Historia Economica do Brasil
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em nosso câmbio até a última guerra), 70 dinheiros; em 1822 já es-
tava a 49; e em 1850 caíra para 28, já tendo estado antes (em 
1831) a 20, mínimo do período que nos ocupa. É somente na segunda 
metade do século que se conseguirá uma relativa estabilidade por 
motivos que ainda havemos de analisar. 
Outra grave perturbação provocada pela fraqueza comercial, o-
correrá em certos setores da produção nacional. Afora a produção 
dos gêneros destinados à exportação, a economia brasileira não po-
derá concorrer com as mercadorias importadas do estrangeiro. Ao 
decretar-se a liberdade do comércio estabelecera-se, como vimos, 
uma pauta geral ad valorem de 24% sobre todas as importações. Veio 
depois a tarifa preferencial outorgada à Inglaterra de 15%, privi-
légio concedido com caráter permanente e que o Império independen-
te respeitará. E assim, quando o Brasil depois da Independência 
assinou tratados de comércio com as demais nações
31
, foi obrigado a 
conceder-lhes igual tratamento, pois a situação anterior de desi-
gualdade em favor da Inglaterra em nada beneficiava o país e ape-
nas assegurava um quase monopólio aos ingleses. 
Ficou portanto estabelecida na taxa ínfima de 15% a pauta ge-
ral das alfândegas brasileiras
32
. Só em 1844 ela será modificada, 
contra os veementes protestos, aliás, das nações estrangeiras, da 
Inglaterra em particular. Mas enquanto perdurou a tarifa primiti-
va, tornou-se impossível desenvolver a produção nacional num país 
como o Brasil, pobre de recursos, de defeituosa organização produ-
tiva, frente à concorrência quase sem restrições da produção es-
trangeira. A produção brasileira reduzir-se-á cada vez mais aos 
poucos gêneros de sua especialidade e que se destinavam à exporta-
ção. Prolongava-se e se agravava assim, embora por efeito de ou-
tras circunstâncias, o sistema econômico colonial a que já nos te-
mos repetidamente referido. O Brasil, já com tantas dificuldades 
para sair deste sistema que lhe tinham legado três séculos de for-
mação colonial, e em função de que se organizara a sua vida, as-
sistia agora a seu reforçamento: em lugar das restrições do regime 
de colônia, operava agora a liberdade comercial no sentido de res-
guardar e assegurar uma organização econômica disposta unicamente 
para produzir alguns poucos gêneros destinados à exportação. 
Aperfeiçoa-se e se completa mesmo tal sistema. Até a abertura 
dos portos, as deficiências do comércio português tinham operado 
como barreira protetora de uma pequena indústria local, pobre in-
dústria artesã, é verdade, mas assim mesmo suficiente para satis-
fazer a uma parte do consumo interno. Esta pequena indústria não 
poderá sobreviver à livre concorrência estrangeira, mesmo nos mais 
insignificantes artigos. A qualidade, os preços, a própria moda 
(fator que não se deve esquecer) farão desprezar seus produtos. 
Tudo passa a vir do estrangeiro; até caixões de defunto, refere um 
contemporâneo, chegar-nos-ão da Inglaterra já estofados e prontos 
para serem utilizados. E esta situação tenderá sempre a se agravar 
com o correr dos anos, graças ao aperfeiçoamento contínuo da in-
dústria européia e conseqüente barateamento e melhoria dos seus 
produtos. O artesão brasileiro, que por força das circunstâncias e 
ambiente desfavorável terá ficado nos seus modestos padrões do 
passado, perde terreno cada vez mais. 
É sobretudo interessante, neste particular, o caso das indús-
trias mais importantes do país, a manufatura de tecidos e a meta-
lurgia, que apesar de todos os obstáculos opostos pela política 
portuguesa com relação à colônia, tinham conseguido se estabelecer 
no Brasil. Vimos em capítulo anterior que lutando embora com as 
maiores dificuldades, mas contando com as vantagens de matéria-
prima abundante e mercados locais apreciáveis, aquelas duas indús-
trias vinham desde o séc. XVIII ensaiando seus primeiros e modes-
tos passos entre nós. A fixação da corte no Rio de Janeiro e a a-
bolição, logo em seguida, de todas as restrições legais até então 
 
31 Foram elas: França, Áustria, Prússia, Hamburgo, Lubeck, Bremen, Dinamarca, Es-
tados Unidos. Países-Baixos e Bélgica. 
32 Uma lei de 1828 estenderá esta pauta a todas as importações, independentemente 
de tratados. 
em vigor, bem como algumas medidas de fomento, tiveram inicial-
mente o efeito de as estimular. Pequenas manufaturas têxteis sur-
giram em diferente pontos de Minas Gerais, que era a província a 
este respeito mais avantajada, tanto pela relativa densidade da 
população e abundância da matéria-prima de produção local, como 
pelo seu afastamento dos portos e isolamento. Na metalurgia deu-se 
a mesma coisa; o interesse da administração se tornara grande na 
matéria, e contrataram-se pela primeira vez técnicos capazes \u2014 
dois alemães, Eschwege e Varnhagen \u2014 que respectivamente em Minas 
Gerais e São Paulo, organizaram empresas metalúrgicas de certa im-
portância, E seu exemplo é seguido por várias iniciativas priva-
das. 
Esses ensaios industriais que se apresentavam tão promissores 
foram contudo em breve baldados. A concorrência de mercadorias im-
portadas não tardará em inutilizá-los, e a indústria brasileira 
continuará a vegetar sem perspectiva alguma. Somente na segunda 
metade do século, como veremos, e quando a situação já se modifica 
sensivelmente, surgirão na indústria têxtil as primeiras manu-
faturas de certo vulto. Quanto à metalurgia, só em época muito re-
cente aparecerá qualquer coisa de apreciável. 
A liberdade comercial não terá apenas o efeito de comprometer 
o futuro desenvolvimento da produção indígena. Resultará em per-
turbações sociais importantes. A ruína da pequena indústria local, 
referida acima, lançará na desocupação um artesanato que embora 
modesto, reunia assim mesmo, sobretudo nos maiores centros urba-
nos, uma parte apreciável da população. Crescerão as dificuldades 
e a instabilidade desta camada social, já antes pouco próspera pe-
lo ambiente desfavorável de uma colônia de poucos recursos. E isto 
se refletirá em graves agitações sociais e políticas de que será 
teatro a época que nos ocupa. Passará muito tempo até que se rea-
juste aquela situação de desequilíbrio. 
Não é apenas tal categoria da população que será atingida as-
sim de cheio pela concorrência estrangeira. O comércio também so-
frerá; quase só ingleses a princípio, franceses e outros logo de-
pois, tornar-se-ão senhores absolutos deste ramo de atividades. 
Aos ingleses caberão sobretudo o grande comércio, as transações 
financeiras; aos franceses, o negócio de luxo e de modas. Os bra-
sileiros propriamente, isto é, os nativos da colônia, não sofrerão 
tanto com esta concorrência, pois sempre tinham sido portugueses 
que se ocupavam com o comércio; e depois de 1822 aqueles serão es-
trangeiros como os demais. Há contudo uma diferença, porque embora 
nascidos fora do Brasil, os portugueses representam uma categoria 
já perfeitamente entrosada na vida do país, o que não ocorre natu-
ralmente com os adventícios de data recente. A concorrência que 
sofrem reflete-se assim mais desvantajosamente na vida e na popu-
lação nacional. 
O resultado de tudo isto observar-se-á na eclosão e desenvol-
vimento de uma crescente animosidade contra o estrangeiro. Este, 
com seus recursos, sua iniciativa e oportunidade fáceis que encon-
tra em concorrência com os habitantes de uma pobre colônia que vi-
vera até então num estado de isolamento completo, gozará de vanta-
gens consideráveis, e se coloca logo em posição de grande relevo. 
Isto naturalmente não podia deixar de ferir melindres e interesses 
já estabelecidos, e desencadeia-se contra