Historia Economica do Brasil
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os confli-
tos internacionais se agravam, arrastando as monarquias ibéricas, 
elas não resistirão ao choque, e seu império se desagrega. Desta 
desagregação sairá a independência das colônias americanas; e para 
o mundo em geral, uma nova ordem. Terá sido removido afinal este 
obstáculo de dois impérios imensos que fechados hermeticamente 
dentro de um conservantismo colonial obsoleto, estavam obstruindo 
a marcha dos acontecimentos mundiais. Aos estanques impérios ibé-
ricos substituir-se-ão as livres nações ibero-americanas, abertas 
ao comércio e intercurso do universo. Desafogava-se o mundo, livre 
daqueles tropeços imensos que lhe embargavam o desenvolvimento. 
A par destas forças exteriores e gerais que condicionam a li-
bertação do Brasil, existem outras, internas, que lhes vieram ao 
encontro. Analisei no capítulo anterior a situação da colônia re-
lativamente à sua metrópole, e por aí já se pôde verificar que 
Portugal chegara nestas relações ao limite extremo de sua capaci-
dade realizadora e colonizadora. A sua obra, neste terreno, acha-
va-se terminada; e o Reino se tornara em simples parasito de sua 
colônia. Protegido pelo monopólio comercial, impunha-se como in-
termediário forçado das suas transações, tanto na exportação como 
na importação. Simples intermediário, de fato, porque o Reino não 
era nem consumidor apreciável dos produtos coloniais que se desti-
navam sobretudo a outros mercados, nem fornecedor dos artigos con-
sumidos no Brasil. Simples intermediário imposto e parasitário. 
Não é difícil avaliar como seria pesado para a colônia este 
domínio de uma metrópole empobrecida, e de recursos econômicos mí-
nimos. Nem aquele papel medíocre de mero intermediário ela estava 
em condições de preencher satisfatoriamente. A arruinada marinha 
mercante portuguesa atendia muito insuficientemente às necessida-
des da colônia; o que explica aliás o escandaloso contrabando re-
ferido anteriormente e a tolerância com que era admitido. E para 
proteger e manter este ineficiente comércio, Portugal via-se na 
contingência de impor à colônia as mais drásticas e severas medi-
das restritivas; impedir que ela substituísse com produção própria 
tudo quanto alimentava o comércio marítimo metropolitano: manufa-
turas, sal e outros gêneros vitais para a economia brasileira. Sem 
contar outros privilégios e monopólios que embaraçavam considera-
velmente seu progresso. 
O regime colonial representa assim no momento que nos ocupa, 
um obstáculo intolerável oposto ao desenvolvimento do pais. A si-
tuação se tornara tanto mais grave que por efeito dos estímulos 
que vimos anteriormente, as forças produtivas do Brasil se encon-
travam em franca expansão; sentiam-se assim muito mais vivamente, 
às restrições de que o país era vítima. Será pelo favor de cir-
cunstâncias internacionais que este sistema de restrições cairá 
por terra; a começar pelo monopólio do comércio externo que é abo-
lido em virtude de circunstâncias quase fortuitas. Mas, iniciada 
por aí a desagregação do regime colonial, o resto não tardará. Se-
rá toda a estrutura que nos vinha de três séculos de formação co-
lonial que é abalada: depois do monopólio do comércio externo e 
dos demais privilégios econômicos, virão os privilégios políticos 
e sociais, os quadros administrativos e jurídicos do país. Mais 
profundamente ainda, será abalada a própria estrutura tradicional 
de classes e mesmo o regime servil. Finalmente é o conjunto todo 
que efetivamente fundamenta e condiciona o resto que entra em cri-
se: a estrutura econômica básica de um país colonial que produz 
para exportar e que se organizara, não para atender a necessidades 
próprias, mas para servir a interesses estranhos. É na base das 
contradições geradas por este sistema que resultará a paulatina 
transformação do regime, em todos seus aspectos, de colônia em na-
ção. 
Todas estas transformações encontram-se mais ou menos maduras 
quando pelo favor de circunstâncias de caráter internacional que 
ocorrem nos primeiros anos do século passado, apresenta-se oportu-
nidade favorável à sua eclosão. Desencadeiam-se então as forças 
renovadoras latentes que daí por diante se afirmarão cada vez mais 
no sentido de transformarem a antiga colônia numa comunidade na-
cional e autônoma. Será um processo demorado \u2014 em nossos dias ain-
da não se completou \u2014, evoluindo com intermitências e através de 
uma sucessão de arrancos bruscos, paradas e mesmo recuos. 
É esta a linha de desenvolvimento que caracteriza a evolução 
brasileira desde princípios do século passado. Restringindo-nos 
embora unicamente a seus aspectos econômicos (que são o objeto 
deste trabalho), procuraremos acompanhá-la neste capítulo e nos 
que seguem. 
Em 1807, para forçar a adesão de Portugal ao bloqueio conti-
nental decretado contra a Inglaterra, os exércitos napoleônicos 
invadem e ocupam o Reino. O Regente D. João, que governava em nome 
de sua mãe demente, a Rainha D. Maria, resolve, depois de longas 
hesitações entre a adesão ao sistema napoleônico e a fidelidade à 
sua aliada tradicional, a Inglaterra, emigrar para sua colônia a-
mericana. Fugindo diante do invasor, transporta-se com sua corte, 
grande parte do funcionalismo e uma comitiva imensa, (um total de 
cerca de 10.000 pessoas) para o Rio de Janeiro, que se transforma 
assim, de um momento para outro, em sede da monarquia portuguesa. 
Este acontecimento, das mais largas conseqüências, seria o 
precursor imediato da independência do Brasil. É impossível deter-
mo-nos aqui, sem sair do nosso assunto, nas diferentes reper-
cussões de ordem política e social que ocasionou a transferência 
da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Interessam-nos somente 
as econômicas; são aliás as mais importantes e fundamentais. Dei-
xando o Reino europeu ocupado pelos franceses, e fixando-se na co-
lônia, o soberano rompia efetivamente todos os laços que ligavam o 
Brasil à sua metrópole. O mais seguiria quase automaticamente des-
ta situação imprevista e revolucionária. 
É assim que o Regente, apenas desembarcado em terra brasi-
leira, e ainda na Bahia onde arribara em escala para o Rio de Ja-
neiro, assina o decreto que abre os portos da colônia a todas as 
nações, franqueando-os ao comércio internacional livre. Destruía-
se assim, de um golpe, a base essencial em que assentava o domínio 
colonial português. Medida de tamanho alcance, tomada assim de a-
fogadilho, explica-se pelas circunstâncias do momento, pois o co-
mércio português ultramarino achava-se virtualmente interrompido 
pela ocupação inimiga do território metropolitano; e a menos de 
isolar completamente o Brasil do mundo exterior, não havia senão 
franqueá-lo ao comércio e à navegação de outros países. A medida 
foi aliás tomada em caráter provisório (o texto do decreto o de-
clara expressamente); e isto já mostra que não foi ditada por ne-
nhuma alta consideração política ou por uma nova orientação impri-
mida deliberadamente aos negócios coloniais, mas por simples con-
tingências imperiosas do momento. Manter-se-á em vigor mesmo de-
pois que os exércitos napoleônicos são definitivamente expulsos do 
território português (1809); mas isto é porque já não era mais 
possível voltar atrás. 
É preciso lembrar aqui o papel da Inglaterra em todos estes 
acontecimentos. No conflito com Napoleão, que depois da ascensão 
de José Bonaparte ao trono espanhol e do tratado de Tilsit reunira 
a Europa toda no seu sistema de dominação continental, restara à 
Inglaterra apenas o aliado português. Aliado precioso, não somente 
pela brecha que por aí se abrira no bloqueio napoleônico, como pe-
la base que os portos portugueses ofereciam para a esquadra britâ-