Aprendizagem_e_comportamento_humano
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Aprendizagem_e_comportamento_humano


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habilidades sociais investigadas, especialmente nas habilidades
sociais das categorias \u201cDisponibilidade social e cooperação\u201d e \u201cInte-
ração social positiva\u201d. Bolsoni-Silva & Del Prette (2003), Bolsoni-Sil-
va & Marturano (2006) e Silva (2000) têm sinalizado que crianças
com problemas de comportamento apresentam também um repertó-
rio socialmente habilidoso, ainda que com menos frequência, quando
comparadas com crianças sem problemas de comportamento.
As habilidades sociais da categoria \u201cDisponibilidade social e coo-
peração\u201d contemplam, para Del Prette & Del Prette (2005), as cate-
gorias civilidade, empatia, fazer amizades e habilidades acadêmi-
cas. Estas, segundo os autores, são habilidades importantes não só
para convívio na família, mas também na escola, em interações com
pares e com professores, sinalizando possíveis reservas comporta-
mentais que podem facilitar o desenvolvimento interpessoal da crian-
ça no ambiente escolar (Caldarella & Merrell, 1997; Del Prette &
Del Prette, 2005).
De forma semelhante, as habilidades sociais de fazer amizades,
brincar com colegas e interagir de forma não verbal, que compõem a
categoria \u201cInteração social positiva\u201d, podem ser relacionadas ao de-
senvolvimento da empatia e a um bom convívio social com pares. O
desenvolvimento de um bom relacionamento com pares e da empatia
tem sido indicado por alguns estudos (Falcone, 2000b; Pavariano;
Del Prette & Del Prette, 2005a) como fator de proteção para indica-
tivos de problemas de comportamento e correlacionado positivamen-
te com a competência social infantil.
Os resultados indicaram, ainda, que as crianças apresentaram
médias baixas nas habilidades de expressar desejos, direitos, neces-
sidades e de negociar, principalmente segundo as percepções das
mães. Essas habilidades sociais fazem parte da categoria \u201cExpres-
são de sentimentos e enfrentamento\u201d, a qual envolve um conjunto
de comportamentos que requerem da criança, por exemplo, o auto-
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controle, a expressividade adequada de seus sentimentos e a capaci-
dade de negociação em situações que podem envolver conflitos de
interesse. Expressar sentimentos e enfrentar situações que envolvem
confronto de opiniões são habilidades importantes, pois permitem à
criança aprender repertórios básicos para outras habilidades mais
complexas que envolvem a resolução de problemas interpessoais.
Assim, por exemplo, se uma criança, durante uma brincadeira, ex-
pressa frustração e desagrado conversando e negociando, ela pode
evitar agressões e manter a relação de amizade.
Parece, então, que as crianças com indicativos de problemas de
comportamento apresentam, principalmente no ambiente da famí-
lia, dificuldades nas habilidades de expressar sentimentos negati-
vos, concordar e discordar de opiniões, defender os próprios direi-
tos, lidar com críticas e negociar interesses conflitantes da categoria
definida por Del Prette & Del Prette (2005) como autocontrole e
expressividade emocional e assertividade. Tais resultados indicam
que as crianças do estudo apresentam algumas dificuldades diante
de certas demandas do ambiente, o que sugere a importância de a
escola e a família monitorarem e darem suporte nesses momentos,
fornecendo modelos e incentivando comportamentos socialmente
habilidosos.
Os resultados indicaram que mães e professoras concordaram
na maioria dos itens e no total do repertório de habilidades sociais
das crianças. Esses resultados estão coerentes com as pesquisas que
demonstram que pais e professores apresentam opiniões semelhan-
tes ao avaliar os comportamentos dos filhos (Kumpulanein et al.;
1999; Ruffalo & Elliott, 1997). Entretanto, esses resultados podem
ser decorrência da própria metodologia do estudo, que adotou como
critério de inclusão que as crianças apresentassem problemas de com-
portamento segundo as percepções das mães e das professoras.
Outros estudos indicam que pais e professores fazem avaliações di-
ferenciadas dos comportamentos das crianças (Bolsoni-Silva et al.,
2006; Feitosa, 2003; Satake et al., 2003). Nesse sentido, verificou-se
que as mães indicaram, mais que as professoras, que seus filhos ex-
pressavam mais elogios e carinhos. Isso faz pensar na hipótese
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situacional (Achenback, McConutghy & Howell, 1987) que sinali-
za que ambientes distintos possibilitam a expressão de comporta-
mentos diferenciados. Portanto, é possível hipotetizar que o ambien-
te familiar seja mais facilitador da expressão de afetividade, ao passo
que o ambiente escolar proporcione mais facilidade para a criança se
relacionar com outras crianças, por exemplo. Uma explicação alter-
nativa deve considerar que mães e professoras discriminam com-
portamentos das crianças segundo a frequência e a qualidade de con-
tato que têm com aquelas. Ou seja, as mães, por terem um contato
mais íntimo com os filhos, podem identificar nestes, com mais faci-
lidade que as professoras, a expressão de sentimentos positivos. Já
as professoras, por terem um contato diário com muitas crianças,
podem indicar mais interações de brincadeiras infantis que as mães.
De todo modo, os dados do estudo concordam em parte com
outras pesquisas (Bolsoni-Silva et al. 2006; Feitosa, 2003) que com-
pararam avaliações de mães e de professoras. Os resultados sinali-
zam para a necessidade de ter diferentes informantes, em diferentes
contextos, na avaliação comportamental infantil. Ao mesmo tempo,
é importante que futuras pesquisas investiguem variáveis proximais,
tais como as práticas educativas parentais, que possam estar relacio-
nadas à ocorrência de problemas de comportamento e ao desenvol-
vimento de habilidades sociais.
Além disso, as habilidades sociais e as dificuldades comporta-
mentais \u2013 descritas anteriormente \u2013 poderiam ser trabalhadas em
programas de intervenção com as crianças ou de forma indireta com
pais e professores. Assim, por exemplo, poderiam se desenvolver,
com os pais e com os professores, práticas educativas que ajudassem
as crianças a aprender as habilidades sociais requeridas na
assertividade, isto é, habilidades que envolvem contextos com risco
de uma reação indesejada do interlocutor (Del Prette & Del Prette,
2005), como ocorre no caso de negociar interesses conflitantes. Nesse
sentido, pais e professores poderiam ser orientados a ensinar as crian-
ças a controlar a ansiedade, a expressar de forma apropriada seus
sentimentos, desejos e opiniões, bem como superar a passividade e
controlar a agressividade. Como consequência, as crianças que são
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frequentemente rotuladas, por apresentarem indicativos de proble-
mas de comportamento, poderiam desenvolver suas potencialida-
des a partir de seu repertório de habilidades sociais infantis por meio
de intervenção com pais e professores.
Conclusão
O presente estudo teve limitações, dentre as quais podemos des-
tacar que as crianças foram avaliadas a partir dos relatos das mães e
das professoras. Deste modo, seria importante que estudos futuros
coletassem dados por meio da observação natural ou experimental
dos comportamentos investigados na pesquisa. Somado a isso, a
maioria das crianças que compunham a amostra era de meninos.
Como a literatura indica que os meninos apresentam, com mais fre-
quência que as meninas, dificuldades comportamentais, especial-
mente externalizantes, seria interessante que futuras pesquisas equi-
librassem a amostra em relação ao gênero das crianças. Apesar das
limitações, a pesquisa procurou avaliar não apenas os problemas de
comportamento das crianças com indicativos clínicos, mas também
investigar seu repertório comportamental socialmente habilidoso em
dois