Historia Economica do Brasil
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quilômetros de cursos d'água. Outro efeito este do gênero de vida 
adotado: a atração dos rios; não pela água em si, mas pelo caminho 
que oferece. Numa forma de atividade em que as fontes de produção 
se dispersam irregularmente, sem pontos de concentração apreciá-
vel, não são elas, como se deu na agricultura ou na mineração, que 
fixam o povoador; mas sim a via de comunicação. Não é esta que 
procura aquele, como acontece normalmente; mas o inverso. Não foi 
apenas a dificuldade de acesso e ocupação da floresta que fez o 
colono preferir com exclusividade a margem dos rios; se fosse con-
veniente, aquela dificuldade teria sido vencida, como o foi em ou-
tros lugares. Mas por que buscar um lugar afastado da esplêndida 
via natural que oferecem as "estradas líquidas", quando em qual-
quer outro se estaria igualmente ou muito pouco melhor situado com 
relação a fontes de produção exploradas? A área que um simples co-
lhedor de produtos espontâneos tem de abarcar é por natureza imen-
sa; mais que isto, ela é variável, porque o esgotamento das fontes 
não tarda nesta forma primitiva de exploração. A via de comunica-
ção natural e fácil como a que oferecem os cursos dágua constitui-
rá, por isso, o único pólo forte e estável de atração do povoamen-
to. 
A organização da produção também reflete as condições em que 
ela se realiza. Não tem por base a propriedade fundiária, como na 
agricultura e na mineração. A exploração se realiza indiferente-
mente na floresta imensa aberta a todos. E faz-se esporádica, co-
incidindo com as épocas próprias da colheita. Processa-se por ar-
rancos bruscos, que são as "expedições" (é o nome empregado), que 
saem no momento oportuno em busca dos produtos naturais, e a que 
se segue a longa inatividade da estação morta. Um empresário reúne 
os homens necessários, índios que engaja, como vimos, sob a fisca-
lização das autoridades públicas. Esta operação nem sempre é sim-
ples, pois além da má vontade dos índios que se concretiza em fu-
gas e deserções freqüentes (é uma das formas que toma aí a luta de 
classes), há também a concorrência dos interessados nesta insufi-
ciente mão-de-obra. E além dos colonos, a administração pública 
também intervém neste mercado de trabalhadores com suas obras; 
muitas destas obras se realizaram na segunda metade do século: 
construção de quartéis, fortalezas, hospitais. Sem contar os ín-
dios recrutados pelas comissões de limites que por esta época an-
davam trabalhando e fixando as fronteiras das possessões espanho-
las e portuguesas. Esta intervenção dos poderes públicos é consi-
derável, desfalcando as aldeias de povoadores e os colonos de bra-
ços. 
De tal disputa em torno dos trabalhadores indígenas \u2014 que in-
felizmente de nada serviu para eles, incapazes que estavam de ti-
rar proveito de uma situação vantajosa mas inacessível ao seu en-
tendimento \u2014 resultam rixas e violências freqüentes; em muitos ca-
sos foi-se obrigado a destacar autoridades especiais para cuidar 
da matéria. Escolhia-se, dentre os moradores, um juiz que procedia 
oficialmente à repartição dos braços disponíveis. 
Organizada a expedição, ela segue fortemente guarnecida, por-
que é sempre de temer a hostilidade de tribos selvagens; muitas 
delas, de armas na mão, ainda resistiam à colonização em pleno 
séc. XIX. Às vezes a guarnição é mesmo de tropa regular especial-
mente cedida pelas autoridades. E assim vai a frota, composta de 
dezenas de embarcações, navegando rio acima em demanda dos pontos 
favoráveis, às vezes a distâncias enormes da partida. Ega, p. ex., 
é o lugar de embarque das expedições que exploram os rios Japurá, 
Içá, Juruá, Jataí e Javari, num raio de centenas de quilômetros. 
Feito o carregamento, o que demora semanas e até meses, a expedi-
ção retorna: os índios são dispensados, pagos quase sempre, apesar 
das disposições legais em contrário, in natura; o empresário en-
trega o seu produto aos comerciantes que se incumbem de o despa-
char, rio abaixo, aos seus correspondentes do Pará, donde se ex-
portam. 
Outras atividades extrativas, como a colheita dos ovos de tar-
taruga de que se extrai um óleo empregado na iluminação e na ali-
mentação, e gênero de grande comércio, se fazem mais ou menos da 
mesma forma. A desova dos quelônios é nos meses de outubro e no-
vembro, quando em bandos incontáveis procuram certas praias de e-
leição e lá enterram seus ovos na areia onde o calor do sol os de-
ve chocar. A tarefa dos colhedores consiste simplesmente em es-
preitá-los, no momento oportuno, nestas praias que de antemão já 
conhecem, e depois que os animais, terminada a postura, se reti-
ram, ir desenterrar e recolher o produto. A preparação do óleo se 
faz imediatamente e nas próprias canoas que serviram para o trans-
porte dos colhedores. 
A pesca é mais sedentária, e mais continuadas as atividades 
que nela se empregam. A que se pratica da mão para a boca é natu-
ralmente geral: toda a população rural, que vive à beira dos rios, 
aproveita suas águas abundantes e a habilidade que traz no sangue. 
O peixe é seu alimento básico. Mas a par desta pesca, há outras de 
maior vulto, organizadas comercialmente. Realizam-se nos "pesquei-
ros", instalações onde se captura, prepara e salga o peixe para a 
venda. Alguns são temporários, montando-se em lugar e época indi-
cados para determinada pesca. Mais freqüentes contudo, e mais im-
portantes são os pesqueiros fixos que às vezes atingem grande vul-
to, como o maior de todos, o do Lago Grande de Vila Franca, na a-
tual cidade deste nome, onde em dois anos se mataram, só de tarta-
rugas e peixes-bois
13
, 8.500 exemplares. 
Há pesqueiros particulares; há também os Reais, que se explo-
ram por conta do Erário público. A mão-de-obra é naturalmente sem-
pre o índio. O peixe é fornecido salgado, e em maior quantidade 
seco; e constitui uma das maiores exportações da região. 
Tais são, em suma, os traços principais e mais característicos 
deste gênero de vida de colheita natural que forma a principal e 
quase única base de colonização do vale amazônico. Os resultados 
que apresenta são, em conjunto, muito pequenos. A instabilidade e 
incerteza de vida que aquelas formas de atividades determinaram, o 
complexo problema da assimilação de grandes massas indígenas que 
indiretamente provocam, fazem da colonização amazonense muito mais 
uma aventura que a constituição de uma sociedade estável e organi-
zada. Os caracteres gerais da colonização brasileira, esta empresa 
exploradora dos trópicos, se revelam aí em toda sua crueza e bru-
talidade. Não viriam atenuá-los, como em outras partes da colônia, 
elementos paralelos e concorrentes que frutificariam com o tempo, 
dando formas sociais mais orgânicas e elevadas. A evolução brasi-
leira, de simples colônia tropical para nação, tão difícil e dolo-
rosa, e cujo processo, mesmo em nossos dias, ainda não se comple-
tou, seria lá muito retardada. A Amazônia ficou, neste sentido, 
muito atrás das demais regiões ocupadas e colonizadas do territó-
rio brasileiro. 
Quanto a seus resultados materiais, eles também são minguados. 
É frisante o contraste entre o que apresentam e o que deles espe-
rava a imaginação escaldante do branco europeu em contacto com os 
trópicos. A exploração das reservas naturais da imensa floresta 
 
13 Este é um mamífero aquático de grandes dimensões e carne muito saborosa, de 
natureza dócil e por isso fácil de ser apanhado. Foi destruído em larga escala, 
e hoje praticamente desapareceu. 
que se supunha esconder tesouros incalculáveis, não deu mais que 
uns miseráveis produtos de expressão comercial mínima e em quanti-
dades restritas.