Historia Economica do Brasil
280 pág.

Historia Economica do Brasil


DisciplinaFormação Econômica do Brasil884 materiais8.823 seguidores
Pré-visualização50 páginas
os estrangeiros uma hos-
tilidade geral. É o caso em particular dos ingleses, mais numero-
sos e de espírito mercantil mais acentuado, e que cedo se tornam 
verdadeiros árbitros da vida econômica do país. Além do comércio 
que lhes caberá nos seus setores mais importantes, serão deles as 
primeiras grandes empresas e iniciativas, como na mineração; e são 
deles ainda os empréstimos públicos que teriam tamanho papel na 
evolução econômica do Brasil. É em grande parte em função dos in-
teresses comerciais ingleses que se disporá a nova economia brasi-
leira. 
Ainda ocorrem outras circunstâncias provocadoras de desa-
justamento e derivadas da nova situação criada com a transferência 
da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. A súbita transformação 
dos hábitos, a introdução de um conforto e luxo desconhecidos ain-
da na colônia e trazidos por estrangeiros e seus costumes, bem co-
mo pelo exemplo de uma corte e seus fidalgos que todo mundo quer 
naturalmente imitar, desequilibrarão as finanças de certas classes 
da população que conformadas até então com a mediocridade da vida 
colonial, tomam-se subitamente de aspirações e sentem necessidades 
antes ignoradas, embora estivessem muitas vezes mal preparadas pa-
ra isto. A vaidade, sobrepondo-se a quaisquer outras considera-
ções, contará com um fator econômico de primeira ordem. Não serão 
poucos aqueles que se arruinarão na ânsia de se aproximarem da 
corte e nela figurarem, alcançarem títulos, condecorações e honra-
rias. Situação que o Rei, sempre em aperturas financeiras, não 
deixará de explorar largamente. 
Será este mais um fator a ser contado nas agitações e intran-
qüilidade que acompanham o processo da emancipação política da co-
lônia e se prolongam depois até meados do século. Mas não é apenas 
no setor privado que observaremos o desequilíbrio financeiro que 
provoca a irrupção de novas necessidades antes desconhecidas e que 
se tornam em pesado fardo. Mais grave ainda será o que se passa 
nas finanças públicas. Transferindo-se para o Brasil, o governo 
metropolitano trará consigo um complexo aparelhamento administra-
tivo que substituirá bruscamente, sem transição de qualquer espé-
cie, a reduzida administração que até então existia na colônia. 
Instalam-se aqui grandes repartições públicas e serviços da cor-
te.
33
 Centenas de funcionários, sem contar a chusma de palacianos 
que cercam o Trono e vivem direta ou indiretamente à custa das 
rendas públicas. As pobres finanças da colônia não estavam apare-
lhadas para tamanhos gastos. Há que acrescentar as guerras em que 
se empenhou o soberano português logo à sua chegada: no Prata (o-
cupação da Banda Oriental, hoje República do Uruguai), na Guiana 
francesa (ocupada em 1809). 
Parte das novas despesas representava necessidades impostas 
pela criação de serviços indispensáveis: ampliação das forças ar-
 
33 Notemos aliás a sua ineficiência na maior parte das vezes. Organizadas para um 
pequeno reino como Portugal, e para um vasto império ultramarino, não se amolda-
vam evidentemente às necessidades brasileiras, um grande pais é verdade, mas se-
midespovoado e primitivo. Condições tão especiais exigiam soluções administrati-
vas também novas. Isto não se fez; a administração da corte no Brasil será idên-
tica à de Lisboa. O seu elevado custo não será assim compensado por um rendimen-
to paralelo. 
madas, instrução pública, higiene, povoamento, abertura de novas 
estradas, obras de urbanismo no Rio de Janeiro, etc. Boa parte 
contudo, provavelmente a maior, não era mais que desperdício e 
destinava-se a sustentar os fidalgos que tinham acompanhado o so-
berano no exílio e que este entendia acertado premiar. Era eviden-
temente fardo excessivo para as débeis forças econômicas da colô-
nia. 
O império independente, que sob muitos aspectos não será mais 
que um prolongamento da situação anterior (conservar-se-á até mes-
mo a dinastia reinante em Portugal, sendo coroado imperador o her-
deiro presuntivo da coroa portuguesa), nada alterará neste assunto 
de que nos ocupamos. Permanecerão os mesmos quadros administrati-
vos, na maior parte das vezes até as mesmas pessoas; e os proces-
sos não se modificarão. Tudo isto até certo ponto se explica \u2014 em-
bora sem eliminar os danos financeiros e econômicos resultantes. 
Não era evidentemente possível governar e administrar um nação in-
dependente e soberana, prenhe de necessidades até então inatendi-
das, com o rudimentar aparelhamento administrativo da colônia, on-
de a justiça era um mito, a ordem legal precária, as forças arma-
das reduzidas e sem organização eficiente, a saúde pública, a ins-
trução, os serviços de fomento quase nulos, as relações externas 
inexistentes. Foi preciso criar tudo isto ou desenvolver o exis-
tente; e em meio de agitações internas e guerras externas (em 1826 
o Brasil teve de enfrentar as Províncias Unidas), que drenavam 
fortemente as finanças do Estado. Os compromissos públicos ainda 
se agravarão com os juros e amortizações de uma dívida contraída 
na Inglaterra em 1825, no valor de 3.000.000 de libras, que se di-
lapidaram em despesas mal controladas (em boa parte comissões de 
intermediários, agenciadores e banqueiros). Outros empréstimos ex-
ternos, aliás, virão a jacto contínuo.
34
 
Para fazer face a este aumento considerável de gastos, o Te-
souro público não contava com grande coisa. O sistema financeiro 
até então existente era excessivamente rudimentar e inelástico. 
Seria preciso uma remodelação completa; mas isto não se fez. Em 
parte por incapacidade (pois herdamos com os quadros admi-
nistrativos da metrópole, a rotina burocrática de uma nação deca-
dente como era Portugal); noutra, porque efetivamente não era fá-
cil organizar uma arrecadação eficiente num território tão vasto 
como o brasileiro, e parcamente habitado por uma população dis-
persa e mal estruturada. A renda mais segura e fácil de ser cobra-
da era constituída pelos impostos alfandegários que de fato produ-
ziam a maior parte da arrecadação pública. Mas esta fora limitada 
pelos tratados internacionais à taxa insignificante de 15% ad va-
lorem. 
 
34 400.000 libras em 1829; 312.000 em 1839; 732.000 em 1843; 1.040.600 em 1852. 
Isto para o período que nos ocupa. Depois virão outros mais. Estes empréstimos 
eram realizados em condições onerosíssimas, verdadeiras operações de agiotagem. 
O de 1829 bateu todos os recordes, pois se contratou ao tipo de 52! Das 400.000 
libras do valor nominal do empréstimo, o Brasil não receberia mais do que 
208.000. Os juros, nominalmente de 5%, alcançavam assim, de fato, quase 10%. Os 
banqueiros ingleses (foram quase sempre a casa Rothschild), conluiadas com os 
desonestos altos dignatários do Império, lançavam-se sem piedade sobre esta pre-
sa inerme que era a nação brasileira. 
Nestas condições, o Brasil viverá em deficit orçamentário for-
çoso e permanente. Desde a transferência da corte em 1808, pelos 
anos afora, as contas públicas saldar-se-ão cada ano, quase sem 
exceção, em débito.
35
 Isto se resolverá em regra pelo não pagamento 
sumário dos compromissos. Funcionalismo em atraso, dívidas prote-
ladas, são fatos não somente comuns na vida financeira do Brasil, 
mas antes a regra poucas vezes infringida. Outro expediente serão 
as emissões de papel-moeda de curso forçado que se sucedem a jacto 
contínuo; finalmente os empréstimos externos, pois dentro do país 
nem havia capitais para cobrir as necessidades do Tesouro público, 
nem este gozava de suficiente crédito para atrair prestamistas; os 
credores brasileiros não dispunham dos meios de coação