Historia Economica do Brasil
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lá onde era possível produzir aqueles gêneros e se pudessem entre-
gá-los com mais facilidade ao comércio internacional. Na organiza-
ção propriamente econômica, na sua estrutura, organização da pro-
priedade e do trabalho, encontramos ainda, dominante, aquela in-
fluência. E finalmente, neste quadro que sumaria as correntes do 
comércio colonial, e com elas a natureza da nossa economia, é a 
mesma coisa que se verificará. 
Vemos nele a grande corrente de exportação dos produtos tropi-
cais, do ouro e dos diamantes que se destinam, via metrópole, ao 
abastecimento do comércio internacional: é este o eixo das ativi-
dades coloniais, eixo em torno de que se agrupam todos os seus de-
mais elementos. Em função dele, dispor-se-ão os outros setores a-
cessórios do comércio da colônia, e que não têm outro fim que ali-
mentar e amparar aquela corrente fundamental. O tráfico africano, 
em primeiro lugar, que fornece a mão-de-obra com que se produzem 
aqueles gêneros que a constituem; vem depois o abastecimento de 
produtos necessários à subsistência da população direta ou indire-
tamente aplicada na produção deles. Em proporções ínfimas, os que 
fazem um pouco mais agradável a vida daquelas que dirigem a empre-
sa. É isto, em substância e nas finalidades, o comércio da colô-
nia. 
Portugal, que se coloca a meio caminho daquela grande corrente 
de produtos tropicais, de ouro e de diamantes, far-se-á inter-
mediário imposto entre a colônia produtora e os mercados de consu-
mo. Enquanto mantém sua posição privilegiada de metrópole, prestes 
aliás a se extinguir no momento que nos ocupa, fruirá dela no má-
ximo: é graças a isto somente que contará como quantidade ponderá-
vel no concerto europeu. Os dados do comércio português da época 
são a este respeito meridianamente claros. Cerca de dois terços da 
exportação do Reino para outros países se fazia com mercadorias da 
colônia; e os dados conhecidos não incluem o ouro e os diamantes, 
cuja produção, embora decadente no período que nos ocupa, contri-
buía ainda razoavelmente para a riqueza da metrópole. Ela se aper-
ceberá aliás muito bem do que lhe trazia a colônia americana quan-
do esta começa a se desprender. Com a transferência da corte por-
tuguesa para o Brasil em 1808, abertos os portos da colônia logo 
em seguida, e rotos, se não legalmente, pelo menos de fato os la-
ços que a prendiam a Portugal, este sofrerá um abalo profundo de 
que não se erguerá mais; De grande potência que fora no passado 
(sée XVI), de medíocre em seguida, passará então definitivamente 
para um dos últimos lugares da Europa. 
A ERA DO LIBERALISMO 
1808-1850 
 
 
 
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Libertação Econômica 
 
 
 
 
OS DOMÍNIOS coloniais ibéricos, isto é, das coroas espanhola e 
portuguesa representam, pode-se dizer que desde o séc. XVII, mas 
sobretudo no seguinte, um anacronismo. As duas decadentes monar-
quias ainda conservavam a maior e melhor parte de seus imensos do-
mínios, incorporados na fase brilhante de sua história: sécs. XV e 
XVI. Situação anômala, porque já não correspondia mais ao equilí-
brio mundial de forças econômicas e políticas. Depois daquele pas-
sado já remoto do apogeu luso-espanhol, outras potências tinham 
vindo ocupar o primeiro lugar no plano internacional: os Países-
Baixos, a Inglaterra, a França. No entanto, os domínios ibéricos 
ainda formavam os maiores impérios coloniais. Corpos imensos de 
cabeças pequenas... Sustentara-se a situação graças sobretudo às 
rivalidades e lutas que dividiam aquelas grandes potências. No 
séc. XVIII, uma delas, os Países-Baixos, é ofuscada; mas permane-
cem em campo a Inglaterra e França, digladiando-se sem cessar. É 
esta rivalidade que será a mais efetiva proteção dos impérios ibé-
ricos. Cada uma das duas monarquias se ampara num dos contendores: 
a Espanha, na França, Portugal, na Inglaterra. Foi-lhes possível 
assim atravessar mais ou menos incólumes um século de lutas, não 
sem sofrer por vezes amputações de certa gravidade. 
A situação voltar-se-á inteiramente contra as monarquias ibé-
ricas na segunda metade do séc. XVIII. O antigo sistema colonial, 
fundado naquilo que se convencionou chamar o pacto colonial, e que 
representa o exclusivismo do comércio das colônias para as respec-
tivas metrópoles, entra em declínio. Prende-se isto a uma trans-
formação econômica profunda: é o aparecimento do capitalismo in-
dustrial em substituição ao antigo e decadente capitalismo comer-
cial. 
Até o séc. XVII o capital que domina de uma forma quase pura é 
o comercial. A indústria ainda não entrara na fase capitalista e 
se acha inteiramente nas mãos do artesanato. É apenas excepcional-
mente que encontramos neste setor algumas primeiras formas de ca-
pitalismo, como na indústria têxtil dos Países-Baixos. Mas trata-
se, ainda aí, do capital comercial, que fornecendo a matéria-prima 
aos artesãos e vendendo seus produtos acabados, interpõe-se como 
simples intermediário entre o produtor e o mercado. 
Somente no séc. XVIII se esboça um verdadeiro capitalismo in-
dustrial, isto é, aparece um capital industrial propriamente dito, 
autônomo e independente do comercial, e dedicado exclusivamente à 
produção manufatureira. É então que vai desaparecendo o artesão, o 
pequeno produtor independente que trabalha diretamente para o con-
sumidor \u2014 excepcionalmente, como referi, para o grande comerciante 
\u2014, e que é substituído pelas grandes unidades produtoras, as manu-
faturas propriamente que reúnem grande número de trabalhadores, já 
agora simples assalariados, sob a direção de um patrão que dispõe 
do capital. 
A indústria capitalista toma logo tamanho vulto que ofusca o 
capitalismo comercial e assume cada vez mais o domínio da economia 
européia. Resultará daí o declínio do antigo sistema colonial re-
presentado pelo pacto que é uma expressão perfeita do capitalismo 
comercial. O interesse do comércio no pacto é óbvio, pois o fim 
deste não é senão reservar para a metrópole, e portanto a seus co-
merciantes, o privilégio das transações coloniais em prejuízo dos 
concorrentes estrangeiros. E por isso o pacto se mantém enquanto o 
capital comercial domina. Mas para o industrial, sem interesse di-
reto no comércio, e cujo único objetivo é colocar seus produtos, a 
situação criada pelo pacto é desfavorável. O monopólio comercial, 
de que não participa porque não é comerciante, não lhe traz bene-
fício algum; e pelo contrário, restringindo as relações mercantis, 
efeito necessário de qualquer monopólio, dificulta seu acesso aos 
mercados que é tudo quanto o interessa. Para o industrial \u2014 natu-
ralmente o industrial dessa primeira fase em que os mercados não 
faltam e quando o único problema é chegar a eles \u2014, só pode haver 
um ideal: é um comércio absolutamente livre que estabeleça o maior 
intercâmbio possível, seja por quem for, nacional ou estrangeiro, 
entre sua produção e os mercados mundiais. 
O progresso do capitalismo industrial na segunda metade do 
séc. XVIII voltar-se-á assim contra todos os monopólios; e a des-
truição completa destes parece cada vez mais como condição neces-
sária do seu desenvolvimento. Os impérios coloniais ibéricos, fun-
dados puramente no monopólio, achavam-se por isso condenados. 
Transformarem-se, adaptando-se à nova situação \u2014 como fez a Ingla-
terra com seus domínios, e também, embora menos acentuadamente a 
França \u2014, não lhes era possível. Sua indústria não se desenvolve-
ra, suas atividades giravam exclusivamente em torno do comércio 
colonial. Não podiam abrir mão de um privilégio que representava 
sua própria razão de ser, constituía o cimento aglutinador de seus 
vastos domínios. E assim, quando em fins do sec. XVIII