das professoras, con-
cluiu que pais de crianças com dificuldades escolares identificaram
mais habilidades sociais de oferecer ajuda, propor brincadeiras, res-
ponder perguntas e agradecer elogios do que as professoras. Ambos
os estudos diferenciaram as crianças como apresentando dificulda-
des comportamentais/acadêmicas segundo a percepção das profes-
soras. Nesse estudo, as crianças foram avaliadas tanto pelas mães
quanto pelas professoras, ou seja, deveriam apresentar dificuldades
no ambiente da família e no ambiente escolar.
Portanto, o que se verifica é que há tanto uma concordância quan-
to uma discordância entre avaliadores, especialmente entre pais e
professores, sugerindo, assim, a necessidade de mais pesquisas que
procure comparar avaliações realizadas por diferentes informantes
(Dessen, Abreu & Neto, 2000; Silvares, 2000). Além dessas ques-
tões, seria importante procurar identificar e desenvolver, no repertó-
rio comportamental dessas crianças, habilidades sociais que pode-
riam ser utilizadas em programas de intervenção preventivos tanto
com pais quanto com professores. Deste modo, investigar não ape-
nas as dificuldades comportamentais, mas avaliar e desenvolver as
habilidades infantis, pode ajudar na prevenção de problemas de com-
portamento e na promoção da formação infantil de forma global, isto
é, desenvolvendo a cidadania, conforme recomenda a Lei de Diretri-
zes e Base da Educação Nacional 9394/96. A partir das considera-
ções mencionadas, o presente estudo teve por objetivos: (a) investi-
gar as habilidades sociais infantis de pré-escolares com indicativos
de problemas de comportamento; (b) comparar as avaliações de mães
e de professoras sobre as habilidades sociais das crianças.
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Método
Participantes
Vinte mães de pré-escolares (idade média dos pré-escolares: 5,2
anos, 0,96 d.p.) com indicativos de problemas de comportamento e
19 professoras como informantes. As crianças estavam matricula-
das do Jardim I ao Pré, em sete Escolas Municipais de Educação
Infantil (Emei) de uma cidade do interior do estado de São Paulo
com 356.680 habitantes.6 A idade média das mães era de 31 anos
(d.p. = 0,83). A amostra das crianças foi composta por 15 meninos e
cinco meninas. A escolaridade materna era de, em média, 9,37 anos
(d.p. = 0,81) e a renda familiar era de, em média, 933 reais. Esse
estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, com proto-
colo no 1175/46/01/06.
Instrumentos
Para a avaliação das habilidades sociais foi utilizado o Questio-
nário de Respostas Socialmente Habilidosos, em suas versões para
professores (QRSH-PR, Bolsoni-Silva; Marturano & Loureiro,
2009) e pais (QCSH-Pais, Bolsoni-Silva; Marturano & Loureiro,
no prelo). Para avaliar os indicativos de problemas de comportamen-
to, foi empregada a Escala Comportamental Infantil (ECI), também
com versões para professores (Santos, 2002) e pais (Graminha, 1994).
A ECI-B para professores e a ECI-A2 para pais são compostas, res-
pectivamente, por 26 e 36 itens, que apresentam descrições de com-
portamentos (por exemplos, \u201cbriga frequentemente com outras
crianças\u201d; \u201cRetorce-se, é uma criança inquieta\u201d). Cada item tem três
alternativas de resposta: o comportamento descrito se aplica (escore
2), aplica-se em parte (escore 1) ou não se aplica (escore 0) à criança.
Todas as escalas têm pontos de corte, acima dos quais se considera
6 Fonte: Dados geográficos de Bauru: <http://www.bauru.sp.gov.br/>.
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que a criança tem problemas de comportamento (escore igual ou
superior a 16, na ECI-A; igual ou superior a 9, na ECI-B). A ECI-A
tem adaptação brasileira, feita em uma amostra de 1.731 crianças de
três a 13 anos, com índices satisfatórios de fidedignidade e determi-
nação de ponto de corte (Graminha, 1994). A ECI-B foi traduzida
por Santos (2002), que verificou que o ponto de corte original da
escala discriminava crianças com alto e baixo rendimento escolar.
O QRSH-Pais e o QRSH-PR são compostos por uma lista (a
versão para pais tem 22 itens e a versão para professores tem 24 itens)
com comportamentos socialmente habilidosos apresentados por
crianças (exemplos: \u201cFaz pedidos\u201d; \u201cApresenta facilidade para fa-
zer amizades\u201d), na qual os professores e os pais devem responder se
um comportamento se aplica (escore 2), aplica-se em parte (escore
1) ou não se aplica (escore 0). Os escores são somados, permitindo o
escore total da criança avaliada. A partir do estudo piloto (com 13
pais/mães), realizado para a pesquisa de Silva (2000), foram defini-
das três categorias (Expressão de sentimento e enfrentamento, Inte-
ração social positiva e Disponibilidade social e cooperação) para o
QRSH-Pais, as quais foram organizadas conforme os relatos dos pais
nas entrevistas estruturadas sobre o repertório comportamental dos
filhos. Bolsoni-Silva, Marturano & Loureiro (no prelo), ao realiza-
rem um estudo de validação do QRSH-Pais com 131 pré-escolares,
encontraram índices satisfatórios de consistência interna e validade
concorrente e discriminante. O QRSH-PR teve suas propriedades
psicométricas avaliadas no estudo de Bolsoni-Silva, Marturano &
Loureiro (2009) com 260 pré-escolares. As autoras encontraram in-