Historia Economica do Brasil
280 pág.

Historia Economica do Brasil


DisciplinaFormação Econômica do Brasil957 materiais9.214 seguidores
Pré-visualização50 páginas
ofereciam a-
 
43 Acima dele vêm, nesta mesma ordem: Cuba, Egito, Java, Maurício. 
44 É sobretudo no tráfico mantido pela Bahia com as regiões africanas ao norte do 
Equador (proibido, como vimos, depois de 1815), que se empregava o tabaco como 
mercadoria de escambo. 
trativos suficientes para esta nova corrente de colonos. 
Mas o que sobretudo favoreceu o Sul em contraste com o Norte, 
é que nele se aclimatou admiravelmente a cultura de um gênero que 
se tornaria no correr do séc. XIX de particular importância comer-
cial: o café. Apesar de sua relativa antigüidade no país (pois foi 
introduzido em 1727), a cultura do café não representa nada de a-
preciável até os primeiros anos do século passado. Disseminara-se 
largamente no país, do Pará a Santa Catarina, do litoral até o al-
to interior (Goiás); mas apesar desta larga área de difusão geo-
gráfica, o cafeeiro tem uma expressão mínima no balanço da econo-
mia brasileira. Sua cultura, aliás, destina-se mais ao consumo do-
méstico das fazendas e propriedades em que se encontra, e quando 
muito local. Comercialmente seu valor é quase nulo. 
Não era mesmo grande na época a aceitação do café. É somente 
no correr do século XVIII que ele adquire importância nos mercados 
internacionais, tornando-se então o principal alimento de luxo nos 
países do Ocidente. E é isto que estimulará largamente sua cultura 
nas colônias tropicais da América e Ásia. O Brasil entrará muito 
tarde para a lista dos grandes produtores; em princípios do século 
XIX ainda ocupa posição muito modesta. Explica-se pelo fato de ter 
sido o séc. XVIII absorvido pela mineração; a agricultura não des-
pertava grande interesse, e muito menos uma cultura nova que não 
fizera ainda sua experiência. É o renascimento da agricultura em 
fins daquele século que despertará as atenções para o café. Pouco 
de início: a cana-de-açúcar e o algodão ainda estavam no seu apo-
geu. Mesmo nas regiões do Centro-Sul do país onde o café se difun-
diria mais tarde tão largamente, ele será desprezado em benefício 
do açúcar. 
Mas não tardará que as esplêndidas possibilidades naturais do 
Brasil, tanto em clima como em solos favoráveis, se aproveitem em 
favor de um produto que rapidamente ganhava terreno na cotação do 
comércio internacional. É preciso lembrar aqui um fator que parti-
cularmente estimulará a produção brasileira. É a libertação e de-
senvolvimento do mercado norte-americano. As colônias inglesas da 
América do Norte, separando-se em 1786 da sua metrópole, inauguram 
então uma política econômica própria e independente dos interesses 
ingleses e europeus em geral
45
. Surgia deste lado do Atlântico uma 
nova potência internacional. O comércio cafeeiro também sentirá o 
influxo deste novo equilíbrio de forças. Os grandes produtores ti-
nham sido, até então, as Índias Ocidentais sob o domínio direto ou 
indireto da Inglaterra; e a Insulásia, em particular Java e Suma-
tra, colônias neerlandesas. Os centros controladores do comércio 
internacional do café eram por isso Londres e Amsterdam \u2014 este úl-
timo com sua conhecida ligação e dependência do primeiro. 
Os Estados Unidos, grandes consumidores de café, voltar-se-ão 
por isso logo, de preferência, para novos produtores mais livres 
da dominação britânica. Em particular o Brasil, favorecido além do 
mais, com relação a eles, pela sua posição geográfica. A produção 
brasileira de café encontrará nos Estados Unidos um de seus prin-
cipais mercados; em meados do século, quando o café se torna o 
 
45 Notemos de passagem que não é isto que se observou nas demais colônias ameri-
canas, no Brasil inclusive. 
grande artigo da exportação brasileira, aquele país absorverá mais 
de 50% dela. E esta porcentagem ainda crescerá com o tempo. 
Não existem dados muito seguros das primeiras exportações de 
café brasileiro; mas alguns deles nos podem dar uma idéia da rapi-
dez com que se desenvolveram. O Rio de Janeiro, que será durante 
três quartos de século o principal produtor, não exportou em 1779 
mais que a insignificância de 79 arrobas que se embarcaram para 
Lisboa e Porto. Em 1796 a exportação já era de 8.495 arrobas, para 
atingir, em 1806, 82.245
46
. 
Este rápido progresso é tanto mais de admirar que o café, ao 
contrário da produção dos outros gêneros clássicos do Brasil, ofe-
rece particulares dificuldades. Em primeiro lugar, de natureza fí-
sica: o café, em confronto com a cana-de-açúcar, é uma planta de-
licada. Os limites de temperatura dentro dos quais prospera fa-
voravelmente são muito estreitos: 5 e 33.° C. O cafeeiro é muito 
sensível tanto às geadas como ao calor e insolação excessivos. Re-
quer doutro lado chuvas regulares e bem distribuídas, e é muito 
exigente com relação à qualidade do solo. Finalmente, ao contrário 
da cana-de-açúcar e também do algodão, é uma planta permanente e 
tem de atravessar por isso todas as estações e anos sucessivos sem 
substituição. Outra dificuldade da lavoura cafeeira é que a planta 
somente começa a produzir ao cabo de 4 a 5 anos de crescimento; é 
um longo prazo de espera que exige pois maiores inversões de capi-
tal. 
Tudo isto contribuirá para que o Norte fique logo em atraso 
com relação ao Sul no que diz respeito à cultura do café, embora 
tenha tido lá o seu início no Brasil. Sem contar que naquele pri-
meiro setor já existia uma longa tradição agrícola canavieira e 
algodoeira que embaraçará naturalmente a aceitação do café. Este 
encontrará no Sul condições que se podem considerar ideais. Além 
de grandes reservas de terras virgens e inexploradas com solos 
magníficos, um clima que não lhe podia ser mais favorável: tem-
peraturas amenas, pluviosidade bem distribuída. Haverá sempre no 
Norte uma pequena produção de café: no Pará, no Ceará, em Pernam-
buco; na Bahia também, não em sua velha região açucareira, no Re-
côncavo, mas no Extremo-Sul da província: Ilhéus e Porto Seguro. 
Mas, tudo isto contará sempre muito pouco. É no Rio de Janeiro so-
bretudo, logo depois nas regiões contíguas de Minas Gerais e São 
Paulo, e finalmente no Espírito Santo (este último com índices já 
muito menores) que se localiza realmente a riqueza cafeeira do 
Brasil. 
Seu ponto de partida será na vizinhança próxima do litoral. As 
montanhas que circundavam a cidade do Rio de Janeiro e em cujos 
vales ela hoje se estende, é onde se fizeram as primeiras planta-
ções. As matas da Tijuca, hoje um dos mais importantes e aprazí-
veis arrabaldes da ex-capital, já foram cafezais. Para o sul do 
Rio de Janeiro onde a serra que aqui acompanha o litoral se apro-
 
46 Depois de 1821 a exportação brasileira em milhares de sacas de 60 kg foi, por 
decênios, a seguinte: 
 1821-30 ........ 3.178 1861-70 ........ 29.103 
 1831-40 ........ 10.430 1871-80 ........ 32.509 
 1841-50 ........ 18.367 1881-90 ........ 51.631 
 1851-60 ........ 27.339 
xima do mar até mergulhar diretamente nele, os cafezais lhe vão 
revestindo a encosta. Assim na altura de Angra-dos-Reis e Parati; 
e na província de São Paulo, em Ubatuba, Caraguatatuba e São Se-
bastião. Esta faixa costeira, já em princípios do século passado, 
é uma importante zona produtora. 
Mas tudo isto é apenas um pequeno começo; o primeiro grande ce-
nário da lavoura cafeeira no Brasil é o vale do rio Paraíba, no seu 
médio e depois alto-curso. As condições naturais são aí esplêndi-
das. Uma altitude que oscila entre 300 e 900 m mantém a temperatu-
ra, embora em latitude tropical, dentro dos limites ideais para a 
planta, e regulariza as precipitações.