Historia Economica do Brasil
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medindo-se os lotes por muitas léguas. O que 
é compreensível: sobravam as terras, e as ambições daqueles pio-
neiros recrutados a tanto custo, não se contentariam evidentemente 
com propriedades pequenas; não era a posição de modestos campone-
ses que aspiravam no novo mundo, mas de grandes senhores e lati-
fundiários. Além disso, e sobretudo por isso, há um fator material 
que determina este tipo de propriedade fundiária. A cultura da ca-
na somente se prestava, economicamente, a grandes plantações. Já 
para desbravar convenientemente o terreno (tarefa custosa neste 
meio tropical e virgem tão hostil ao homem) tornava-se necessário 
o esforço reunido de muitos trabalhadores; não era empresa para 
pequenos proprietários isolados. Isto feito, a plantação, a co-
lheita e o transporte do produto até os engenhos onde se preparava 
o açúcar, só se tomava rendoso quando realizado em grandes volu-
mes. Nestas condições, o pequeno produtor não podia subsistir. 
São sobretudo estas circunstâncias que determinarão o tipo de 
exploração agrária adotada no Brasil: a grande propriedade. A mes-
ma coisa aliás se verificou em todas as colônias tropicais e sub-
tropicais da América. O clima terá um papel decisivo na discri-
minação dos tipos agrários. As colônias inglesas do Norte, pela 
contiguidade aí de zonas diferentes e variedade de tentativas e 
experiências ensaiadas, bem como pelo fato de serem todas da mesma 
origem nacional, nos oferecem esplêndido campo de observação. Nas 
de clima temperado (Nova Inglaterra, Nova Iorque, Pensilvânia, No-
va Jérsei, Delaware) estabeleceu-se a pequena propriedade do tipo 
camponês; às vezes encontramos a grande propriedade, como em Nova 
Iorque, mas parcelada pelo arrendamento; a pequena exploração em 
todo caso, realizada pelo próprio lavrador, proprietário ou arren-
datário, auxiliado quando muito por um pequeno número de subordi-
nados. Ao sul da baía de Delaware, nesta planície litorânea úmida 
e quente, onde já nos encontramos em meio físico de natureza sub-
tropical, estabeleceu--se pelo contrário a grande propriedade tra-
balhada por escravos, a plantation. Na mesma altura, mas para o 
interior, nos elevados vales da cordilheira dos Apalaches, onde a 
altitude corrige a latitude, reaparece novamente a colonização por 
pequenas propriedades. A influência dos fatores naturais é tão 
sensível nesta discriminação de tipos agrários que ela acaba se 
impondo mesmo quando o objetivo inicial e deliberado de seus pro-
motores é outro. Assim na Geórgia e Carolina, onde nos achamos em 
zona nitidamente subtropical, a intenção dos organizadores da co-
lonização (neste caso, como em geral nas colônias inglesas, compa-
nhias ou indivíduos concessionários) foi constituir um regime de 
pequenas propriedades de área proporcional à capacidade de tra-
balho próprio de cada lavrador; com este critério iniciou-se a co-
lonização e a distribuição das terras. Mas frustrou-se tal objeti-
vo, e o plano inicial fracassou, instituindo-se em lugar dele o 
tipo geral das colônias tropicais. 
Nas ilhas de Barbados passou-se qualquer coisa de semelhante. 
A primeira organização que se estabeleceu aí foi de propriedades 
regularmente subdivididas, e não se empregou o trabalho escravo em 
escala apreciável. Mas pouco depois, introduzia-se na ilha a cul-
tura eminentemente tropical da cana-de-açúcar: as propriedades se 
congregam, transformando-se em imensas plantações; e os escravos, 
em número de pouco mais de 6.000, em 1643, sobem, 23 anos depois, 
para mais de 50.000. 
A grande propriedade será acompanhada no Brasil pela monocul-
tura; os dois elementos são correlatos e derivam das mesmas cau-
sas. A agricultura tropical tem por objetivo único a produção de 
certos gêneros de grande valor comercial, e por isso altamente lu-
crativos. Não é com outro fim que se enceta, e não fossem tais as 
perspectivas, certamente não seria tentada ou logo pereceria. É 
fatal portanto que todos os esforços sejam canalizados para aquela 
produção; mesmo porque o sistema da grande propriedade trabalhada 
por mão-de-obra inferior, como é a regra nos trópicos, e será o 
caso no Brasil, não pode ser empregada numa exploração diversifi-
cada e de alto nível técnico. 
Com a grande propriedade monocultural instala-se no Brasil o 
trabalho escravo. Não somente Portugal não contava com população 
bastante para abastecer sua colônia de mão-de-obra suficiente, co-
mo também, já o vimos, o português, como qualquer outro colono eu-
ropeu, não emigra para os trópicos, em princípio, para se engajar 
como simples trabalhador assalariado do campo. A escravidão torna-
se assim uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos 
em todas as colônias tropicais e mesmo subtropicais da América. 
Nas inglesas, onde se tentaram a princípio outras formas de traba-
lho, aliás uma semi-escravidão de trabalhadores brancos, os inden-
tured servants, a substituição pelo negro não tardou muito. É ali-
ás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que ex-
plica o renascimento, na civilização ocidental, da escravidão em 
declínio desde fins do Império Romano, e já quase extinta de todo 
neste séc. XVI em que se inicia aquela colonização. 
Assinalei que no Brasil se recorreu, a princípio, ao trabalho 
dos indígenas. Estes já se tinham iniciado na tarefa no período 
anterior da extração do pau-brasil; prestar-se-iam agora, mais ou 
menos benevolentemente, a trabalharem na lavoura de cana. Mas esta 
situação não duraria muito. Em primeiro lugar, à medida que afluí-
am mais colonos, e portanto as solicitações de trabalho, ia de-
crescendo o interesse dos índios pelos insignificantes objetos com 
que eram dantes pagos pelo serviço. Tornam-se aos poucos mais exi-
gentes, e a margem de lucro do negócio ia diminuindo em proporção. 
Chegou-se a entregar-lhes armas, inclusive de fogo, o que foi ri-
gorosamente proibido, por motivos que se compreendem. Além disto, 
se o índio, por natureza nômade, se dera mais ou menos bem com o 
trabalho esporádico e livre da extração do pau-brasil, já não a-
contecia o mesmo com a disciplina, o método e os rigores de uma 
atividade organizada e sedentária como a agricultura. Aos poucos 
foi-se tornando necessário forçá-lo ao trabalho, manter vigilância 
estreita sobre ele e impedir sua fuga e abandono da tarefa em que 
estava ocupado. Daí para a escravidão pura e simples foi apenas um 
passo. Não eram passados ainda 30 anos do início da ocupação efe-
tiva do Brasil e do estabelecimento da agricultura, e já a escra-
vidão dos índios se generalizara e instituíra firmemente em toda 
parte. 
Isto não se fez, aliás, sem lutas prolongadas. Os nativos se 
defenderam valentemente; eram guerreiros, e não temiam a luta. A 
princípio fugiam para longe dos centros coloniais; mas tiveram lo-
go de fazer frente ao colono que ia buscá-los em seus refúgios. 
Revidaram então à altura, indo assaltar os estabelecimentos dos 
brancos; e quando obtinham vitória, o que graças a seu elevado nú-
mero relativamente aos poucos colonos era freqüente, não deixavam 
pedra sobre pedra nos núcleos coloniais, destruindo tudo e todos 
que lhes caíam nas mãos. 
Foi este um período agitado da história brasileira. Às guerras 
entre colonos e indígenas acrescentaram-se logo as intestinas des-
tes últimos, fomentadas pelos brancos e estimuladas pelo ganho que 
dava a venda de prisioneiros capturados na luta. De toda esta agi-
tação eram os índios naturalmente que levavam o pior; mas nem por 
isso os colonos deixaram de sofrer muito. São inúmeros os casos 
conhecidos de destruição total dos nascentes núcleos; certos seto-
res do litoral brasileiro sofreram tanto dos ataques indígenas