Historia Economica do Brasil
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Brasil em terre-
nos auríferos), datam de 1729. A princípio adotou-se para com a 
extração dos diamantes o mesmo sistema que vigorava na do ouro: a 
livre extração com pagamento do quinto. Mas era difícil calcular e 
separar o quinto de pedras muito diferentes umas das outras, em 
tamanho e qualidade; e como além disto ocorressem apenas em áreas 
limitadas, adotou-se logo outro processo mais conveniente à per-
cepção do tributo \u2014 em todas as matérias da sua administração, a 
metrópole portuguesa sempre colocava este assunto em primeiro e 
quase único lugar. Demarcou-se cuidadosamente o território em que 
se encontravam os diamantes, isolando-o completamente do exterior. 
Este território, que se chamou o Distrito Diamantino, é o que cir-
cunda a atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. E a explora-
ção foi outorgada como privilégio a determinadas pessoas que se 
obrigavam a pagar uma quantia fixa pelo direito de exploração. Em 
1771 modifica-se este sistema, passando a Real Fazenda a fazer ela 
mesma, diretamente, a exploração. Organizou-se uma Junta da admi-
nistração geral dos diamantes, sob a direção de um intendente, pa-
ra ocupar-se da matéria. Esta administração, como se dava com as 
Intendências do ouro, independia completamente de quaisquer auto-
ridades coloniais, e somente prestava contas ao governo de Lisboa. 
Sua autonomia ainda era maior, porque se estendia soberana sobre 
todo um território. Verdadeiro corpo estranho enquistado na colô-
nia, o Distrito Diamantino vivia inteiramente isolado do resto do 
país, e com uma organização sui generis: não havia governadores, 
câmaras municipais, juízes, repartições fiscais ou quaisquer ou-
tras autoridades ou órgãos administrativos . Havia apenas o Inten-
dente e um corpo submisso de auxiliares que eram tudo aquilo ao 
mesmo tempo, e que se guiavam unicamente por um regimento colocado 
acima de todas as leis e que lhes dava a mais ampla e ilimitada 
competência. Na área do Distrito ninguém podia estabelecer-se, nem 
ao menos penetrar ou sair sem autorização especial do Intendente, 
e a vida de seus habitantes (que pelo final do séc. XVIII montavam 
a 5.000 pessoas) achava-se inteiramente nas mãos daquele pequeno 
régulo que punha e dispunha dela a seu talante. Seus poderes iam 
até o confisco de todos os bens e decretação da pena de morte ci-
vil
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 sem forma de processo ou recurso algum. Um naturalista alemão 
que em princípio do séc. XIX visitou o Distrito,
11
 assim se refere 
a ele: "Única na história esta idéia de isolar um território no 
qual todas as condições da vida civil de seus habitantes ficassem 
sujeitas à exploração de um bem da coroa". 
Além do Distrito Diamantino, outras áreas da colônia onde se 
encontram diamantes também foram destacadas e isoladas, proibindo-
se o acesso a qualquer pessoa: rio Jequitinhonha (Minas Gerais); 
rio Claro e Pilões (Goiás); sudoeste da Bahia; alto Paraguai (Mato 
Grosso). Estas áreas não foram aproveitadas e se conservaram de-
sertas. 
A decadência da mineração dos diamantes, que é mais ou menos 
paralela à do ouro, tem também causas semelhantes. Veio agravá-la 
um fator: a depreciação das pedras, devido ao seu grande afluxo no 
mercado europeu. O governo português tentou impedir a queda dos 
preços restringindo a produção e a venda; mas seus crônicos aper-
tos financeiros obrigavam-no freqüentemente a abrir mãos das res-
trições e lançar inoportunamente no mercado grandes quantidades de 
pedras. O seu valor veio assim, de queda em queda, até princípios 
do séc. XIX. Ao mesmo tempo, uma administração inepta e ineficien-
te foi incapaz de racionalizar a produção e reduzir o custo da ex-
tração; tudo se conservou até o fim na mesma rotina de sempre. O 
desastre foi completo, e a exploração de diamantes deixou inteira-
mente de contar como atividade econômica de alguma expressão desde 
fins do séc. XVIII. 
A mineração teve na vida da colônia um grande papel. Durante 
três quartos de século ocupou a maior parte das atenções do país, 
e desenvolveu-se à custa da decadência das demais atividades. O 
afluxo de população para as minas é, desde o início do séc. XVIII, 
considerável: um rush de proporções gigantescas, que relativamente 
às condições da colônia é ainda mais acentuado e violento que o 
famoso rush californiano do séc. XIX. Isto já seria o suficiente 
para desequilibrar a vida do país e lhe transformar completamente 
o aspecto. Em alguns decênios povoa-se um território imenso até 
então desabitado, e cuja área global não é inferior a 2 milhões de 
km
2
. Povoamento esparso, bem entendido (em princípios do séc. XIX 
não será superior a 600.000 habs., ou seja um quinto da população 
total do Brasil de então), e distribuídos em pequenos núcleos se-
parados entre si por áreas desertas imensas. Esta será uma forma 
característica ao povoamento do Brasil centro-sul que se perpetuará 
até nossos dias. A sua significação econômica pode ser avaliada pe-
la dificuldade que representa estabelecer-se um sistema de trans-
 
10 Esta pena desapareceu do direito moderno; não vai até a execução capital, mas 
significa a cessação de todos os direitos do indivíduo "como se a pessoa deixas-
se de existir", definem as leis da época. 
11 Trata-se de Carl Friedrich Philip von Martius. (1794-1868), um dos grandes bo-
tânicos modernos. 
portes eficiente e econômico em região tão irregularmente ocupada. 
Será este o maior ônus legado pela mineração do séc. XVIII. 
Mas de outro lado, o impulso desencadeado pela descoberta das 
minas permitiu à colonização portuguesa ocupar todo o centro do 
continente sul-americano. É este mais um fato que precisa ser con-
tado na explicação da atual área imensa do Brasil. 
As transformações provocadas pela mineração deram como resul-
tado final o deslocamento do eixo econômico da colônia, antes lo-
calizado nos grandes centros açucareiros do Nordeste (Pernambuco e 
Bahia). A própria capital da colônia (capital mais de nome, pois 
as diferentes capitanias, que são hoje os Estados, sempre foram 
mais ou menos independentes entre si, subordinando-se cada qual 
diretamente a Lisboa) transfere-se em 1763 da Bahia para o Rio de 
Janeiro. As comunicações mais fáceis das minas para o exterior se 
fazem por este porto, que se tornará assim o principal centro ur-
bano da colônia. 
De um modo geral, é todo este setor centro-sul que, graças em 
grande parte à mineração, toma o primeiro lugar entre as di-
ferentes regiões do país; para conservá-lo até hoje. A necessidade 
de abastecer a população, concentrada nas minas e na nova capital, 
estimulará as atividades econômicas num largo raio geográfico que 
atingirá não somente as capitanias de Minas Gerais e Rio de Janei-
ro propriamente, mas também São Paulo. A agricultura e mais em 
particular a pecuária desenvolver-se-ão grandemente nestas regi-
ões. É de notar que o território das minas propriamente (sobretudo 
das mais importantes localizadas no centro de Minas Gerais) é im-
próprio para as atividades rurais. O solo é pobre e o relevo ex-
cessivamente acidentado. Nestas condições, os mineradores terão de 
se abastecer de gêneros de consumo vindos de fora. Servir-lhes-á 
sobretudo o sul de Minas Gerais, onde se desenvolve uma economia 
agrária que embora não contando com gêneros exportáveis de alto 
valor comercial \u2014 como se dera com as regiões açucareiras do lito-
ral \u2014, alcançará um nível de relativa prosperidade. 
 
8 
A Pecuária e o Progresso do 
Povoamento no Nordeste 
 
 
 
A OCUPAÇÃO do interior nordestino, que vimos no capítulo 5 em 
seu início, continua a processar-se ativamente no período que ora 
nos