Historia Economica do Brasil
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do estran-
geiro para forçar o governo à satisfação de seus compromissos. Mas 
os empréstimos externos representam apenas alívio momentâneo: já 
vimos seus efeitos nocivos sobre o balanço externo de contas; eles 
não serão menos desfavoráveis com relação às finanças públicas, 
sobrecarregando-o em proporção crescente de compromissos que logo 
ultrapassam sua capacidade normal de pagamento. Em meados do sécu-
lo, o serviço das dívidas já absorvia quase 40% do total da recei-
ta. 
Cada qual destes expedientes terá suas conseqüências sobre que 
não é preciso insistir porque são as normais em casos semelhantes 
e já muito conhecidas: descrédito público, desvalorização da moe-
da, inflação, encarecimento da vida, etc. Todos eles, cada qual 
com sua quota própria, contribuirão para acentuar ainda mais e a-
gravar o geral desequilíbrio e instabilidade da vida econômica do 
país. 
Em suma, o que se verifica é que a transferência da corte por-
tuguesa para o Rio de Janeiro, a nova política por ela aqui inau-
gurada e a subseqüente emancipação da colônia, assinalam uma nova 
fase bem caracterizada em nossa evolução econômica. Embora se con-
serve a estrutura anterior e fundamental que presidiu à formação e 
evolução colonial brasileira (isto é, um organismo econômico pri-
mário, destinado a produzir alguns gêneros tropicais para o comér-
cio internacional), entramos então nitidamente num período dife-
rente do anterior. É aliás na base das contradições geradas por 
aquela estrutura na nova situação e ordem para ela criada, que e-
voluirão os acontecimentos. Existe um desacordo fundamental entre 
o sistema econômico legado pela colônia e as novas necessidades de 
uma nação livre e politicamente emancipada. Todos os desajustamen-
tos que passamos em revista \u2014 e poderíamos acrescentar outros de 
natureza política e social que não entram no programa deste livro 
\u2014 não são mais, em última instância, que reflexos e resultantes 
daquela contradição básica. Ela nos levará a uma evolução também 
contraditória: de um lado, como vimos, assistiremos à ampliação 
considerável das nossas forças produtivas e progresso material a-
centuado e rápido. Para este progresso concorrem também, é certo, 
fatores estranhos; assim, em particular, o desenvolvimento técnico 
 
35 Os números oficiais enganam freqüentemente quando indicam saldos, aliás raros. 
Nestes casos, examinando-se as coisas mais de perto, verifica-se que na receita 
são computadas importâncias provenientes de empréstimos; e as despesas aparecem 
reduzidas pela transferência dos pagamentos de um ano para outro. 
do séc. XIX que permitirá aparelhar convenientemente o país e im-
pulsionar suas atividades econômicas. A navegação a vapor (inaugu-
rada no Brasil em 1819), entre outros, terá considerável signifi-
cação neste país de larga extensão costeira, onde se concentra a 
maior parte da população, e de transportes terrestres tão difí-
ceis. A mesma coisa se dirá da mecanização das indústrias que per-
mitirá ampliar as atividades agrárias e outras; também das estra-
das de ferro, embora somente apareçam já no fim do período que ora 
nos ocupa em particular (1854). Assim mesmo contudo, a emancipação 
do Brasil representa um ponto de partida bem nítido para o novo 
surto econômico do país, porque dentro dos quadros políticos e ad-
ministrativos coloniais, e ligado a uma metrópole decadente que se 
tornara puramente parasitária, ela não encontraria horizontes para 
utilizar-se das facilidades que o mundo do séc. XIX lhe proporcio-
nava. 
Mas a par daquele progresso econômico sofremos também, como 
vimos, um desequilíbrio profundo que afeta todos os setores da 
nossa vida e que se agrava sem cessar. Esta situação se prolonga 
até meados do século, quando então, mercê de circunstâncias surgi-
das deste mesmo processo contraditório de evolução que acabamos de 
ver, entramos numa nova etapa de relativo ajustamento. Mas antes 
de analisarmos este reajustamento, acompanhemos a evolução da mais 
profunda e larga contradição desencadeada em conseqüência da nova 
situação criada pela transferência da corte: a questão do trabalho 
escravo, que pela sua importância particular deixamos para um ca-
pítulo à parte. 
103 
Crise do Regime Servil 
e Abolição do Tráfico 
 
 
 
 
O SISTEMA de trabalho servil atravessa nesta fase que nos ocu-
pa uma crise muito séria; prelúdio, embora muito antecipado ainda, 
de sua abolição final. O processo difícil e complicado da emanci-
pação política do Brasil, pondo em evidência todas as contradições 
do regime anterior, vai polarizar as forças políticas e sociais em 
gestação e desencadeia o embate, não raro de grande violência, en-
tre os diferentes grupos e classes em que se divide a sociedade 
colonial. Os escravos, apesar de sua massa que representa cerca de 
um terço da população total, não terão neste processo, ao contrá-
rio do ocorrido em situações semelhantes noutras colônias america-
nas, como por exemplo em São Domingos (Haiti), um papel ativo e de 
vanguarda. Acompanharão por vezes a luta, participarão debilmente 
de alguns movimentos, despertando aliás com isto grande terror nas 
demais camadas da população. Mas não assumirão por via de regra 
uma posição definida, nem sua ação terá continuidade e envergadu-
ra. Isto se deve sobretudo ao tráfico africano, que despejando 
continuamente no país (e nesta época em grandes proporções) novas 
e novas levas de africanos de baixo nível cultural, ignorantes a-
inda da língua e inteiramente desambientados, neutralizava a ação 
dos escravos já radicados no país e por isso mais capazes de ati-
tudes políticas coerentes. É preciso levar em conta também a divi-
são reinante entre grupos de escravos oriundos de nações africanas 
distintas e muitas vezes hostis umas às outras; coisa de que a ad-
ministração pública e os senhores sempre cuidaram muito, procuran-
do impedir a formação de aglomerações homogêneas. Na Bahia, por 
exemplo, onde chegou a haver na massa escrava certa unidade nacio-
nal (aliás de nações sudanesas de nível cultural mais elevado), é 
que vamos encontrar o maior número de agitações e revoltas servis. 
Seja como for, a participação dos escravos nos movimentos da 
época não terá vulto apreciável; e isto constituirá talvez o moti-
vo principal por que a estrutura fundamental da economia brasilei-
ra, assente como estava no trabalho deles, não sofre abalos sufi-
cientes para transformá-la desde logo. Contudo, mesmo esta débil 
participação e até, na falta dela, a simples presença desta massa 
de escravos surdamente hostis à ordem vigente num momento de agi-
tações e convulsão social, era o bastante para desencadear a crise 
do sistema servil e pôr em equação o problema da escravidão. 
Isto se observa particularmente na atitude que assumem, com 
relação a ele os diferentes setores da opinião pública. A escra-
vidão vai aceleradamente perdendo sua base moral, não somente na 
opinião comum, mas até em círculos conservadores. Logo depois da 
Independência já a vemos alvo da crítica geral. Aceita-se e se 
justifica, mas como uma "necessidade", um mal momentaneamente ine-
vitável. Ninguém ousa defendê-la abertamente; e seu desaparecimen-
to num futuro mais ou menos próximo é reconhecido fatal. A discus-
são se trava apenas em torno da oportunidade. Tal posição dúbia 
explica aliás a atitude incoerente e contraditória das opiniões da 
época: enquanto se critica a escravidão, sustenta-se energicamente 
sua manutenção; reconhecem-se seus males, mas raros ousam ainda 
combatê-la francamente e propor medidas efetivas e concretas para 
sua extinção. 
É que realmente a