Historia Economica do Brasil
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ocidente, e internando-
se, avança progressivamente para o Rio Paraná. Mas isto já será um 
pouco mais tarde que o período que ora temos em vista. A ocupação 
do Centro e Extremo-Oeste da província (Estado, depois da Repúbli-
ca proclamada em 1889) pertence sobretudo ao século atual. 
Em matéria de organização, a lavoura cafeeira seguiu os moldes 
tradicionais e clássicos da agricultura do país: a exploração em 
larga escada, tipo "plantação" (a plantation dos economistas in-
gleses), fundada na grande propriedade monocultural trabalhada por 
escravos negros, substituídos mais tarde, como veremos noutro ca-
pítulo, por trabalhadores assalariados. Contribuem para fixar este 
sistema de organização as mesmas circunstâncias assinaladas para 
as demais culturas brasileiras. Reforçam-nas aliás agora, a tradi-
ção já formada no país e seu regime social; sem contar que o cafe-
eiro, sendo uma planta de produção retardada, exige para seu cul-
tivo maior inversão de capitais. Torna-se assim ainda menos aces-
sível ao pequeno proprietário e produtor modesto. 
A importância e extensão dos domínios cafeeiros será naturalmente 
muito variável. De início encontram-se lavouras de algumas dezenas 
de mil plantas no máximo. O primeiro setor explorado \u2014 o vale do 
Paraíba e suas adjacências \u2014 não se prestava mesmo, devido à con-
formação irregular e variedade do terreno, a concentrações maio-
res
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. Tratava-se além disto dos primeiros tempos da grande lavoura 
cafeeira, e nem o capital nem a mão-de-obra disponíveis e a expe-
riência acumulada bastavam ainda para empresas de maior vulto. Es-
tas começarão a se formar com mais freqüência nas zonas novas do 
oeste paulista. Instalam-se aí muito cedo propriedades que reúnem 
centenas de milhares de plantas. E lá pelos fins do século, come-
çam a surgir fazendas imensas que ultrapassam o milhão
49
. 
Além das plantações, a fazenda conta com diferentes insta-
lações e dependências que fazem dela um conjunto complexo, vultoso 
e em grande parte auto-suficiente. É a repetição do que já se ob-
servara nos engenhos de açúcar. Assim, as destinadas ao preparo e 
beneficiamento do produto: tanques onde o grão é lavado logo de-
pois da colheita, terreiros onde ele é exposto ao sol para secar, 
máquinas de decorticação, triagem, etc. Além destas, a residência 
do proprietário (em regra absentista, mais visitando sua proprie-
dade na época da colheita, de maio a agosto), a senzala dos escra-
vos (grande edificação térrea com os alojamentos dispostos ao re-
dor de um pátio central) ou "colônias" de trabalhadores livres, 
agrupamento de casinholas em geral alinhadas ao longo de uma rua e 
dando o aspecto de uma pequena aldeia; finalmente as cocheiras, 
estrebarias e oficinas diversas de carpintaria, ferreiro, etc. Tu-
do isto forma uma aglomeração que nas fazendas importantes toma 
grande vulto, abrindo uma clareira de habitações e edificações em 
meio da floresta de cafeeiros que as cerca de todos os lados. Exa-
tamente como o engenho de açúcar, a fazenda de café é um mundo em 
miniatura quase independente e isolado do exterior, e vivendo in-
teiramente para a produção do seu gênero. 
A lavoura do café marca na evolução econômica do Brasil um pe-
ríodo bem caracterizado. Durante três quartos de século concentra-
se nela quase toda a riqueza do país; e mesmo em termos absolutos 
ela é notável: o Brasil é o grande produtor mundial, com um quase 
monopólio, de um gênero que tomará o primeiro lugar entre os pro-
dutos primários no comércio internacional. A frase famosa, "o Bra-
sil é o café", pronunciada no Parlamento do Império e depois lar-
gamente vulgarizada, correspondia então legitimamente a uma reali-
dade: tanto dentro do país como no conceito internacional o Brasil 
era efetivamente, e só, o café. Vivendo exclusivamente da exporta-
ção, somente o café contava seriamente na economia brasileira. Pa-
ra aquela exportação, o precioso grão chegou a contribuir com mais 
de 70% do valor. 
Social e politicamente foi a mesma coisa. O café deu origem, 
cronologicamente, à última das três grandes aristocracias do país, 
 
48 O que não impede, como freqüentemente acontecia, o caso de um mesmo proprietá-
rio para muitas propriedades ou fazendas diferentes. 
49 Chegará a mais de 3 milhões de pés a maior fazenda brasileira de café. É a fa-
zenda S. Martinho, da família Silva Prado, na região de Ribeirão Preto, aberta 
no penúltimo decênio do século e que atinge aquela cifra de plantações no século 
atual. 
depois dos senhores de engenho e dos grandes mineradores, os fa-
zendeiros de café se tornam a elite social brasileira. E em con-
seqüência (uma vez que o país já era livre e soberano) na política 
também. O grande papel que São Paulo foi conquistando no cenário 
político do Brasil, até chegar à sua liderança efetiva, se fez à 
custa do café; e na vanguarda deste movimento de ascensão, e im-
pulsionando-o, marcham os fazendeiros e seus interesses. Quase to-
dos os maiores fatos econômicos, sociais e políticos do Brasil, 
desde meados do século passado até o terceiro decênio do atual, se 
desenrolam em função da lavoura cafeeira: foi assim com o des-
locamento de populações de todas as partes do país, mas em par-
ticular do Norte, para o Sul, e São Paulo especialmente; o mesmo 
com a maciça imigração européia e a abolição da escravidão; a pró-
pria Federação e a República mergulham suas raízes profundas neste 
solo fecundo onde vicejou o último soberano, até data muito recen-
te, do Brasil econômico: o rei café, destronador do açúcar, do ou-
ro e diamantes, do algodão, que lhe tinham ocupado o lugar no pas-
sado. 
17 
Novo Equilíbrio Econômico 
 
 
 
 
O CONSIDERÁVEL desenvolvimento da lavoura cafeeira contará co-
mo primeiro fator no reajustamento da vida econômica do Brasil, 
tão abalada desde a transferência da corte portuguesa para o Rio 
de Janeiro e a emancipação política do país. As crescentes expor-
tações de café que tomam logo um vulto que deixa a perder de vista 
o intercâmbio comercial do passado
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, permitirão não somente res-
taurar o balanço das contas externas do país, tão comprometidas na 
fase anterior, mas restaurá-lo em nível nitidamente superior a tu-
do quanto o Brasil conhecera no passado. A partir de 1860, o co-
mércio exterior começa a se saldar invariavelmente com superavits 
crescentes. E isto apesar de uma importação que se avolumava; o 
que permitiu aliás não somente uma ascensão sensível do padrão de 
vida da população \u2014 pelo menos de certas classes e regiões \u2014 mas 
também o aparelhamento técnico do país, inteiramente dependente, 
neste terreno, do estrangeiro. Refiro-me a estradas de ferro e ou-
tros meios de comunicação e transportes, mecanização das indús-
trias rurais, instalação de algumas primeiras manufaturas, etc. 
Pode-se dizer que é nesta época que o Brasil tomará pela primeira 
vez conhecimento do que fosse o progresso moderno e uma certa ri-
queza e bem-estar material. 
Mas não será apenas esta a conseqüência mais imediata do de-
senvolvimento da lavoura cafeeira. Ele terá também o efeito de re-
forçar a estrutura tradicional da economia brasileira, voltada in-
teiramente para a produção intensiva de uns poucos gêneros desti-
nados à exportação. Graças ao amparo de um artigo como o café, de 
largas facilidades de produção no país e de considerável importân-
cia comercial nos mercados mundiais, aquela estrutura, momentanea-
mente abalada pelas transformações sofridas pelo país na primeira 
parte do século, consegue se refazer e prosperar mesmo considera-
velmente ainda por muito tempo. E com ela se reforçarão também os